Les uns et les autres...

Voz às Escolas

autor

Mafalda Silva

contactarnum. de artigos 3

A Perturbação do Espectro do Autismo (PEA), vulgarmente referida como autismo, carateriza-se por uma perturbação grave do desenvolvimento, em que as áreas da comunicação e linguagem, da interação social e do comportamento (interesses e actividades), estão seriamente comprometidas, o que condiciona, de forma permanente, a atividade e participação destes indivíduos nos diferentes contextos em que se inserem. Este quadro faz com que as crianças com esta problemática tenham uma perceção diferente do mundo que as rodeia e, portanto, também respondam de maneira diferente aos estímulos a que estão sujeitas.

Assim sendo, o objetivo primordial de uma escola inclusiva, é garantir respostas educativas diferenciadas que ajudem a colmatar os défices existentes, promovendo a autonomia e participação destas crianças e jovens, assegurando, simultaneamente, uma maior qualidade de vida para os próprios e para as suas famílias.
Uma das metodologias que cumpre estes objetivos, permitindo uma resposta educativa que garanta a diferenciação pedagógica que os alunos com PEA necessitam, são as Unidades de Ensino Estruturado do Autismo (UEEA), dentro das escolas de ensino regular.

No agrupamento de Escolas de Gualtar há três UEEA (1.º, 2.º e 3.º ciclos) que integram, cinco, seis e oito alunos, respetivamente.
Para mim, e não obstante os objectivos pedagógicos que estão associados às UEEA (criar ambientes securizantes com áreas bem definidas e delimitadas; informar clara e objetivamente, com apoio de pistas visuais, a sequência de rotinas, facilitar a autonomia e a participação de cada um, promover situações de ensino individualizado), o grande desígnio das UEEA é fomentar e implementar práticas inclusivas numa lógica de respeito pela diferença e igualdade de oportunidades.

Em cada UEEA trabalham dois docentes com formação especializada em educação Especial e duas assistentes operacionais.
Os alunos têm ainda apoio (de acordo com o seu perfil de funcionalidade) de uma terapeuta da fala, uma terapeuta ocupacional, uma fisioterapeuta e uma psicóloga que vêm à Escola, no âmbito do CRI (Centro de Recursos para a Inclusão) em parceria com a Instituição Iris, numa relação de trabalho em equipa que se tem revelado muito positiva.

Há ainda vários docentes, das áreas de expressão corporal, expressão plástica, expressão musical, carpintaria e TIC, que semanalmente, dentro da sua componente não letiva, dinamizam atividades, no âmbito do Projeto “Crescer em Comunidade”, essenciais à formação integral destes alunos. Para além de alargar o leque de vivências no contexto escolar, contribuirão certamente para desenvolver a autonomia pessoal e social destas crianças.

A todos estes profissionais é devida uma palavra de agradecimento por todo o trabalho desenvolvido. Aliás, o termo trabalho não espelha o que realmente ali se passa. Uns e outros entregam-se de corpo e alma a estes alunos, numa partilha diária de alegrias, medos, frustrações, mas, seguramente, muitas pequenas/grandes vitórias.

A nível de recursos materiais, com exceção da UEEA do 1.º ciclo, foram adaptadas salas de aula a esta nova utilização, fazendo-se o apetrechamento das mesmas com materiais didáticos adequados, de acordo com as necessidades e as possibilidades do Agrupamento. O ideal era ter salas construídas de raiz para este fim, mas...

Também, relativamente aos recursos humanos, o ideal era que fossem alocados para o Agrupamento os técnicos já referidos, bem como um médico, que aí trabalhassem a tempo inteiro. Mas, isso, são contas doutro rosário. Infelizmente, já se percebeu que as UEEA e as crianças e jovens com NEE, em geral, não são uma prioridade da agenda política.

Seria injusto não deixar aqui uma palavra de conforto às famílias destas crianças que colaboram muito com a Escola no acompanhamento necessário aos seus educandos. Sabemos que têm vidas difíceis e, muitas vezes, são mal compreendidos pela sociedade desconhecedora desta problemática. Para elas estas palavras de conforto: “sei que estes meninos e meninas são felizes no Agrupamento de Escolas de Gualtar!”

Quando evoquei o título “Les uns e les autres” não foi para lembrar o belíssimo filme de Claude Lelouch, mas por ele sugerir que as escolas abrigam e acolhem crianças e jovens muito diferentes e com necessidades diferentes que, tal como as personagens do filme, cruzam diariamente as suas vidas. Acredito que nessa relação se formam pessoas mais solidárias e tolerantes. Cabe a nós todos - professores, assistentes operacionais, pais, técnicos e sociedade - acolher e integrar uns e outros...

Se não for assim, corremos o risco de cair na armadilha genialmente descrita por José Saramago:
“O ser humano que nos gabamos de ser soube sempre humilhar e ofender aqueles a quem, com triste ironia, continua a chamar seus semelhes. Inventamos o que não existe na natureza, a crueldade, a tortura, o desprezo. Por um uso perverso da razão viemos dividindo a humanidade em categorias irredutíveis entre si, os ricos e os pobres, os senhores e os escravos, os poderosos e os débeis, os sábios e os ignorantes, e em cada uma dessas divisões fizemos novas divisões, de modo a podermos variar e multiplicar à vontade, incessantemente, os motivos para o desprezo, para a humilhação e a ofensa.”

vote este artigo

 

Comente este artigo

Faça login ou registe-se gratuitamente para poder comentar este artigo.

comentários

Não existem comentários para este artigo.

Últimos artigos desta categoria - Voz às Escolas

Tempo

Classificados

Edição Impressa (CM)

Edição Impressa (MF)

Newsletter

subscrição de newsletter

mapa do site

2008 © todos os direitos reservados ARCADA NOVA - comunicação, marketing e publicidade, S.A. | concept by: Cápsula - soluções multimédia