Contra a crise... marchar, marchar

Ideias

autor

Jorge Franqueira

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É inevitável. Por muito que se tente, não conseguimos retirar o jugo da crise do nosso pensamento. É carraça que nos suga as ideias e nos tolhe os movimentos.
Poderão pensar qual o enquadramento deste introito para um texto sobre o curso de Construção Civil da Escola Profissional de Braga.

Digamos que, sem pretensiosismo, tem tudo a ver, pois não podemos esquecer que este é provavelmente o setor da vida económica da região e do país que está a passar por mais dificuldades. Uma realidade que nos confronta com uma situação extremamente delicada, na relação com os nossos formandos, já que tem a ver com todo o investimento que tem sido feito na sua formação e as expectativas que lhes têm sido criadas.

Temos feito, ao longo dos últimos anos, um esforço titânico, no sentido de preparar os nossos formandos com uma base forte na componente técnica e científica, alicerçada na sociocultural, por forma a darem uma resposta adequada às necessidades de mercado, e à evolução e adequação das empresas. Para além deste aspeto, tem havido uma grande preocupação no sentido de lhes transmitirmos regras, princípios, valores e atitude crítica que lhes proporcionem sustentação para a vida profissional e para o seu futuro.

Uma estratégia que tem assentado numa relação de honestidade e de transmissão da ideia de que o investimento que estão a fazer terá, em devido tempo, o merecido retorno. É, ainda baseada na credibilidade e na aceitação do curso e na preparação e resposta que os nossos formandos têm dado.

Neste enquadramento, é extremamente difícil aceitar e sobretudo sustentar uma educação que está condenada à falta de oportunidade, essencialmente por falta de futuro. Não acreditamos, recusamo-nos a acreditar, na sina tão cantada pelos nossos poetas de que o luto ocupa espaço privilegiado, sendo a subjugação ao destino um processo natural. Não é justo que os nossos alunos se sintam defraudados.

Nestes últimos dias, veio a público a informação da venda do quadro de Edvard Munch, O Grito, pela quantia de 91 milhões de euros, quadro que “fala por toda a gente e em que o impulso de olhar para as coisas que nos incomodam é parte fundamental da condição humana”.

Esta obra de arte bem pode ser o símbolo daquilo que todos nós temos necessidade e, provavelmente, obrigatoriedade de dar, para nos fazer acordar da letargia a que nos temos remetido. E o valor que vai atingir este nosso grito vai ser, sem sombra de dúvida, muito mais elevado.
Assim, o nosso contributo para o grito será o de continuar a manter e a reforçar o que consideramos correto e adequado na preparação dos nossos formandos: continuar a insistir na transmissão de valores, de princípios e de conhecimento que os ajudem a crescer.

Miguel Portas, falecido recentemente, disse em tempos que “procurou fazer pelos outros mais do que por si próprio”. Esta é para nós, uma das atitudes mais nobres que podemos encontrar e que poderá ser a verdadeira sina da escola dos nossos dias. Mas, a perseguição deste objetivo não tem que ser, nem pode ser, a qualquer preço. Não podemos abdicar das regras, orientações, respeito, disciplina, ainda que sempre condimentados com o afeto.

Quantas vezes, a melhor e maior, ainda que penosa, manifestação de afeto é a de dizer “não”? Não temos dúvidas de que estas atitudes são muito mais dolorosas para nós do que para os formandos. Temos é a certeza, que nos é dada pelos Janeiros que carregamos às costas, de que eles vão reconhecer e agradecer.
Não temos certezas e a inquietação deve ser o denomina-dor comum para o entendimento do próximo e de toda a complexidade da sociedade dos dias de hoje.

Existem, porém, algumas questões em que a abordagem é mais complexa e de mais difícil enquadramento, sendo uma delas a grande dificuldade em lidar com a situação de medo instalado na sociedade e nas relações profissionais. Medo pela ausência de oportunidade, medo pela falta de dinheiro, medo pelo descambar dos filhos, medo pelo futuro dos netos, …medo de viver.
Medo do presente… pavor do futuro.

Este é provavelmente um dos maiores cancros da sociedade democrática e livre, já que coloca em questão todos os valores da integridade humana, que tem inerente a responsabilidade, o respeito por si próprio e pelos outros, a solidariedade e o acreditar que o amanhã vale a pena.
Pelo que, para este combate existe a necessidade urgente de uma concertação de esforços e de discurso que envolva todos os agentes com implicações em todo este processo (empresários, sindicatos, agentes de formação e outros), no sentido do restabelecimento da confiança e no acreditar que é possível e que merecemos um futuro melhor. Porque os nossos jovens, nossos interlocutores diretos e em quem investimos em permanência, merecem um futuro e têm de acreditar nele.

Martin Luther King disse um dia “Tenho um sonho… tenho um sonho de que um dia todos os vales serão elevados, todas as montanhas e encostas serão niveladas, os lugares ásperos serão polidos e os lugares tortuosos serão endireitados”.
Como ele, também temos um sonho, assente na obrigação de ajudar na criação e crescimento de jovens com uma atitude crítica, essencial para o seu crescimento e, quiçá, para a sua sobrevivência, em simultâneo preenchidos de valores que contribuam para a criação de uma sociedade mais justa, mais equilibrada e também mais feliz.

Este sonho leva-nos a concluir este texto com um sinal de esperança e de sentida crença de que vamos ter muitas coisas bonitas, que estão para acontecer. Como homem das artes, não tenho dúvidas de que o arco-íris vai aparecer e vai contrariar o cinzento dos nossos últimos dias (tempos). Não é tarefa fácil, mas é um caminho sem saída.
Esta crença no futuro, vem na linha de intervenção de uma das nossas musas da beleza, Sophia de Mello, que referenciava o passado mas que amava, essencialmente, o futuro:

“Estilo manuelino:
Não a nave românica onde a regra
Da semente sobe da terra
Nem o fuste de espiga
Da coluna grega
Mas a flor dos acasos que a errância
Em sua deriva agrega.”

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