Colheita tardia

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Maria Miguel Laviada

Adorava aquele néctar dourado, naquelas garrafas pequenas. Eram pitorescas, de várias partes do mundo e a sua complexidade era a atracção perfeita: licorosa, aveludada e untuosa, carregada de mel e marmelo, aroma a flor de laranjeira. Apesar disso, devia ser sempre bebida fresca. A fechar uma refeição ou então como aperitivo num final de tarde solarengo. Por isso, para ele, uma colheita tardia, para além do sabor, era algo capaz de representar o melhor de dois mundos, num verdadeiro cocktail de gelo e fogo, num equilíbrio entre a frescura e o calor, entre um arranque prometedor e um descerrar de pano estrondoso, entre a frescura da juventude e a maturação da idade adulta.

Tinha sido pai há pouco tempo. De uma menina. Aquele ser pequenino e indefeso era a sua delícia. Os pés, as mãozinhas, o cheiro do seu cabelo semi-acastanhado, liso, aquela boca açucarada depois de ter bebido o leite era agora o eixo central da sua vida. Cantava-lhe canções da infância. Da sua infância. Ela sorria, encostava-se ao braço, deixava-se embalar pela melodia:
“O Tóino é um menino da aldeia,
é bom rapaz, habilidoso...
Não estraga os ninhos,
nem lhe vem à ideia
mentir ou ser vaidoso...
Tem todas as qualidades,
só um defeito: é ser teimoso!”

Memórias antigas, recordações frescas, autênticos carimbos eternos. A sua irmã tinha sido cantora. Em pequena. Era mais velha. Os primeiros sons que se lembra vinham da Ana Faria e dos Queijinhos Frescos.

Os vinhos de colheita tardia são geralmente doces, mas alguns apresentam-se docemente ácidos. São produzidos a partir de uvas que são deixadas na videira várias semanas após a data ideal de colheita. Essa era a magia que o encantava. Como era possível que uma uva colhida depois da data ideal, já a apodrecer, fosse capaz de se tornar em algo tão nobre, tão requintado. Algo capaz de abrir o apetite e ao mesmo tempo fechar uma refeição na perfeição. Raras coisas na vida são assim, isto, é, quando estão às portas do seu final de ciclo e conseguem unir o melhor de dois mundos. No fundo, são verdadeiramente especiais.

Tinha um desejo galopante, corria-lhe nas vias um samba incandescente de conhecer de perto essa metamorfose, essa borboleta vinícola. Tinham-lhe falado de locais soberanos, de castelos pintados de vinhas, de autênticos paraísos, típicos de histórias de reis, paladinos e fadas. Da comuna francesa Sauternes, localizada em plena região da Aquitânia, e de Tokaji, provenientes de Tokaj-Hegyalia, uma região húngara que se extende até à Eslováquia.

Queria estar ali, sentir essa tradição e, de qualquer maneira, fazer parte dela, como uma cartola que anuncia um mágico, ou até um porteiro de hotel, que a retiram para cumprimentar sempre que alguém novo surge no horizonte, mas que no mesmo gesto, por vezes repetido sem conta, volta ao seu lugar, assentando na perfeição, criando uma imagem natural.
“Mas onde é que eu fui, Rui?
Não vi ai, nem ui, Rui
Então tu levaste-me a um castelo
que só tinha coisas de encantar
A onde é que eu fui, Rui?
O que se conclui, Rui
Eram cavaleiros, heróis,
escudeiros, castelos pelo ar
De espada na mão,
Disseste ao Dragão (...)”

Há sempre um dia novo quando se olha para o sorriso de uma criança. Nada mais interessa. O mundo podia desabar, transformar-se em cinzas, porque aquele sorriso era a fénix da sua vida. Cedo pretendeu cultivar também a leitura em família. Ler, aprender, saber, ouvir e compreender.

Um dia, encontrou um livro de contos, que falava de um aventureiro, que buscava a felicidade suprema. Alguém que dava pouco valor ao que tinha e que nunca estava satisfeito com nada. Absolutamente o contrário daquilo que pensava. Contudo havia algo que lhe despertou a atenção: a presença de uma fonte que jorrava um néctar dourado, aquele que seria o verdadeiro elixir da vida eterna, da felicidade suprema.

A sua filha cresceu. Tornou-se arqueóloga, herdando gostos paternais e comportamentos próprios daquilo que herdou da educação que lhe fora transmitida ao longo do seu crescimento. Adorava ler, tirava proveito dos pequenos prazeres da vida e apreciava também um bom vinho. As cantigas do pai, levava-as sempre consigo. Cantarolava-as enquanto que colocava toda a sua paixão na busca incessante de civilizações antigas, de povos, de misteriosas cidades de ouro. Dos Maias, dos Incas, especialmente.

“O Vasco escreveu uma grande carta,
muito interessante ao Pai Natal
Ele queria uma coisa bem diferente, qualquer coisa de muito original
Um relógio de números trocados, onde o tempo andasse sempre a pular
Um lápis que escrevesse sozinho,
para fazer as contas na escola,
uma viola que tocasse castanhola”

Estava sempre fora e do pai já só guardava memórias. Eram muitas e cheias de sentimento.
Um dia partiu para os Andes, em busca das misteriosas cidades do ouro. Pelo caminho, encontrou uma vinha. A vinícola estava localizada às margens do deserto de Atacama, no místico Valle do Río Elqui, situado nas regiões dos vales transversais do Chile. O rio subia em altura rapidamente, desde os terraços baixos da zona costeira (com marcada influência oceânica) e penetrava no vale, encontrando uma grande diversidade de microclimas, até às encostas dos Andes.

Mar e cordilheira moldavam este singular vale, oferecendo um mosaico de possibilidades para o cultivo de vinhedos e a produção de vinhos. Estaria ainda longe do seu destino, contudo o horizonte contagiou-a e não a deixou sair dali. Olhou, suspirou e pensou: “a felicidade não é um destino, é um estilo de vida”. Desceu para a vinha, um agricultor convidou-a a entrar na adega e serviu-lhe uma colheita tardia.


Dedicado a uma menina muito especial

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