Relvas, ervas daninhas e bichos

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Daniel Luís

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Já se sabe: relva que se aproxime de erva daninha, assina a sua sentença de morte. A erva daninha espalha-se, cresce e introduz-se por todo o lado de forma selvagem, mesmo sem ser semeada. Ora, penso que foi precisamente isto que aconteceu com o Ministro Adjunto Miguel Relvas ao aproximar-se do espião Silva Carvalho. Relvas deixou-se enredar numa teia interminável de influências e de contactos tecida por Silva Carvalho, ficando nela aprisionado e sem saber como dela escapar. Mas ele estava mesmo a pedi-las…

O poder deslumbra o comum dos mortais e Miguel Relvas entusiasmou-se de tal maneira que quis ver como era ter poder sobre a comunicação social. Deve ter pensado: Se Sócrates pôde, porque é que eu também não posso? E, para isso, nada melhor do que contar com os serviços de um amigo armado em espião que tem acesso à vida privada seja de quem for. É só pedir…

E Silva Carvalho não brinca em serviço. O espião chegou mesmo a construir uma base de dados com a orientação sexual dos políticos, base de dados esta que a Procuradora Teresa Almeida mandou apagar. Logo aquilo que podia ser mais interessante é que a Procuradoria manda apagar…

Por isso não estranhei quando li a ameaça que Miguel Relvas, alegadamente, fez à jornalista do Público, Maria José Oliveira, ameaça esta que consistia em divulgar factos da vida privada da jornalista na internet. E, já se sabe: sobre a vida privada só têm interesse factos que tenham a ver com orientação sexual, com parceiros ou com gostos sexuais. De certeza que Miguel Relvas quando ameaçou Maria José Oliveira com a divulgação de factos da sua vida privada, não se estava a referir a gostos culinários da jornalista…

Há quem diga que é a palavra da jornalista contra a do Ministro. Nada mais errado! Para começar, porque haveria o Ministro Miguel Relvas de pedir desculpas à editora de economia do jornal Público? É porque estava a adivinhar na bronca (mais uma) em que se estava a meter. Depois, não posso acreditar numa pessoa que nos últimos dias já fez várias declarações contraditórias no âmbito das averiguações sobre o escândalo das secretas.

Imaginem bem que Relvas até chegou a jantar com Silva Carvalho na Quinta do Lago, no célebre restaurante Gigi, no dia 5 de Agosto de 2011. Silva Carvalho até trata Relvas por “tu” nos sms. E depois vem Relvas dizer que o espião não é das suas relações.
E, ao contrário do que disse no Parlamento, afinal Relvas respondeu, pelo menos, a alguns dos sms de Silva Carvalho, como aquele sms de 16/04/2011 em que diz ao espião que vai “ver o que pode fa-zer”. Será que Pedro Passos Coelho os vai ter no sítio e vai aplicar a sua regra de ouro: “Aqueles que mentem vão para a rua”?

Mas no meio da relva e das ervas daninhas ainda há lugar para um bicho, João Bicho, o nome indicado por Silva Carvalho para o SIED, que teria como adjunta Filomena Teixeira. Filomena Teixeira, apesar da proximidade com Silva Carvalho, participou, em 2011 como instrutora do processo de averiguações interno nos serviços secretos sobre a obtenção da lista de telefonemas do jornalista Nuno Simas. Promiscuidades à portuguesa…
Sobre o bicho: já foi exonerado e pensa-se que já não infestará mais as secretas.

Mas esta mania de se levar informação considerada secreta ou privilegiada, quando se sai de um cargo público e se envereda por uma carreira numa empresa privada como a Ongoing, afinal não tem sido a prática corrente desde há muitos anos? O que fez, por exemplo, Ferreira do Amaral, quando trocou o Ministério das Obras Pú-blicas pela Lusoponte? Ou Jorge Coelho quando trocou o mesmo Ministério pela Mota-Engil? Penso mesmo que estes dois últimos deixaram heranças bem mais pesadas para o Estado Português do que Jorge Silva Carvalho.

Está bem que o projecto da dupla Silva Carvalho / Miguel Relvas era dominar a comunicação social (e o mundo, pensariam eles) através do grupo Ongoing, usando para isso os serviços secretos portugueses. Um dos objectivos, parece-me a mim, passava por devassar a vida privada do Presidente do Grupo Impresa, Francisco Pinto Balsemão, seu concorrente directo. E isso é muito feio, muito feio mesmo, até porque o Balsemão acabou de receber o Globo de Ouro de Mérito e Excelência. Aposto que Silva Carvalho deve ter ficado verde de inveja!

Por tudo o que eu já li sobre este caso, parece-me a mim que Miguel Relvas alimenta uma insaciável sede de poder, alicerçado em ditos e mexericos que lhe são proporcionados por um espiãozeco que mais não passa de um vulgar ‘voyeur’…

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