Viagem no tempo

Voz às Escolas

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Vasco Grilo

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Em 1979, quando fui colocado em Torre de Moncorvo, ainda professor provisório do já extinto 12º grupo B (quem se lembra?), tive a oportunidade de conhecer a linha do Douro até ao Pocinho, na altura em obras, fazendo depois a viagem até Moncorvo em Camioneta (era assim que era chamada). Como a viagem era longa, já que partia de Barroselas, da linha do Minho, mudando de comboio em Ermesinde, aproveitava para ler, tendo na altura conhecido Ray Bradbury, autor de ficção científica, género que então cultivava com algum zelo. Morreu no passado dia 5, na Califórnia, com 91 anos.
Muita coisa mudou desde então, passados trinta e três anos, no mundo, em Portugal e na educação. Naquele tempo havia um certo romantismo em tudo, fruto das mudanças provocadas pelo 25 de Abril, sendo natural portanto que eu procurasse a companhia poética e fantástica de Ray Bradbury.
Nada porém se compara com o ritmo alucinante das mudanças destes últimos seis/sete anos. Se em Fahrenheit 451, obra que o celebrizou, Bradbury descreve uma realidade possível, a partir da ideia da eliminação do Livro, em Portugal, poucos se atrevem hoje a escrever o que quer que seja sobre o que será a realidade possível dos próximos tempos. Na educação, então, as coisas começam a tomar um rumo quase indecifrável, como se cada ano escolar fosse uma espécie de “caixinha” dos mistérios, hoje deste modo, amanhã, quem sabe?
O silêncio do atual ministério, afinal, era o silêncio da tempestade, da acalmia apenas aparente, prenunciando coisas difíceis. Louve-se a capacidade de chegar até aqui sem fugas de informação de maior, conseguindo até áreas de consenso para a implementação de medidas polémicas como as relacionadas com a constituição dos chamados mega-agrupamentos. Havia rumores, intenções, receios, mas não havia decisões.
Chegou entretanto uma parte substancial do que está pensado, envolto num despacho sobre as regras de distribuição do serviço docente. A realidade consegue sempre ultrapassar a fantasia. Ninguém estava à espera de um corte tão radical na lógica que tem sido seguida na distribuição do serviço docente. Regressa a ideia de autonomia sob a forma da gestão de um “crédito” horário. Baralha-se a gestão dos tempos, que podem ser de 45 minutos, mas que nas contas para os professores devem ser de 50 minutos. A direção de turma deixa de ter dois tempos a descontar na componente letiva. Introduz-se uma mecânica complexa de atribuição de crédito horário, indexada a indicadores obscuros, como “fator K”, indicador CAP (indicador da capacidade de gestão dos recursos) e indicador EFI (indicador da eficácia educativa). Cortam-se nas horas disponíveis para o exercício de cargos de direção e de orientação e supervisão pedagógica. A ideia que fica, após variadas leituras, é de um aparelho complicado de operar, com variáveis comandadas centralmente e com margens de autonomia bastante reduzidas.
A ideia proclamada, contudo, é a de reforçar a autonomia das escolas e a capacidade de atuação dos órgãos de gestão. O mundo de que fala o despacho parece ser assim uma outra realidade que pouco terá a ver com a realidade das nossas escolas. Bradbury escreveu sobre um mundo hipotético, mas possível. O despacho escreve sobre um mundo real, embora talvez impossível. Onde está a fantasia? Onde fica o realismo?

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