Construção Civil a caminho da... felicidade

Ideias

autor

Jorge Franqueira

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Estando nós num curto espaço de férias e calcorreando um dos caminhos de acesso à praia de Sesimbra, na busca de um bocado de sol ou somente do sentir o cheiro do peixe na brasa, passávamos por uma daquelas ruas características, muito íngremes e com umas escadas nos passeios que ajudam a ultrapassar as dificuldades do percurso.

Neste trajeto passávamos por um conjunto de casas típicas somente de um piso. Numa delas encontrava-se uma senhora idosa sentada no interior da casa, com a porta aberta e debruçada para o exterior, que vivia com o marido que se encontrava recolhido no interior devido a doença. Tinha o hábito, segundo nos transmitiu mais tarde, de cumprimentar quem passava, num gesto de educação, que se tem vindo a perder, mas também numa atitude de se manter em contacto com o mundo que a rodeia e de se sentir útil, participativa e interventiva no mesmo. A sua saúde e a avançada idade não lhe permite mais do que estes pequenos gestos.

À segunda passagem paramos, não só para corresponder ao cumprimento, mas também porque nos apercebemos de que estava à espera de algo mais e como tal estabelecemos ali um pequeno diálogo. Penso, aliás, que estaria à espera que mais pessoas tivessem a mesma atitude na resposta ao seu singelo gesto de cumprimentar quem passa. Curiosamente, ou não, a sua primeira frase foi um pedido de desculpa por nos cumprimentar, porque considerava que, pelo fato de o fazer, as pessoas a podiam considerar como menos dotada ou como ela transmitiu, pensarem “coitada da senhora…, está tolinha”.

Perante este quadro tivemos a preocupação de não só retirar este cunho à sua intervenção, mas também de valorizar e incentivar a sua atitude e a sua postura para com as pessoas e com a vida que nos rodeia. Percebemos no decorrer da conversa que o seu dia a dia se limitava, no essencial, a deslocar-se, a si e ao seu marido da frente para as traseiras da casa na procura de melhores condições para enfrentar o calor.

Entendemos que nos tempos que correm, e perante situações tão constrangedoras, é de louvar quem tem um gesto de afeto para dar, assim como é também extremamente importante ensinar as pessoas a saber receber, principalmente quando as ofertas não têm uma componente material, mas resumem-se a gestos, a palavras, a atitudes, a sorrisos ou lágrimas, que vêm de gente que sente e sabe, que é a única coisa que tem para dar. No decorrer da conversa a senhora disse-nos que se chamava Felicidade, acrescentando de imediato “anda tanta gente à procura dela e eu aqui tão perto”…

Este introito poderá levar as pessoas a perguntar, qual a relação do mesmo com o curso de Construção Civil da Escola Profissional de Braga. E eu direi que tem tudo a ver, já que estamos a falar da vida e consequentemente dos problemas que se nos colocam diariamente e com os quais temos de conviver e que nos deve questionar sobre qual deve ser o nosso papel e a nossa intervenção perante tudo o que está a acontecer.

Esta é igualmente uma das grandes questões e desafios que se colocam à escola de hoje e que tem a ver com os valores e atitudes, para além da transmissão de conhecimentos, que devemos transmitir e qual a sociedade que pretendemos construir para os vindouros. Dizemos isto, por-que é obrigatório que cada um de nós tenha a preocupação de dar o seu contributo, por mais pequeno que seja, para a cons-trução de um mundo melhor, onde para além do cumprimento que se dá às pessoas com que nos cruzamos (ainda que seja uma imagem simbólica), possamos ter a consciência tranquila em relação ao que fizemos por nós e essencialmente pelos outros.

Porque a vida só faz sentido se for pensada, estruturada e vivida em coletivo e para o coletivo.
É nossa obrigação enquanto Escola contribuir para a felicidade (que está aqui tão perto…) dos nossos formandos. Contrariando a ideia de que tudo são beijos e abraços, que é a imagem que poderá ser retirada, de imediato, desta afirmação, esta procura, obriga a mais do que nunca, a rigor, responsabilidade, empenho, respeito, atitude crítica, disponibilidade e um grande espírito solidário. Estes valores e atitudes são essenciais principalmente num curso de Construção Civil onde o trabalho de equipa e o contributo que cada um dá, para esse coletivo, são determinantes.

Procurando dar resposta às preocupações que temos transmitido e no sentido de envolvermos os nossos formandos, numa realidade económico/social efetiva e interveniente, já estabelecemos um primeiro contato com a Junta de Freguesia de S. Vítor, que se pretende alargar a outras, no sentido de ser desenvolvida e estabelecida uma parceria que permita uma intervenção direta dos nossos formandos em habitações degradadas e habitadas por pessoas carenciadas. Isto permitirá não só a realização de trabalhos que os formandos possam sentir como úteis e com objetividade, retirando-lhe o caráter académico que têm tido mas também o contacto com uma realidade económico/social que é extremamente importante para a sua formação, construção e estruturação do seu futuro.

Esta será uma das nossas grandes preocupações e objetivos para este ano letivo, procurando, desta forma, não só dar o nosso contributo para contrariar a crise instalada, como também continuar a preparar da melhor forma possível os nossos formandos para que possam dar o melhor contributo para a construção de um mundo com mais felicidade.
Pela nossa parte resta-nos agradecer à D. Felicidade pelo cumprimento e sorriso que nos deu e que nos remeteu à nossa insignificância. E essencialmente, queremos agradecer o pequeno tijolo que acrescentou, ao grande edifício da felicidade que pretendemos construir.

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