“Noite de São João quer alho na cabeça e martelo com tesão”
Grande Livro das Dissidências
Notícia triste a da morte de Saramago. Só me cruzei fisicamente com ele uma vez, na Feira do Livro de Braga, decorria o último dia de Março de 2004. Pedi-lhe um autógrafo para o livro “Ensaio sobre a Lucidez”. E digo “fisicamente”, porque Saramago cruza-se comigo frequentemente, quer através dos seus livros, quer como inspiração para as minhas crónicas politicamente incorrectas e que tanta “comichão” fazem a alguns senhores doutores… perdão, quero dizer senhores professores doutores (com a devida vénia), da nossa urbe. Sempre admirei o espírito dissidente e provocatório de Saramago perante o “status quo” vigente da nossa sociedade rica em hipocrisia e vaidade.
Apesar deste início de crónica estar escrito num tom mais grave do que aquele a que o leitor está habituado, asseguro-lhe de que nesta minha breve homenagem a José Saramago vou usar e abusar da sátira ao meu pior estilo. Mais satisfeito? No entanto, se o estimado leitor quiser ler crónicas mais sérias, basta folhear os jornais e revistas que nos últimos dias têm publicado centenas de artigos sobre o Nobel português.
De todos os livros de José Saramago, foi o “Ensaio sobre a Cegueira” aquele que mais me marcou, na medida em que nos transmite poderosas mensagens sobre os podres da nossa sociedade. Atenção leitores mais católicos: eu disse “podres”, não disse “padres”.
Penso que Cavaco Silva e Jaime Gama, respectivamente, primeira e segunda figuras do Estado Português, merecem um valente puxão de orelhas pela sua ausência nas cerimónias fúnebres de Saramago. Cavaco desculpou-se com o facto de estar nos Açores de férias com a família e coiso e tal. Jaime Gama, curiosamente, também estava nos Açores. Senhores Presidentes, atentem bem neste caso: José Saramago também estava numa ilha, em família e a gozar férias eternas e, mesmo morto, veio para o continente… dahhhh…
Quem também esteve ausente da cerimónia foi Sousa Lara, subsecretário da cultura do governo de Cavaco Silva, que em 1992 cortou o romance “O Evangelho Segundo Jesus Cristo” da lista de candidatos ao Prémio Literário Europeu. O comportamento de Sousa Lara representa o que de mais mesquinho existe dentro de uma certa alma portuguesa, defensora da moral bacoca. Também a mim me chegaram a dizer: “Se o teu blogue Dissidências fosse anónimo, não havia problema nenhum. O problema é que assinas o que escreves”. E foi-me isto dito por um professor catedrático…
A vida de Saramago constitui um excelente exemplo para ilustrar a fuga de “cérebros” do nosso país. Este pequeno rectângulo em que vivemos, por vezes ainda parece viver em plena Idade Média, tais são os preconceitos e a mediocridade que povoam os bolorentos neurónios de alguns dos seus habitantes, a começar por alguns professores doutores que tanto apregoam as virtudes da democracia nos seus escritos, mas que são os primeiros a condenar quem ousa ir mais além em termos de escrita. Tenho a certeza de que algumas das nossas “prestigiadas” universidades, criadas em pleno período revolucionário, jamais aceitariam um docente com as características de José Saramago: crítico e irreverente. Caía o carmo e a trindade…
Mas como o mundo é, felizmente, mais do que o nosso Portugalzinho curto de ideias, a Real Academia Sueca resolveu atribuir a José Saramago, em 1998, o Prémio Nobel da Literatura, argumentando que “com parábolas portadoras de imaginação, compaixão e ironia, [Samago] torna constantemente compreensível uma realidade fugidia”. Desconfio que quer Cavaco
Silva, quer Sousa Lara, nunca chegaram realmente a compreender o que foi dito pela Real Academia Sueca.
Quem também ficou mal no retrato foi o Vaticano, que comentou a morte de Saramago de uma forma nada católica, apelidando-o de “populista e extremista”, lamentando o facto de o escritor ter banalizado, com as suas obras, o sagrado. Ora, eu acho que é preferível um “sagrado banal” do que um “sagrado chique e selectivo”. Ou bem que o sagrado é para todos ou bem que não é para ninguém, porra!
Termino esta crónica com um grande bem-haja para a nossa selecção de futebol que se encontra a disputar o Mundial 2010 na África do Sul. Aposto que foi em homenagem a José Saramago que os nossos navegadores fuzilaram a selecção da Coreia do Norte com uns devastadores sete golos sem resposta! Obrigado selecção! Obrigado Saramago!
Ensaio sobre o futebol
“Marquemos, disse o mudo. E o paralítico correu e marcou golo ao cego.”
Livro das Impossibilidades
A criação da bola e dos estádios e de tudo o que neles se contém.
No princípio, criou Mourinho os estádios e a bola.
E a bola era sem forma e vazia; e havia trevas sobre o relvado; e o espírito de Mourinho se movia sobre o cérebro dos jornalistas.
E telefonou Mourinho a António Mexia e lhe disse: Haja luz. E houve luz sobre o relvado... mas só após Mourinho ter feito uma transferência de 3 milhões para a conta do CEO da EDP. Foi o dia segundo.
E viu Mourinho que era boa a luz; e fez Mourinho separação entre a luz e alvalade.
E Mourinho chamou à luz Benfica e a alvalade chamou Sporting.
Mourinho viu que era bom e disse aos estádios: Crescei e multiplicai-vos, de norte a sul, de este a oeste.
Entusiasmado com esta sua obra, Mourinho queria, no entanto, uma maior organização táctica, e ordenou: Haja uma expansão no meio do relvado, e haja separação entre relvado e relvado.
E fez Mourinho a expansão, e fez separação entre a relva que estava à esquerda da estrada e a relva que estava à direita da estrada.
E chamou Mourinho à estrada, Segunda circular. E foi o dia terceiro.
E disse Mourinho: Um relvado sem bolas é como um Saramago sem polémicas. Que as crianças do Paquistão dêem forma às bolas e as cosam à mão!
E as crianças do Paquistão fizeram duas bolas sem receberam nada em troca, pois a Mourinho nada se pede. A Mourinho só se louva.
E Mourinho as abençoou (às duas bolas) e lhes disse: Crescei e multiplicai-vos pelos relvados de todo o mundo, nem que para isso se tenha que recorrer ao trabalho escravo infantil.
E os estádios e as bolas multiplicaram-se por todo o mundo. E Mourinho viu que era bom. E assim foi o dia quarto.
Mas apesar da fantástica obra que Mourinho tinha criado, faltava qualquer coisinha que animasse os estádios.
Foi então que Mourinho disse: produzam os relvados jogadores de alma goleadora. E Mourinho viu que era bom vê-los a jogar à bola. E foi assim o dia quinto.
Mas Mourinho sentia-se sozinho nas bancadas. Então disse: produzam as bancadas répteis, felinos e aves de alma chinfrineira, que animem os estádios.
E assim foram criadas as claques de dragões, lagartos, leões, águias e outros animais. E os estádios nunca mais foram os mesmos.
Mourinho sentou-se no seu cadeirão celestial e pensou, e pensou, e pensou como é que haveria de baptizar esta sua divertida obra.
Ao fim de muito pensar e pensar, Mourinho achou por baptizar esta sua obra com o nome de “Futebol”. E assim Mourinho criou o futebol. E Mourinho viu que era bom. E assim foi o dia sexto.
E ao sétimo dia, Mourinho não descansou, nem deixou descansar ninguém.
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