Os afetos (em tempo de crise) na EPB

Ideias

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Natália Rebelo

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Numa época em que a economia parece esmagar-nos, em que se valoriza mais o 'Ter' em detrimento do 'Ser', pretendo reforçar a ideia de que o sorriso (ainda) não paga imposto e que os afetos têm sido uma ferramenta poderosa ao serviço dos professores da EPB, na construção de bases humanas mais sólidas para os alunos. A atualidade leva-nos a refletir sobre as nossas práticas pedagógicas, tendo subjacente que a afetividade pode influenciar de forma positiva o rendimento escolar.

Abordar esta temática remete-nos para a qualidade das relações que se estabelecem entre professores e alunos, e as restantes estruturas da escola. O professor passou a assumir, numa visão holística, um papel primordial na educação e na formação do aluno, não só como técnico mas, principalmente, como pessoa humana. O ato de ensinar é um processo basicamente relacional, onde não só o aluno, mas também o professor, a escola e o meio social, são responsáveis pelo seu desenvolvimento, sucesso ou fracasso.

Será possível relacionarmo-nos sem afeto, sem considerarmos sentimentos, desejos e necessidades? Embora o professor seja detentor dos conteúdos que leciona, é na maneira como ele se relaciona com os seus alunos que reside a chave do sucesso da transmissão do que ensina. O respeito pelas diferenças, o abandono de preconceitos, o saber ouvir, o reforço positivo (em vez de priorizar os erros), demonstrar acessibilidade, acreditar no aluno dando-lhe abertura para se expressar, valorizar as suas sugestões e elevar a sua autoestima, são itens fundamentais na construção de uma relação afetuosa do professor com os seus alunos.

O papel do professor passa, então, para o patamar da busca incansável de novas formas de ensinar, novos conhecimentos, novos desafios e novas conquistas, criando, através do afeto, laços de múltiplas aprendizagens. Porque, nos dias de hoje, é premente valorizar-se o carácter harmonizador e socializador do sorriso (leia-se “da linguagem dos afetos”), para cultivar a confiança, a amizade, a cooperação e o respeito do grupo pelo indivíduo e vice-versa. Note-se que tanto Piaget como Freud salientaram a importância dos afetos para o desenvolvimento cognitivo.

Na EPB, estimula-se a reflexão dos alunos sobre atitudes, posturas e condutas, que os levem a um comportamento ético e responsável, tanto em contexto de sala de aula como fora desta. São levados a resolver problemas, a encontrar soluções e a enfrentar desafios. Há dias, alunos do curso técnico de secretariado foram responsáveis pelo rececionismo das Jornadas de Segurança e Saúde do Trabalho, organizadas pela Câmara Municipal de Braga. Para além de, como é óbvio, colocarem em prática conhecimentos técnicos, os anseios e o peso da responsabilidade, enfrentados em conjunto, reforçaram os laços e o espírito de equipa, com um sabor especial, o do serviço cumprido partilhado entre pares e com o professor.

Os momentos de afetividade, vividos na escola, são fundamentais para a formação de personalidades sãs e com interesse em aprender. A EPB não é apenas um lugar de aprendizagem, mas também um campo de ação no qual se dá continuidade à vida afetiva, em parceria com a família. A atual conjuntura assombra muitas famílias e as dificuldades socioeconómicas, que dolorosamente enfrentam, podem minar a motivação e o envolvimento dos alunos. E é, particularmente, a este nível que reside um dos grandes desafios do coordenador de curso, do diretor de turma e dos professores. Como combater essa falta de interesse e as ameaças de desistência motivadas pelos problemas familiares? “Usemos e abusemos” da linguagem dos afetos!

E como agir em situações de conflito, de incumprimento de normas da escola, que, muitas vezes, se devem à falta de afeto? Instaurar o diálogo, estabelecendo-se um vínculo afetivo, pode representar uma oportunidade para a formação de valores. Pois é em situações tensas que se propõem limites, se trabalham as frustrações e se abrem as portas da compreensão.

A escola é a mais importante instituição para a inclusão dos jovens em iniciativas de participação social, capazes de lhes ensinar o significado do altruísmo e da solidariedade. Motivando-os a organizar e a participar em eventos e discutindo com eles as questões que mais afetam a sociedade, a EPB torna-se mais solidária e contribui efetivamente para a formação de jovens conscientes da sua responsabilidade social, em colaboração com a Comunidade e na construção de valores básicos. Exemplo disso foi a comemoração do Dia Mundial para a Erradicação da Pobreza, que teve lugar em outubro, em que o curso técnico de secretariado mobilizou a comunidade escolar para a angariação de bens alimentares e vestuário, que reverteram para a Cruz Vermelha Portuguesa. Haverá palavras para expressar o contentamento estampado no rosto dos alunos promotores?

Num clima de afeto e compreensão, cria-se uma relação facilitadora para a elevação da autoestima do aluno com o objetivo de proporcionar o seu desenvolvimento cognitivo e social. E o professor, uma referência, um orientador, realiza-se profissional e pessoalmente quando verifica que a mensagem passou devidamente e consegue vibrar com as conquistas dos seus alunos. “Vocês foram os escolhidos pela vossa escola!”, uma frase proferida pela Dra. Susana Capela quando apresentou aos alunos do curso técnico de secretariado, o projeto intergeracional promovido pela Betweien e a Braga Capital Europeia da Juventude, que os torna coautores de um livro que reúne a história de vida de diversas personalidades da cidade de Braga. Os olhares dos alunos espelhavam um misto de agradecimento pelo voto de confiança e de ansiedade pela responsabilidade que lhes foi incutida. E nós, professores, testemunhamos essa reação com plena satisfação e orgulho.

Entrar no coração dos alunos EPBianos, mantendo relações interpessoais positivas, possibilita o sucesso dos objetivos educativos da nossa EPB.

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