O estado da educação... ou a forma de fazer omeletas sem ovos!

Voz às Escolas

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Mafalda Silva

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Nos tempos que correm, “crise” é a palavra mais ouvida e proclamada. Logicamente, abarca os vários setores da sociedade, incluindo a Escola. Com o inconveniente de esta acabar sempre por ser culpada de todos os males do mundo.
O problema não é novo. Desde sempre que as certezas e os problemas em educação se repetem, ainda que com roupagens e perspetivas diferentes.
Ao longo do tempo, passou-se de modelos altamente centralizados para modelos tendencialmente descentralizados, alicerçados em normativos legais que apregoam, cada vez mais, a autonomia, nunca cumprida.

Se pensarmos na gramática da escola, veremos também a transição do ensino individual para o ensino em classes, de grupos mais ou menos homogéneos de alunos.
As funções da Escola também foram progredindo da mera instrução para a educação, abrangendo áreas cada vez mais vastas como o desenvolvimento pessoal, social e moral, a educação para a cidadania, para os afetos e para os valores.

Investiu-se muito na formação dos professores, quer na formação inicial quer na formação contínua, numa lógica de desenvolvimento profissional.
A nível da avaliação, a evolução foi enorme, passando-se de uma avaliação muito relacionada com a prestação de contas e centrada em exames para uma valorização da avaliação formativa, mais preocupada com os processos do que com os resultados.
Tudo isto aconteceu antes da “crise”!

Com ela, metem-se os estudos das Ciências da Educação na gaveta e progressivamente vai-se retrocedendo, comandados por lógicas supranacionais que apelam à regulação pelo Estado, à racionalidade económica, à busca de resultados, em nome duma eficiência e eficácia que não compreendemos a quem interessa. Assiste-se à mercadorização da educação, esperando-se que a Escola solucione os problemas que sucessivos governos não conseguem resolver.
Apesar da retórica da autonomia e da descentralização, somos geridos ao minuto através de plataformas informáticas, numa forma muito moderna de regulação e controlo.

Agregam-se agrupamentos de escolas com a finalidade, diz a tutela, de permitir aos alunos cumprir o seu percurso escolar, do pré-escolar até ao secundário, dentro do mesmo agrupamento, ignorando a liberdade de escolha dos pais.
Esquece-se a educação para a cidadania e para os valores e aumenta-se a carga letiva das duas disciplinas nucleares - Português e Matemática - que, por acaso, serão validadas por exames.
Ouvem-se rumores sobre a necessidade de despedir milhares de professores, porque há funcionários públicos a mais e ressurge o velho papão da municipalização dos docentes.
Mas, não há que desesperar nem perder a esperança, a magia já se prepara e vai mesmo haver omeletas sem ovos: aumenta-se o número de alunos por turma e aumenta-se a componente letiva dos professores. Simples. E fica tudo igual!

Igual, não. Pior. É verdade que se vai aproximando a Escola pública da privada (ainda que só nos aspetos da racionação dos recursos), induzindo-se a ideia de que o que é privado é bom.
Penso que a Escola de hoje é melhor do que a de há dois séculos atrás. A minha dúvida é mesmo sobre a qualidade da Escola de manhã.
No início, referia que tudo se exige à Escola e todas as culpas lhe são atribuídas. Penso, contudo, que o problema se põe mesmo em sentido contrário: somos mais pobres, porque somos mais ignorantes. E a Escola é a única instituição que pode lutar contra isso. Se não a destruírem...

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