Os Lusíadas pacientes

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Daniel Luís

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Não deixa de ser curioso que o Dia de Portugal assinale uma efeméride (morte de Camões) que ocorreu num ano (1580) que, por sinal, foi também o ano da perda de independência de Portugal para Espanha (após o desastre de Alcácer-Quibir), com a instauração da Dinastia Filipina…
Comemorou-se ontem o Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, pelo que foi elevada a afluência de portugueses chiques, oriundos dos quatro cantos do mundo e também de Portugal, ao Centro Cultural de Belém, a fim de receberem as suas condecorações das mãos do Presidente da República. Afinal, a avaliar pelos documentários televisivos, o que não falta por aí são portugueses bem sucedidos, todos eles merecedores do título de Comendador da Ordem de Sant’Iago da Espada ou de qualquer outro título que os prestigie ainda mais.
Não vi foi nenhum desempregado a receber uma condecoração das mãos do Exmº. Senhor Presidente da República, pela sua paciência para com as medidas tremendamente “troikianas” e de austeridade, tomadas pelo governo PSD-CDS ao longo do seu primeiro ano de governação. Afinal, não é o próprio Primeiro-Ministro que diz que os portugueses têm sido “extremamente pacientes” para com o seu governo e para com as medidas por ele tomadas? Acho que isso merecia uma condecoração, nem que fosse colectiva, ao povo português! Mas o povo não é chique, por isso fica sem condecoração…
O que diria Camões se regressasse à vida e visse (ainda que só com um olho) o estado miserável a que chegou a nossa, outrora grandiosa, nação? E o que diria Fernando Pessoa? Pois bem, eu consegui entrar em contacto, com a preciosa ajuda do ex-espião Silva Carvalho, com estes ilustres poetas portugueses. Assim, um dia depois da comemoração do Dia de Portugal, ofereço-lhe em exclusivo a si, estimado leitor, alguns excertos, da versão século XXI, do Canto Primeiro dos “Lusíadas”, de Luís Vaz de Camões, e também da “Mensagem” de Fernando Pessoa:

“Os Lusíadas pacientes - Canto Primeiro”
1
As damas e os barões desempregados,
Que da acidentada governação lusitana,
Por caminhos cada vez mais desesperados,
Passaram além da sua condição pobretana,
E à austeridade e à troika habituados,
Mais do que podia a paciência draconiana,
E perante a bancarrota emigraram,
Para novos Reinos, onde tanto trabalharam.
2
E também as manias grandiosas,
Daqueles governantes que foram dilatando,
A miséria, o défice, e as obras caprichosas,
Do Minho ao Algarve, do crédito abusando;
E aqueles corruptos que por influências poderosas,
Se vão da lei da República libertando,
- No facebook espalharei por toda a parte,
Se a tanto me ajudar a internet e a arte.

“Mensagem - Mar de Dívidas”
1
Ó crise prolongada, quanto do teu mal,
São Parcerias Público-Privadas de Portugal!
Por te ignorarmos, quantas mães se endividaram,
Quantos filhos em vão estudaram!
Quantos empréstimos ficaram por pagar,
Até que te abeirasses de nós, ó crise!
2
Valeu a pena? Tudo vale a pena,
Se a loucura não é pequena.
Quem quer passar além vida precária,
Tem que passar pela porta partidária.
Deus aos portugueses a austeridade e a pobreza deu,
Mas neles é que espelhou o apogeu...

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