Abram alas ao príncipe

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Daniel Luís

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Na última quinta-feira, dia 31 de Maio, seguia eu calmamente pela circular sul de Braga quando, de um momento para o outro, fui como que engolido por um aparatoso dispositivo policial. A princípio senti o meu ego a inchar, pois não é todos os dias que se é escoltado por um dispositivo constituído por, pelo menos seis motas e dois carros da GNR (isto que eu contasse…) com a sirene e os pirilampos ligados. Mas depressa o meu ego desinchou quando um militar da GNR, montado numa mota, se abeirou da janela do meu carro, e com a habitual “delicadeza” oral-gestual que tão bem conhecemos destes militares, me ordenou que desandasse dali para fora para não empatar a marcha do príncipe.

O militar da GNR mais parecia o Mira Amaral a falar e ter-me-à dito mais ou menos assim: “Abgam alas paga o futugo gay de Espagnha”. E eu, claro, para não incorrer em desobediência à autoridade, não tive outro remédio senão acelerar o meu veículo para deixar a estrada livre para o príncipe das Astúrias e sua real comitiva. E foi assim que uma autoridade me obrigou a exceder os limites de velocidade na cidade de Braga.

Claro que se eu infringisse os limites de velocidade, por exemplo, numa urgência de saúde rumo ao hospital, os senhores polícias não iriam compreender e aplicar-me-iam a respectiva coima. Mas como se tratava dos superiores interesses do excelentíssimo príncipe das Astúrias que queria che-gar rápido ao Instituto de Nano- tecnologia, desrespeitando todas as mais elementares regras de circulação rodoviária, aí já não fazia mal superar os limites de velocidade…

Seguia com a minha mulher ao lado que me pedia para ir mais devagar e eu respondia-lhe: “não posso, não vês que tenho a polícia atrás de mim?” Acho que foi a primeira vez em que pude ir desrespeitando as sucessivas regras de trânsito, com a polícia a dar-me cobertura. Um espectáculo!

Fui, deste modo, ainda que involuntariamente, uma espécie de batedor da real comitiva do príncipe das Astúrias em Braga. Teve ele muita sorte por eu morar na zona do Instituto de Nanotecnologia. Se eu morasse, por exemplo, perto do aterro sanitário, será que a comitiva real me seguiria até lá? Ou isto é já mania da perseguição? Pelo menos no aterro sanitário o príncipe, seguramente, ficava a conhecer mais de Braga e dos bracarenses do que ficou a conhecer com a sua visita ao Instituto de Nanotecnologia...

Sinceramente, não percebo como é que uma autoridade que se chama “Guarda Nacional Republicana” se verga perante a vontade e os interesses de uma figura monárquica como o príncipe Felipe. E eu, que sou o republicano, é que sou o escorraçado pela Guarda Nacional Republicana? Isto anda tudo ao contrário!

Era bonito era aparecer por aí o Dom Afonso Henriques para assistir a esta triste cena, de um compatriota seu (que por acaso até eu sou…) a ser preterido em favor de um espanhol. Aposto que Dom Afonso Henriques dava logo uma lição de patriotismo aos militares da GNR que me escorraçaram (em abono da verdade foi só um, mas se eu não obedecesse ao primeiro estavam lá os restantes para me “colocar na ordem”… pressenti isso no meu íntimo). Afinal o Tratado de Zamora serviu para quê? Para continuarmos subservientes aos espanhóis? Honremos o nome e a memória de Dom Afonso Henriques, c’um catano!

Mas eu tive a minha vingançazinha… Estacionei nas imediações do Instituto de Nanotecnologia (em sítio seguro, fora do alcance dos snipers que vigiavam toda a envolvente a partir dos telhados do Instituto) e pus-me a ouvir, de vidros abertos, volume bem alto, o fantástico fado da grande diva Amália Rodrigues: “São caracóis, são caracolitos, são os espanhóis, são espanholitos, são os espanholitos, são os espanhóis, são caracolitos, são caracóis”. Toma lá um fado da grande Amália, príncipezeco que tem a mania que manda até nas regras de trânsito!

Também não compreendo o seguinte: o príncipe Felipe e a princesa Letizia estavam tão bem lá por Lisboa, nos banquetes e visitas oficiais a coisas que se viam bem ao perto e ao longe, e resolveram dar um pulinho a Braga para dar uma vista de olhos a quê? A coisas que mal se veem! Isto não lembra nem ao diabo! Assim não governam vida, não…

Mas uma coisa Felipe fez bem: veio a Braga sem o seu pai, o rei Juan Carlos. É que na semana passada andei de trombas pela fraca exibição da nossa selecção frente à Macedónia, pelo que se o rei espanhol me visse ainda era capaz de me dar um tiro…

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