Uma Escola com valores

Ideias

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Alexandrino Silva

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As sociedades como estruturas dinâmicas vão-se redefinindo constantemente, sempre na perspetiva de atingirem um nível civilizacional superior que traga melhores condições sociais, económicas e culturais, num processo intimamente associado ao exponencial desenvolvimento tecnológico. No entanto, se o progresso histórico e social favorece o progresso moral, por si só, não o pode gerar.

Na verdade, a tão propalada crise de valores não será apenas uma perceção infundada de um grupo de saudosistas e ultrapassados indivíduos, arautos de uma desgraça geracional. De facto, constata-se no Homem pós-moderno “uma desorientação vital, fruto da ausência de um horizonte axiológico estável, (…) provocando a fuga para uma insularidade existencial que coloca o ser humano a braços com a insegurança e uma inquietude que o aniquila afetiva e intelectualmente” como defende Luís Araújo.

Trata-se do surgimento do Homem Light que Enrique Rojas catalogou de “pragmático, (...) trivial, vão, fútil, que aceita tudo mas que carece de critérios sólidos na sua conduta”. Essa falta de solidez assenta na exaltação cega do relativismo moral a que o Homem se entregou e à embriaguez da autonomia da razão ética, negando veementemente qualquer valor impessoal ou supra-pessoal. E é neste desequilíbrio dialéctico entre a menorizada dimensão coletiva do Homem, representada nas suas responsabilidades sociais e deveres comuns para com o bem coletivo, e a sua exacerbada dimensão individual, projetada na obtenção do bem-estar e satisfação pessoal, que considero encontrar-se a razão da atual crise de valores. Se a isto juntarmos a velocidade da mudança e a sofreguidão hedonista/materialista que preside aos anseios individuais, acentua-se a falta de lucidez e a incapacidade para enfrentar esse problema.

Mas será que a sociedade contemporânea chegou já a um ponto de não retorno e caminha delirante para o abismo cultural e moral? Com a ‘morte’ de Deus, a apropriação de todos os - ismos e a fragmentação da instituição familiar, o Homem perde as referências morais que foram sustentando a sua conduta. Agora que o Emílio de Rousseau passou a confundir liberdade com libertinagem e o Super-Homem de Nietzsche assumiu o lugar de Deus, o que resta ao Homem? Segundo Kant, “o homem não pode tornar-se homem sem ser pela educação. Ele não é senão aquilo que a educação o faz ser”.

Será, pois, pela educação que ele abandonará este perigoso pântano de ilusória felicidade, assente na falsidade moral e na absolutização do relativismo. A questão atual é que, com a perda de influência das instituições religiosas e a demissão dos pais enquanto educadores, a educação ficou entregue, quase por exclusivo, à Escola. Neste contexto, a Escola deve assumir papel decisivo e influente na construção do edifício ético e moral do ser humano, afastando-se de uma confortável neutralidade que evita uma ação promotora e instauradora de valores.

De acordo com Pedro Goergen, o comportamente natural do ser humano é egocêntrico, pelo facto de as necessidades individuais prevalecerem e orientarem a ação humana. Dessa forma, torna-se necessário que ele seja educado para a moralidade, sendo urgente “dar à educação em valores um lugar claro e for-te dentro da escola (…) que lhe permita abandonar o lugar subalterno que agora ocupa” como defende Josep Maria Puig.

A Escola e os seus protagonistas devem então assumir um papel mais comprometido com a educação moral e mais interventivo na construção da hierarquia valorativa de cada indivíduo. Mas de que forma o deverá fazer? Como “não se pode construir uma moral completa e impô-la mais tarde à realidade”, conforme sustenta Émile Durk-heim, por a moral se tratar de um processo e não de um produto, a educação em valores jamais poderia resultar pela imposição destes, por melhores que eles fossem. Também considero ser perigoso entregar-se ao indivíduo a criação do seu sistema de valores, num processo condescendente, acrítico e irrefletido.

Dessa forma, entendo, tal como refere Pedro Goergen, que nesta tensão “entre o absoluto e o relativo, adensa-se a necessidade de um núcleo mínimo, capaz de nos pôr a salvo do relativismo ético que, no limite, eliminaria a possibilidade de qualquer moral vinculadora através da afirmação da privacidade absoluta do cultural ou mesmo do subjetivo”.

A Escola, como último reduto da educação, deverá assim criar condições para o reconhecimento e apropriação desse núcleo mínimo de valores absolutos, intemporais e supra-pessoais onde deverá assentar a construção do nosso ‘lar ético’ e da nossa própria liberdade individual, fatores decisivos para uma praxis moral reflexiva e comprometida que permita enfrentar e superar a crise de valores contemporânea.

Assim, e neste momento em que acaba de ser aprovado o novo Estatuto do Aluno, onde a questão da Ética Escolar ganha reforçado protagonismo, deverá a Escola Profissional de Braga saber traduzir as palavras verti-das no mesmo, para práticas efetivas que se corporizem num contributo significativo desta dimensão fundamental da formação pessoal dos seus alunos.

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