Uma Escola com ‘A’ Grande

Ideias

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Alexandrino Silva

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Ainda que tenham mudado as motivações e os fundamentos, desde há um século que se fala em Portugal de uma Escola universal, assente num princípio de democratização do ensino. Desde a Escola para todos, em que o regime republicano assume um nível mínimo de instrução como elemento fundamental para a integração cívica do indivíduo na sociedade, passando pela justiça social e igualdade no acesso, implícita na ideia da Escola única na transição da República para o Estado Novo, até ao pós 25 de Abril em que na Escola de massas é projetada a ânsia de recuperação dos direitos fundamentais dos cidadãos e esta se assume como um dos baluartes da Democracia.

A questão é que a Escola, tal como a Democracia, passou de uma conquista a um dado adquirido e, como tal, assistiu-se a uma degradação do seu valor intrínseco e a uma desvalorização do seu papel enquanto elemento potenciador do indivíduo nas suas múltiplas dimensões. Num processo simultâneo, observou-se um progresso económico insuflado e relativamente rápido, que permitiu o acesso mais alar-gado aos bens de consumo, criando uma sensação de que ‘todos tinham direito a tudo’ que se instalou e foi estabelecendo hábitos de acomodação e facilitismo.

A exaltação do “xico-espertismo” e a atitude “nacional-porreirista” substituiu uma desejada cultura de esforço, de responsabilidade e de mérito, que na escola ainda foi agravada pela excessiva proteção ao aluno e a degradação do papel do professor. A diferenciação curricular levada ao extremo e as teorias construtivistas assentes em pressupostos irrealistas transformaram o percurso escolar numa mera formalidade, rumo a um sucesso garantido.

Se é verdade que, hoje em dia, os melhores conseguem tendencialmente atingir patamares mais elevados do que os melhores de gerações anteriores - fruto do conhecimento acumulado e da informação mais acessível, a par de uma capacidade impressionante de multi-tasking que foram desenvolvendo com as diferentes ferramentas tecnológicas - devemos atentar para o caminho que os restantes têm trilhado ao longo de um percurso escolar cada vez mais longo.

A relativização extrema dos processos de ensino-aprendizagem, na tentativa desesperada de abranger todos os jovens que frequentam as salas de aula, abriu espaço para que a Escola deixasse de ser entendida como um local de trabalho para ser vivida unicamente como um espaço lúdico em que os alunos vão ocupando o seu tempo com atividades supostamente apelativas e interessantes, em que a forma foi eclipsando os conteúdos programáticos, os objetivos fundamentais e as aprendizagens efetivas. No final do processo, a contas com uma inevitável avaliação, recorrem-se a contorcionismos esforçados e a fórmulas engenhosas para validar as suas supostas competências.

Tudo isto não passaria de uma análise pessimista assente no histórico ‘conflito’ geracional, em que tradicionalmente cada geração se assume como arauto da desgraça, face ao futuro entregue à seguinte, não fosse a constatação de alguns factos muito concretos. Será admissível que alunos com doze anos de escolaridade escrevam mails com dois parágrafos sem qualquer tipo de pontuação e de difícil entendimento, como se nunca tivessem relido o que escreveram; que à pergunta “What time is it?”, respondam com o seu nome; que duvidem, no momento da resposta, que qualquer número multiplicado por um resulta nesse mesmo número ou que hesitem sobre quem escreveu os Lusíadas? Deverá a Escola continuar eternamente a assumir todas as responsabilidades, obrigando-se a uma reformulação permanente, no sentido de ensaiar sucessivas aproximações a alunos que insistem em manter militantemente uma equidistância comprometedora? Os resultados estão à vista!

Acredito sinceramente que a Escola deverá providenciar e adequar todas as estruturas de suporte que possam propiciar as melhores condições para que os Alunos atinjam o sucesso. Mas a mesma Escola não poderá continuar a aceitar, com um conformado encolher de ombros, a displicência, a insolência, o alheamento, a falta de estudo, a sonolência e o desleixo que muitos alunos ostentam orgulhosamente e a que se dedicam diariamente.

A flexibilidade e a tolerância da Escola não poderão chegar ao limite de abdicar dos princípios que estão na sua génese e que devem orientar a sua missão. O conceito de rigor e de justiça, dentro da sala de aula, não poderá ser colocado em causa, sob pena de se descredibilizar a escola junto daqueles que se esforçam e dedicam para atingir resultados positivos.
Para além disso, impõe-se também que os Pais tenham uma intervenção mais efetiva na educação e formação pessoal dos seus filhos, acompanhando ativamente o seu percurso escolar, exigindo resultados e valorizando o seu desempenho.

Neste contexto, considero imprescindível que a EPB não abdique dos seus padrões de rigor e exigência, continuando a funcionar como uma referência no meio escolar e uma garantia de qualidade para as empresas que irão acolher os nossos estagiários/diplomados. A EPB, como verdadeira Escola, deve continuamente promover um processo dinâmico de valorização mútua, de que os Alunos sairão como os maiores beneficiados.

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