Eles não sabem o que fazem

Ideias

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Carlos Morais

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Desde o início do século XVIII que o crescimento económico, demográfico e o desenvolvimento técnico-científico impulsionaram importantes alterações sociais e culturais consubstanciadas no avanço do pensamento iluminista, exercendo um papel de crítica social, religiosa e política. Esta filosofia iluminista, racional, humanista e progressista criticou severamente a vida do seu tempo, defendia o progresso moral e material das nações, com base no desenvolvimento da ciência e da técnica e na educação dos povos.

É neste último aspeto que, a meu ver, nos devemos focar, pois este justifica a inegável mudança a que assistimos em Portugal e o consequente progresso do país. Acredito que é pela educação que se ilumina e esclarece o povo. Ora um povo esclarecido é um povo conhecedor, ativo, consciente dos seus direitos e dos seus deveres, capaz de exercer a sua cidadania, respeitar os outros e realizar-se. Depois de se conhecer o orçamento de estado para 2014, constatamos que os cortes na educação ascendem a 340 milhões de euros a que se juntam os cortes dos últimos dois anos em que o orçamento da educação desceu de 5,7% do PIB para 3,9%. A evolução que tanto desejamos está seriamente comprometida.

Ao longo da nossa história, a educação foi o ponto fraco de todas as estatísticas de desenvolvimento. Não se compreendia que a educação era a base de tudo, porém parece que esta ideia perdura, ainda, nos dias de hoje. Para se ter uma estratégia de futuro é necessário apostar na educação. Em Portugal, durante o Estado Novo, a forma de controlar o país e do próprio regime se perpetuar era manter o povo ignorante, isto é, não lhe proporcionar educação. O regime de Salazar jamais concedeu prioridade a uma política de educação de massas.

O governo nunca se preocupou com a difusão da educação em larga escala, pois não lhe interessava uma sociedade ativa, interventiva e reivindicativa. O sistema educativo era altamente centralizado. Hoje em dia este centralismo do ministério continua, pois é ele que cria, define, aprova ou reprovava tudo, independentemente das necessidades.

A sociedade portuguesa mudou, à medida que estudava, não podia continuar comodista, resignada, pouco ativa e participativa, cheia de estigmas. As ferramentas existentes para enfrentar a vida eram escassas, o espírito de sacrifício geral era enorme. Quem tivesse a sorte e o engenho de chegar a ter um curso, quem não pertencesse às classes mais favorecidas, e era a maioria da população, sabia que o esperava muito trabalho e muito sacrifício.

Assim, parece, lamentavelmente, que é para este modelo que vamos caminhando. Vivia-se com ordenado baixo, casas alugadas, usavam-se e rompiam-se roupas, mobiliário e utensílios já utilizados. Hoje, revive-se o passado, vivemos com salários cada vez mais baixos, usurpados pelos impostos, em casas que alguns já não conseguem pagar, assistindo ao desespero das instituições de solidariedade que lutam para darem ajuda e solução a todas as solicitações. É uma vida dura, semelhante à de outros tempos, as perspetivas de melhorar são difíceis e, com os cortes na educação, a ferramenta que poderia alterar esta situação, o progresso está condicionado e infelizmente vislumbra-se o agravamento das desigualdades sociais.

Salazar reconheceu que a educação podia trazer mudanças na mentalidade, podia levar à subversão da nação, originando revoluções, daí a pouca aposta na “iluminação do povo”, para o manter “dócil” e “facilmente educável”. “Considero mais urgente a constituição de elites do que ensinar toda a gente a ler. É que os grandes problemas nacionais têm de ser resolvidos, não pelo povo, mas pelas elites enquadrando as massas” (Salazar). Tínhamos um povo pouco ilustrado, controlado por uma elite, sem capacidade para se revoltar.

Como consequência, construíamos, então, uma nação, um povo retrógrado, apático, pouco disponível para a mudança e que facilmente incorporou o estilo nacional do Estado Novo (Deus, Pátria e Família), como elementos que reproduzem as ideias desse mesmo regime. Éramos um povo com medo da mudança, de arriscar e protestar, reflexo da personalidade que o dirigia “ditador provinciano, reservado e puritano”.

Aliás, se alguma coisa é substancialmente inferior em Portugal face aos vizinhos, não é o povo, mas a elite. A população, com a sua sensatez, franqueza e fidelidade, sempre fez maravilhas, no século das descobertas como no das revoluções, na era iluminista como nos tempos recentes, suportando todas os males que lhes têm infligido. Quem nunca esteve à altura foram os nossos dirigentes e elites que, depois, se desculpavam com o povo inculto.

A grande alteração que a Constituição de 1976 trouxe foi a ênfase dada à educação: liberdade de aprender e ensinar, direito universal à educação e cultura, sendo dever do Estado garantir gratuitamente o ensino obrigatório. Mas, como vivemos em tempos de austeridade, esta obrigação constitucional é esquecida. É ainda possível encontrar, na sociedade portuguesa, características intrínsecas ao nosso povo: uma sociedade corporativa, em que a segurança é mais importante do que a concorrência e a inovação.

Muitas das nossas elites foram criadas diretamente pelo Estado e, à sua sombra, a inveja não permite que ninguém se destaque e ao Estado custa deixá-los. Estas características ainda as encontramos na sociedade, podemos dizer que são uma linha de continuidade, com uma linguagem diferente e adaptada aos novos tempos.

A Escola Profissional de Braga, apesar de todas as dificuldades e limitações pelo que o país passa e vai, com certeza, continuar a passar, ao longo dos seus 24 anos de atividade, não deixou de acompanhar o percurso escolar de mais de 3 mil alunos em cursos profissionais. Respondeu a uma necessidade que a região sentia no tecido empresarial e na educação dos seus jovens.

Na sua formação, a EPB tem a preocupação de integrar os seus alunos na vida ativa, apoiando a sua participação em estágios e o contacto com o mercado de trabalho a nível regional, mas também a nível internacional (estágios transnacionais), como ferramenta para ultrapassarem as dificuldades.

Para concluir, podemos dizer que Portugal vai continuar a mudar, isso é um processo que ainda está a decorrer, independentemente dos obstáculos que se nos vão impondo, para além de cada um de nós fazer parte dele e do futuro depender da nossa constante mudança, adaptação e superação. O que faz um país são as suas gentes, portanto o seu futuro depende de cada um dos seus.

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