Reinventar o Futuro

Ideias

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Paulo Leitão

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No final do mês de julho, ao assistir à cerimónia de abertura das Olimpíadas de Londres, confesso ter sentido alguma inveja ao reparar no olhar orgulhoso da rainha Isabel II, perante o poder de realização dos seus súbditos mas, sobretudo, porque aquele evento retratava o papel providencial do Estado na construção de um modelo de qualidade de vida, do qual beneficiaram os cidadãos britânicos, mas de cujo prosseguimento se duvida.

Vagueando entre a herança aristocrata do passado e a vertigem tecnológica do presente, a monarca ali estava, qual bandeira de um povo, já desbotada pelo tempo, mostrando a impressionante firmeza que a sua frágil figura teimava atraiçoar.
A imagem era, em si, um belo poema, declamado ao som de ‘Caliban’s Dream’, uma épica criação sonora dos Underworld.

Volvidos alguns dias, e ao assistir a uma daquelas longas transmissões dos Jogos Olímpicos, reparei que todas aquelas modalidades haviam sido inventadas há mais de um século.
Interroguei-me e questionei várias pessoas sobre a possibilidade de, na atualidade, surgir algum criador com audácia e engenho para inventar uma nova modalidade, capaz de suscitar a paixão em milhões de pessoas. Sem surpresa, as respostas foram invariavelmente negativas.
Não sei se já não somos capazes de surpreender ou preferimos que não nos surpreendam. Na verdade, estamos cada vez mais comodistas e votados ao imobilismo. Reagimos habitualmente sem critério e agimos com pouca vontade coletiva.

O diagnóstico não nos favorece, pois apesar de consumirmos quantidades absurdas de informação, não a digerimos nem tão pouco a pensamos. Muito entretidos, continuamos a competir no supérfluo e a relacionarmo-nos em redes superficiais, onde a futilidade se sobrepõe ao afeto e a banalidade à inteligência.

É evidente que já não temos estadistas com a visão altruísta daqueles que idealizaram a Organização das Nações Unidas ou a União Europeia. Porventura, foram engolidos pelo modelo capitalista que ajudaram a construir. Também já não vivemos na era dos grandes conflitos mundiais que, de forma irónica, contribuíram para processos de reordenação e crescimento.

Enfim, se pensarmos que, ainda há poucos dias, por entre os pingos de uma chuva de notícias, nos informaram que o Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida decidiu apoiar uma certa forma de eutanásia, em nome da racionalidade económica dos serviços de saúde, percebemos que nos aproxima-mos de uma nova estirpe de insanidade que alastra, de forma epidémica, por uma certa classe de dirigentes.

Vamos lá, não sejamos piegas e ajudemos a pagar o défice com a vida. É que, ao contrário do que um dia disseram, não há mesmo vida para além do défice.
Compreende-se, também, as hesitações de quem decide relativamente ao aumento do imposto sobre o tabaco, que agora se confirma. Por um lado, a tentação de arrecadar receita, por outro, a angústia de que subam as despesas com a segurança social, no caso de os fumadores deixarem de o ser.

Há razões para começarmos a sentir medo. No nosso país, há pessoas com poderes atribuídos aos deuses, que lhes permitem decidir o momento em que deve ser interrompida a vida do seu semelhante. Todavia, apesar da sua notável inteligência, divindade e cultura cívica, nunca conseguiram perceber o que significa o enriquecimento ilícito, o tráfico de influências, a corrupção e o abuso de poder.

Francamente, estou convencido de que atingimos o limite. Precisamos de assumir que as estruturas nas quais temos vivido estão esgotadas, porque nos sentimos incapazes de as dominar. Por isso, é urgente reinventar o futuro.
Não podemos, contudo, esperar que algum messias nos iluminará o caminho, poupando-nos à dura tarefa de o traçar. Cada um de nós deverá assumir-se como pequena célula benigna e fértil, para que juntos possamos gerar uma nova ordem social, um sistema económico mais equitativo na repartição da riqueza e uma organização política que sirva os interesses públicos.

É de baixo para cima, do cidadão comum para a elite política, que se percorrerá, de forma tão sinuosa como necessária, a via da mudança.
Nestas circunstâncias as instituições de ensino, em geral, e a Escola Profissional de Braga, em particular, deverão transmitir muito mais do que conhecimentos técnicos e científicos.

Assim, é fundamental que provoquemos a reflexão, que ajude-mos os jovens a pensar, a selecionar a informação que absorvem, e que espicacemos a ousadia da sua massa crítica. Precisamos de promover a pequena loucura criativa, por ser essa a génese da inovação. Mas devemos fazê-lo procurando reencontrar valores, sobretudo aqueles que se mantêm submersos na espuma dos dias.

Devemos valorizar o afeto como símbolo maior de um mundo melhor, e ajudar a libertar a solidariedade, tantas vezes aprisionada pela soberba e pela vaidade. Devemos construir imagens positivas no presente, porque elas se projetarão no futuro. A construção de climas favoráveis, geridos com entusiasmo, aumentará a estabilidade emocional dos mais novos, garantindo-nos que, a prazo, viveremos com pessoas mais confiantes, seguras e empreendedoras.

Devemos consciencializar para que o planeta volte a ser verde, sob pena dele próprio nos expulsar. Vale a pena acreditar que nem sempre é mais fácil destruir do que proteger. E se isso acontecer, talvez um dia nos voltemos a reconciliar.

Concordo com a ideia de que a Escola jamais substituirá a primazia da família. Mas, numa fase em que o ciberespaço já ocupou o das organizações juvenis, e há muito o das religiões, cabe à classe docente educar, numa ação que pode não ser apenas complementar, considerando que, para inúmeros adolescentes, as instituições escolares serem o único espaço estruturado que frequentam.
Que não nos falte a coragem. O caminho será árduo e muito duro, porque vai no sentido de se reinventar o futuro.

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