As TIC no ensino obrigatório

Ideias

autor

Américo Rodrigues

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A escolaridade obrigatória que abrange jovens até aos 18 anos deve continuar a incidir nuclearmente nas áreas clássicas fundamentais do saber, no entanto, hoje em dia é de todo impossível dissociar dessas competências a aprendizagem das tecnologias de informação e comunicação (TIC), se consideramos que ensinar é, na sua essência, um processo comunicativo.

Desde sempre (o ensino liceal em Portugal remonta a 1836) os recursos didáticos e as inovações tecnológicas fizeram a sua entrada nos modelos e nas reformas educativas da escola em Portugal; por exemplo, em 1964, o ministro Galvão Teles cria o Instituto de Meios Audiovisuais no Ensino com a finalidade de 'promover a utilização, a expansão e o aperfeiçoamento das técnicas audiovisuais como meios auxiliares de difusão do ensino e da elevação do nível cultural da população' que enunciava uma série de recursos que poderiam ser usados na atividade letiva dos professores.

Ao longo do tempo este processo de inovação foi, muitas vezes, diminuído em virtude da perturbação de caráter político, económico e social - tal como hoje -, com consequências desastrosas para a escola e para o país. Cotejando alguma documentação verificamos que o processo de integração das TIC na escola é sempre lento e moroso, em relação às dinâmicas sociais.

No dia 21 de novembro de 2012, o Presidente da República que falava na abertura do Congresso das Comunicações, elogiava, a “visão de longo prazo” da “aposta ganha” nas novas tecnologias da comunicação que o país fez nos últimos anos e referia que as TIC poderão, assim, servir de alavanca para dar à economia “uma face diferente da que hoje apresenta”. Será que a aposta está ganha? Possivelmente, a batalha com os avanços tecnológicos nunca é definitiva; o objetivo principal de um país pequeno e periférico do sul da Europa deve ser sempre acompanhar e interagir com os rumos tecnológicos dos povos mais inova-dores.

Que pensam os responsáveis deste país de todos os quadrantes em relação às TIC na escola e ao ensino da informática na escolaridade obrigatória de 12 anos? Neste momento considerando a conjuntura nacional, ninguém parece arriscar um rumo. A médio e a longo prazo, não existe nenhum documento orientador ou ferramenta traçadora de caminhos a trilhar. Por último, na Reorganização Curricular verificamos que o ensino das tecnologias é um elo frágil do sistema educativo.

A era totalmente digital que vivemos exigirá, cada vez mais, aos cidadãos conhecimentos sólidos na utilização obrigatória dos meios tecnológicos, na sua vida pessoal e profissional. Para tal é necessário considerar a aprendizagem das novas tecnologias na escola como indispensável em todos os ciclos de ensino/formação, tal como acontece em outras latitudes que seguem na linha da frente; o Reino Unido «considerou as TIC em todos os níveis de ensino (stages 1, 2, 3 e 4)».

Com o quadro futuro que se perspetiva de desinvestimento no ensino da informática, as discrepâncias de caráter familiar, social e económico poderão ser redutoras no acesso às novas tecnologias para muito jovens. É um retrocesso limitar o ensino da informática a ciclos de formação básicos como acontece neste momento.

Além das dificuldades cognitivas próprias dos alunos destas idades para compreender conceitos mais avançados, de todo essenciais no futuro, juntamos as condições pedagógicas inapropriadas para a aprendizagem dos alunos e de ensino para os docentes. Entre outros constrangimentos recordo, turmas até 30 alunos, salas com 10 até a um máximo de 24 computadores - quando todos funcionam -, que pode levar a ter computadores com 2 ou 3 alunos. Se a isto juntarmos aulas semanais de 45 minutos, o que faz com que efetivamente a aula cronometrada, útil, seja de 30 ou 35 minutos, não é difícil prever o desastre no processo ensino-aprendizagem.

No ensino profissional dos cursos da área de informática, onde a exigência da simulação prática é desejável e obrigatória, o aumento de alunos por turma repercutiu-se também no ensino das aprendizagens mais práticas, principalmente nas relaciona-das com hardware e programação.

Estes e outros fatores levantaram novos desafios às escolas na sua reorganização, sendo poucas, aquelas que conseguem reduzir os efeitos negativos. Se ao que foi dito anteriormente, acrescentarmos a decisão de não considerar os cursos profissionais de informática prioritários, por privilégio de outras áreas, não é conclusão abusiva afirmar que o cenário poderá ser extremamente deficitário, do ponto de vista das competências tecnológicas dos nossos alunos com a escola obrigatória, nos diversos ramos de ensino, principalmente aqueles que não frequentam o ensino profissional na área de informática.

A Escola Profissional de Braga, ao longo dos muitos anos da sua existência, tem desempenhado um importante papel na cidade e na região, através da formação de quadros médios, em vários domínios do saber, fazendo parte da sua oferta, dentro dos cursos tecnológicos, o Curso Técnico de Gestão e Programação de Sistemas Informáticos. É objetivo da Escola continuar a apostar nesta área e contribuir de forma decisiva para a formação de nível IV dos nossos jovens, no uso con- fiante e crítico das tecnologias de informação, tanto para trabalho como para lazer.

Para tal é indispensável manter a qualidade de ensino, a sua ligação ao mercado de trabalho, às empresas e instituições locais e regionais. No currículo do curso tendo a Informática como núcleo central, defendemos o reforço no estudo e aperfeiçoamento da língua, o raciocínio lógico (reforço da Ma-temática), as línguas estrangeiras, a cidadania, as atitudes e os comportamentos. No plano técnico destacamos o domínio das competências no manuseamento dos diversos Sistemas Operativos, a Arquitetura de Computadores (Hardware), a Certificação CISCO, a Programação e as Ferramentas Web.

O curso agrega algumas profissões: Técnico de Informática, Programador - Informática, Técnico de Manutenção - Informática e Gestor de Redes Informáticas. Num mercado cada vez mais difícil - escasso e exigente -, são vários os alunos do curso que, além de terem conseguido emprego na área, continuaram estudos no ensino superior.

Alguns que não se encontram, neste momento, a trabalhar no sector da informática são unânimes em reconhecer a mais-valia de terem conseguido um curso técnico na área das novas tecnologias, trunfo decisivo para qualquer desafio futuro, pessoal ou profissional. Também já temos casos de alunos que emigraram e a formação tecnológica foi decisiva para conseguir emprego nos países da Comunidade Europeia.

No meu último artigo, há um ano atrás, tentava identificar algumas áreas de atuação política a médio prazo para o futuro das escolas portuguesas no nível básico e secundário: a melhoria dos equipamentos, a formação de professores, a melhoria dos currículos, a avaliação do sistema educativo, a autonomia e gestão das escolas, o combate ao abandono escolar e a promoção do ensino - aprendizagem ao longo da vida. Na verdade, tudo parece mais incerto. Haja esperança. Bom ano a todos os leitores!

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