Um incerto ar de fim de ciclo

Voz às Escolas

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Vasco Grilo

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A dura crise vai-nos retirando forças, incapazes que estamos de lhe pressentir o fim. Vai-nos retirando forças e dinheiro, o que é sempre uma combinação diabólica, talhada para outras moléstias, como o andar deprimido, a insónia, o deixa-andar, e por aí… ou coisas mais dramáticas, como o desemprego ou até a fome.

Parece que o remédio para a crise é o tamanho, ou, como alguns preferem dizer, a “economia de escala”. Grande é o remédio para tudo, seja na educação - o agrupamento de escolas, seja no território - a extinção ou fusão de freguesias. De repente, como se fosse magia, quem é pequeno não tem hipótese; ou melhor, se não tiver escala, nada feito.

A verdade é que a ideia parece ter lógica, na medida em que ao agrupar, fundir, agregar, federar, etc., se coloca mais sob o mando de menos, dando-lhe assim maior coerência e, o que é essencial, menor custo per capita. O problema da lógica é que ela se basta a si própria e pouco tem a ver com a realidade. Levando a lógica até às últimas consequências, tendo o tamanho dos países como objeto de análise, por exemplo, a tentação é a de declarar a existência de Portugal soberano como ilógica, ou até da Espanha, ou por que não dizê-lo da própria Alemanha. Regressa assim a ideia do império como a única realidade administrativa possível. Será?

Longínqua vai a ideia da autonomia; obscurecida está cada vez mais a ideia da proximidade; afastada está, e parece que definitivamente, a ideia de comunidade. Por onde nos leva a crise? Na educação, estabelecem-se agrupamentos sob a dimensão média de três mil alunos, compaginados com a noção de territórios educativos que podem chegar aos cinco mil. Haverá por certo maior sequencialidade nos percursos escolares, e até maior coerência, se for possível gerir tais territórios de modo eficaz. Será?

Onde está então a esperança? De que esperança se poderá falar em tempos assim? Creio que a lógica da aritmética começa a não fazer sentido e a esmorecer os seus mais fervorosos adeptos. A realidade é sempre a única entidade que perdura, e a realidade está longe de se reduzir a um qualquer padrão numérico. A esperança virá da ação humana. Como? Se o soubesse por certo que o teria já dito, mas virá, estou certo.

Há quem diga que o euro é mais o problema do que a solução, o que é ilógico, na medida em que a ideia do euro é ainda a ideia do tamanho. O norte rico parece querer seguir viagem sem o sul pobre. O egoísmo parece ser o modo de ser da construção europeia. Também é verdade que o tempo dos dinheiros fáceis já acabou. A realidade impõe trabalho, muito trabalho e ética, muita ética. Esperemos que seja suficiente para resolver o problema.

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