'Há mar e voltar', por Filipe Moreira

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O velho progredia na água prateada, sem aparentar medo algum, com um à-vontade que transmitia confiança, e encaminhava-se na direcção do outro lado da baía. Ao longe, o céu cor de chumbo e de ferrugem e as ruínas do braço de terra que penetrava no mar, delineavam um horizonte recortado.

E contra esse pano de fundo, contrastavam os longos cabelos brancos e a comprida barba, que flutuava já ao sabor das ondas, enquanto ele caminhava decidido, os braços a afastarem a espuma acobreada da superfície da água, com os olhos vítreos e imaculadamente brancos fixos no seu destino.

Eu seguia atrás dele, inseguro, a água tornava os meus movimentos amplos, fluídos, e a minha locomoção reduzia-se aos pequeníssimos saltos que dava, aproveitando uma corrente que só nós conhecíamos, porque só nós nos aventuramos a atravessar a baía desta forma, pelo mar e a pé. Ele continuava a incentivar-me com a sua voz serena e tranquila.

A temperatura amena da água condizia em tudo com a cor avermelhada que parecia irradiar das ruínas e com o nevoeiro quente de cor terrosa e cheiro ácido que nos envolvia. Eu não sabia ao que ia. As ondas que me cobriam a cabeça de vez em quando eram suaves e frescas, e sempre que me encontrava submerso, estranhamente, não sentia pânico, apenas uma calma profunda, uma vontade de ali ficar, entre as algas compridas que me lambiam as pernas e a areia brilhante e fosforescente onde os meus pés iam ganhando impulso para o salto seguinte.

Não fora a necessidade de ar e sentia poder ficar ali para sempre, naquele meio aquático que me embalava. Ao mesmo tempo, sentia uma curiosidade enorme em saber o que nos esperava quando chegássemos ao nosso destino. Queria saber o que se escondia no interior das ruínas, tinha esquecido por completo como tinha chegado ali, o que me motivara a entrar na água, a seguir aquele velho homem, a confiar na sua experiência para atravessar a pé este mar desconhecido.

Foi então que me apercebi que a última onda que me cobrira, silenciou a sua voz e não mais vi os seus cabelos. Estava sozinho, e a dar-me conta da armadilha para onde me dirigira. A água tornava os meus movimentos mais pesados, não conseguiria sair dela por falta de forças, a corrente que me impulsionava circundava a baía, poderosa, constante, e não se aproximava da praia. Estava condenado a circular por ali, até as forças me faltarem, até os meus cabelos e barba ganharem o comprimento e a cor branca que flutuam nesta água de prata.

Até ficar cego com um destino impossível. Até soçobrar, imerso pelas ondas espumosas e brandas, envolvido pelas algas que hão-de alimentar-se dos meus restos fosforescentes.

- Vão em paz e que o Senhor vos acompanhe... - ouvi eu. Abri os olhos, e murmurando um Amen mecânico levantei-me. Já cá fora, e enquanto tentava despedir-me com o habitual «até para a semana», o cheiro ácido e agoniante da mentira obrigou-me a respirar pela boca, e saí dali o mais depressa que pude.

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