Sinais do tempo

Ideias

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Paulo Leitão

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Moritz Erhardt encontrava-se a terminar um programa de estágio de curta duração no Bank of América, em Londres, onde produzia análise de investimentos. Tratava-se de um ser humano de nacionalidade alemã e tinha 21 anos. Perdeu a vida depois de, alegadamente, ter trabalhado durante 72 horas consecutivas.
A notícia, que embora episódica nada teve de surpreendente, foi veiculada em meados de agosto, à escala global, mas não mereceu especial destaque nos debates que preenchem os nossos canais de informação. Contudo, lá conseguiu emergir, apesar da exaustiva cobertura dada à praga de mosquitos que afetava as praias da Quarteira ou ao desolador início de época do Benfica.

Há algumas semanas atrás, e de forma sucessiva, duas embarcações naufragaram no mediterrâneo, carregadas com centenas de pessoas, nossos semelhantes, que não procuravam o sonho de navegar num romântico circuito de Cruzeiros, mas apenas o de encontrar um trabalho e a dignidade que nunca conheceram, mas que haveriam de encontrar, logo que atingissem a costa Siciliana.

Nada. Também a notícia submergiu a pique, ao contrário daquela que, meses antes, havia relatado o acidente com paquete de luxo «Costa Concórdia», no mesmo espaço de navegação.
Estas referências, que aparentemente nada têm de comum, revelam a transversalidade da inquietação, do instinto de sobrevivência e da completa alienação em que se vive.
Hoje, talvez seja mais seguro viver numa qualquer savana africana. É que, por lá, os abutres apenas se apoderam das carcaças, enquanto por cá, e de forma dissimulada, trituram-nos em vida.

Infelizmente, está muito longe de ser despropositado, continuarmos a consciencializar para a necessidade de se erradicar a pobreza, mesmo que usemos remos de papel e que saibamos que a maré, sempre forte e contrária, nos empurra contra o cais.
No nosso país já existiram cerca de três milhões de pessoas a viver no limiar da pobreza, entre as quais, muitas centenas de «novos escravos».
Não só por isso, mas também, a Escola Profissional de Braga não desligou os sinais de alarme e, em 17 de outubro, promoveu uma jornada de reflexão, dentro do espírito de liberdade que o pensamento exige.

Produziram-se manifestos que revelaram desgosto, medo e desilusão, mas também a pueril esperança de que, talvez um dia, aqueles que sobrevivem possam finalmente viver, usufruindo desse luxo que todos recebemos por uma só vez.
No dia para a erradicação da pobreza, os nossos alunos foram convidados a assistir a uma reportagem que relatava a desagregação económica e afetiva das famílias, o desencanto e isolamento de muitos idosos desnutridos e a fome que obrigava crianças a procurar a escola para comer, mas nem sempre para estudar.

Foi visível que todos entraram, no auditório, leves e descontraídos, como se não houvesse amanhã. Mas depois de iniciada a sessão, a sala gelou, como se um balde de água a inundasse numa lágrima só. Os rostos fecharam-se e o inquietante silêncio, que de repente nasceu, incomodou, por tudo aquilo que queria dizer.
Estava cumprido o objetivo daquele dia. O problema é que muitos dias se seguiram e muitos mais se seguirão. Por isso, não nos podemos conformar. Não devemos apenas olhar em frente quando, ao nosso lado, o suspiro da angústia ecoar.

Devemos exigir aos Estados que se uniram para produzir convergência, que não insistam em aumentar a divergência, que nos protejam e não nos excluam, que promovam o bem-estar coletivo, opondo-se aos interesses particulares, que nos governem a todos e não apenas alguns.
Às empresas, sobretudo aos grupos de maior dimensão, pede-se que reorientem os seus objetivos primários, para que na ânsia da maximização do lucro não atropelem a dignidade das pessoas.

Chegou a hora de perceberem que, aqueles que nelas trabalham, são os mesmos que nelas consomem e que a responsabilidade financeira não implica irresponsabilidade social.
Se a depreciação económica do valor do trabalho se mantiver a este ritmo, e se o volume de afastamentos o acompanhar teremos, no limite, um aumento exponencial do número de excluídos, no nosso país.

Nessa altura, talvez a Universidade Católica já não tenha capacidade para repetir a ideia de recrutar alguns ‘sem-abrigo’, para a frequência de um programa de formação que os transformou em guias turísticos, tal como aconteceu no verão passado, na cidade do Porto.
Além disso, dificilmente se repetirá a novela em que uma empresa americana, onde havia trabalhado um destes ‘desabrigados’, o voltou a contratar, quando o seu proprietário o reconheceu, ao visualizar o conteúdo desta notícia, amplamente divulgada através das redes sociais.

Ninguém sabe se tudo isto é apenas um enorme ciclo, se estamos no início, a meio ou no fim de um pesadelo.
Valha-nos, por isso, o contentamento dos habitantes de Braga que, segundo um estudo produzido e divulgado pela Comissão Europeia, está no topo, quanto às cidades da Europa onde os residentes revelaram maior satisfação ao nível da qualidade de vida que possuem, indicando que a educação é um dos fatores que mais contribui para essa situação.
Talvez este estudo esteja descontextualizado da atual realidade nacional ou, quem sabe, seja mais um daqueles que sublinha e assinala os incongruentes sinais do tempo.

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