A Produtividade é uma questão de Educação

Ideias

autor

Paulo Leitão

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A palavra crise é uma daquelas que entra no léxico de qualquer criança portuguesa de tenra idade sobrepondo-se, na ordem de compreensão, a termos como sonhar, construir ou edificar.
É demasiado perturbador que continuemos a permitir que esta fatalidade congénita se mantenha no nosso ADN, mesmo que tenhamos consciência das debilidades seculares da nossa economia.
Não podemos perpetuar as nossas fragilidades, acomodando-nos a esse terrível cromossoma que determina, à nascença, a tendência para a incapacidade de produzirmos mais e muito melhor.

Definitivamente, devemos perceber que a produtividade é, acima de tudo, uma questão de educação, respeito e cidadania. Qualquer trabalhador, a partir do momento em que aceita colaborar com uma organização, tem o dever de cumprir, com celeridade e eficiência, todas as tarefas que permitam, à empresa, desenvolver a sua missão.
São estes valores que transmitimos aos alunos da Escola Profissional de Braga, há mais de duas décadas, que fazem os profissionais com a ‘marca EPB’, merecerem rasgados elogios provenientes da comunidade empresarial da região.

É por isso lamentável que, alguns dos iluminados que ajudamos a eleger, nos queiram fazer crer que seremos mais produtivos se ganharmos bastante menos, trabalharmos mais minutos por dia e, ajudando a esvaziar o respeito pela história e pela cultura nacional, abolirmos alguns feriados civis e religiosos, para que não tenhamos a tentação de procurar o conforto da família ou rezarmos pela redenção dos políticos.

Detesto comparações, mas no país que serve de locomotiva a toda a europa, e cujo PIB é apenas 125 vezes superior ao nosso, ninguém trabalha aos domingos, se excetuarmos os serviços prioritários. Além disso, nos feriados, que passarão a ser em número superior aos nossos, o lazer é absoluto, desde que acompanhado por enormes canecas de cevada de malte.
Não pretendo, com isto, dizer que não exista défice de produtividade na administração pública portuguesa. Contudo, essa lacuna é de tal forma percetível e circunscrita a determinadas espécies de improdutivos, que se torna incompreensível a falta de vontade para, cirurgicamente, se debelar cada uma das células maléficas, em detrimento da aplicação de doses de quimioterapia económica, cujos efeitos colaterais se poderão tornar irremediáveis.

Uma das espécies mais abundantes é a dos “improdutivos por ignorância”. Trata-se de um vasto conjunto de indivíduos que nada faz, apenas e só, porque não sabe o que pode ou deve fazer. Neste caso, a culpa é dos quadros médios e superiores que, por incompetência ou falta de vontade, é incapaz de definir fichas de função concretas, exequíveis e necessárias. Habitualmente, são quadros cujo tempo de trabalho se esgota em reuniões mal conduzidas, que se tornam infinitas e invariavelmente inconclusivas. Possuem secretárias estrategicamente desarrumadas, onde se acumulam dossiês para assinar, pareceres para consultar, e um imenso deserto de ideias e decisões por tomar.

Uma outra espécie é a dos “improdutivos geométricos”. Estes nativos de locais de trabalho muito arrumadinhos definem com régua e esquadro o seu limitadíssimo raio de atuação. Desconhecem os conceitos e polivalência, flexibilidade e trabalho em equipa. Em regra, adoram que se formem longas filas junto do seu posto de atuação e, cinco minutos antes da hora de encerramento da repartição, fecham a porta aos utentes. Geralmente, são incapazes de resolver um problema, mesmo que a solução seja visível a olho nu, mas se encontre na zona de abrangência de um colega de trabalho ausente.

Finalmente, não podemos esquecer os “improdutivos por convicção” que não se encontram, ainda, em vias de extinção. Entram para as instituições sem nunca dizerem como. São possuidores de uma elevadíssima autoestima, por ser essa a única forma de se considerarem imprescindíveis. Adoram desfilar o seu charme, mas as suas funções são completamente vazias de conteúdo. Gostam de tomar café, a qualquer hora, talvez por ser o método mais eficaz de espantar o tédio das suas ocupações. Aparentemente atarefados, fazem dois ou três telefonemas por dia e, com esforço, conseguem escrever metade de um mail, durante a jornada, para que a parte restante transite para o dia seguinte.

Apesar de todos nós conseguirmos reconhecer estes tipos de improdutividade, somos igualmente capazes de enumerar muitíssimos mais exemplos de funcionários exemplarmente dedicados, competentes e de uma eficiência notável.
Devemos exigir, por isso, que os nossos governantes sejam criteriosos e utilizem, com sensatez, os princípios da equidade e eficiência, e consigam dinamizar, regular e fiscalizar para que não continuem a confundir as árvores com a floresta.

Compreendo e partilho a ideia de que o Estado se deve tornar mais leve, mas isso não significa que tenha que ser mais fraco. Antes pelo contrário, um Estado despido de funções empresariais, que podem ser entregues aos privados, deve desenhar políticas que fortaleçam o nosso índice de desenvolvimento humano. Não me recordo, por exemplo, de uma única medida tomada, nos últimos 20 anos, que promova a família como verdadeiro ‘balão de oxigénio’ das estruturas sociais.

Façamos, então, a nossa parte. Enquanto famílias, procuremos incutir, nos mais novos, um espírito de rigor, de disciplina e de respeito.
Não os desculpemos permanentemente, como se de eternas crianças se tratassem, ou porque nas suas fragilidades revemos as nossas.
Valorizemos o papel da escola na construção de um rumo, na definição de regras e comportamentos de responsabilidade social. Procuremos ser a cada dia melhores e convoquemos o futuro com confiança.
Mas atenção, sejamos capazes de dar as mãos porque a angústia e a dor de alma das pessoas não transpira para os jornais.

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