E a escola para que serve mãe?

Ideias

autor

Maria Teresa Machado

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Já fim de tarde, numa fila de hipermercado uma criança, entre os sete e nove anos, cabelos anelados, olhos vivos, mas a raiar cansaço, pergunta insistentemente à mãe “Porque tenho de ir para a escola? Eu não quero ir amanhã…!” A pobre senhora perdida, também ela no cansaço da carga de um dia de trabalho e obrigações familiares e fardo social, repetia maquinalmente “Porque tens!”. O menino instigava na questão quase existencial, muito embora à sua roda um mundo muito mais encantador forrado a delícias de chocolate e batata frita não o demovesse da dúvida. A mãe, cujos sapatos de salto alto não suportavam tanta espera, diz-lhe num tom de ameaça afá-vel “Vais brincar com os teus amigos e olha até levas isto para lanchar…”

A pobre senhora esqueceu-se de explicar ao seu menino que teria de ir para a escola para aprender. Esqueceu-se de situar na sua grande tarefa do dia, substituindo o diálogo pela entrega repentina um vistoso pacote de qualquer coisa mergulhada em corantes, esqueceu-se de lembrar ao seu menino que aprender é a coisa mais importante do mundo.

Provavelmente, esta resposta vazia é a de tantas mães e pais que lutam interminavelmente para dar um futuro melhor aos seus filhos, porém negligenciam pequenas mas fundamentais aprendizagens para a vida como o ouvir e falar, adiando para o dia seguinte, muito embora o tempo escasseie de tal modo que esse amanhã pode perfeitamente esperar. Provavelmente, esta resposta vazia não determina o futuro igualmente vazio do menino de cabelo anelado?

No seio das famílias a escola é um nome respeitável, mas pouco respeitado pelos descendentes e ainda tem obrigação de dar resposta a tudo. Diz a sabedoria popular que a melhor escola é a vida, então que escola queremos nestes tempos de dura navegação? Há anos, contados pelos dedos, não cabia sombra na dúvida do papel que a sociedade delegava à escola, atualmente as dúvidas ensombram e assombram inclusive as mentes mais brilhantes.

No tempo dos nossos (bis) avós ou pais, a escola séria, austera e inacessível para tantos, permitia à natureza humana um género de seleção da espécie: chega quem realmente aprende. Por outro lado, assegurava a integração no mercado de trabalho, no seu tecido social, a escola apontava um futuro. Ainda que o tempo mudasse e, por conseguinte, alterasse o conceito de escola - não fosse Camões reforçar “Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades/ Muda-se o ser, muda-se a confiança” - continua a ser o espaço que faz o futuro, apesar das portas de ligação direta ao devir estejam de momento semiabertas, ainda há corredores com várias saídas.

O que definitivamente não queremos é uma escola, qual mãe irascível na fila de hipermercado, que já não sabe o que responder, depois de tanto estalo levado pelas políticas organizacionais, com várias cores, mas sem qualquer brilho, depois de tanta enxurrada de reformas curriculares atiradas do nada, depois de um atentado à vista desarmada ao retirarem à escola tempo de qualidade para o amadurecimento intelectual de aprender mais e melhor.

A escola é o supremo espaço de aprendizagem e se a família não se entregar à missão de educar a sua criança para o entendimento racional da escola como lugar excelente de experiências cognitivas, afetivas e relacionais, fazendo-lhe ver que os resultados escolares vão ter absoluto impacto no percurso da sua vida, a escola passa a ser uma ilha deserta que recebe visitantes com bilhete de partida, se a estadia for muito exigente.

Ninguém discordará que, para aprender, tem de haver motivação interior - a tal vontade que vem de dentro - como também ninguém se atreverá a discordar que o caminho para a motivação é o afeto. Nós, os que diariamente vivemos em território educativo, refletimos e debatemos, lemos e escrevemos, fazemos formações, implementamos, recriamos…perseguidos pela aflição da dúvida: Por que razão a maioria dos alunos não tem vontade de aprender? Numa espécie de argumentação de defesa, pais, professores, educadores, cada qual lava as suas mãos, em termos de linguagem bíblica, ou se quisermos à boa maneira do mestre Gil Vicente non som peccatus meus. Será?

Estudos na área da Psicologia e da Sociologia da Educação apontam para a necessidade das experiências positivas que levam, por seu lado, à autovalorização e à noção clara dos objetivos a atingir para obter sucesso. Mas de que falamos? A qualidade das experiências das crianças e dos jovens associada à escola e às atividades de rotina diária são definidas na primeira infância e, por conseguinte, a família é o modelo padrão que rege o percurso definidor de comportamentos futuros.

Hoje, temos salas de aulas povoadas de jovens com profunda indefinição de si próprios, não conseguindo lidar e equilibrar os desafios da aprendizagem com as suas inabilidades sociais e pessoais, faltando-lhes, quiçá, o sentir real das aprendizagens positivas que os incite para a representação de um papel sustentado pela motivação e compromisso com o trabalho que se faz na escola que é tão somente aprender.

Na Escola Profissional de Braga, como noutras tantas instituições de ensino, as atividades curriculares e extracurriculares promovem oportunidades de experiência positiva, de motivação, iniciativa, compromisso, o que tem dado resposta cabal à promoção do sucesso educativo dos seus formandos. Constata-se frequentemente que o desempenho exemplar dos nossos jovens alunos, em contextos de atividades extracurriculares, revela verdadeiras aprendizagens, pois em termos de plano de formação e plano de atividades poder-se-á reafirmar que a EPB é um maná.
Todavia, quando a família, a escola e as políticas educativas falarem a mesma linguagem haverá respostas mais assertivas para a escola e para o menino de cabelos anelados.

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