Ensino: desinvestimento nas novas tecnologias

Ideias

autor

Américo Rodrigues

contactarnum. de artigos 5

“Não se governa nem se deixa governar”, frase atribuída a um romano (Galba?), faz as delícias das sucessivas gerações que a descobrem. Os dez milhões e pico de almas, vivem uma conjuntura financeira e económica de difícil governação. O nosso pequeno mundo com menos gente que muitas cidades do globo, procura incessantemente fórmulas para gerir convenientemente alguns dos pilares da sociedade como a educação, justiça e saúde. No primeiro e no último, o investimento, desinvestimento, público ou privado têm sido coados conforme as cores políticas ou modas. Em 2008, Portugal encontrava-se abaixo da média europeia no que respeita às despesas públicas com educação e ao valor médio gasto com cada aluno. Com um total de despesa pública de 4,9% do PIB, encontrava-se ligeiramente abaixo da média da UE-27: 5,1%.

A Dinamarca registava a despesa pública total em educação mais elevada em termos relativos: 7,8%. Apesar de tudo, no último PISA, num ranking dominado pelos países e regiões asiáticas, Portugal colocou-se, pela primeira vez, ao nível da média da OCDE na literacia matemática - os alunos tiveram o mesmo resultado em 2009 e em 2012; a média da OCDE baixou. Na leitura e ciência continuam abaixo da média. Em 2000 o país ocupava os últimos lugares da tabela.
Nos últimos anos, com o argumento de dívida pública/défice orçamental, que tudo parece legitimar, os nossos responsáveis diminuíram o gasto na educação.

É incompreensível termos turmas até 30 alunos. Nunca conheci uma opinião lógica sobre esta decisão. Todos os anos há mudanças, muitas sem nexo. O desinvestimento humano sempre redundou num atraso em termos social, cultural e económico. No início da década de setenta do século vinte, quase metade da população era analfabeta e apenas 7% de estudantes que terminavam o secundário continuavam estudos na universidade. O nosso país continua a ter níveis de iliteracia elevados, de insucesso e abandono escolar.

No ensino superior, taxas das mais baixas da comunidade europeia. Estaremos eternamente na cauda dos rankings dos países, em relação aos níveis de desenvolvimento social, científico e tecnológico? Para subir posições na tabela, qualquer pessoa de senso comum dirá que a educação de qualidade e o exemplo, com alicerces na ética e no mérito serão o cerne do português que se pretende nas próximas gerações.

Portugal apresenta dados desafiantes. Somos um dos países mais envelhecidos do mundo. No relatório da ONU, 2012, Portugal ocupava o 7º lugar do mundo no topo dos menos férteis. O actual número médio de filhos por mulher é um dos mais baixos do globo. A emigração por necessidade regista números inaceitáveis. Quase meio milhão de jovens, entre os 15 e os 34 anos, não estuda nem trabalha. Os “nem-nem”, não têm emprego (a maior causa), não estudam, nem estão em formação. Em 2014, o PIB per capita português continuará em divergência relativamente ao dos parceiros comunitários; será apenas 51,7% da média da Europa a 15 (países até 2004), prevê a CE. Os salários são dos mais baixos, mas pagamos possivelmente a electricidade mais cara da Europa, a par de outros bens essenciais.

O leitor pode continuar a elaborar a lista. A capacidade de investimento na qualidade do ensino e a evolução demográfica serão cruciais para o futuro do país. Nas próximas décadas a gigantesca evolução das tecnologias digitais, iniciada há uma década atrás, terá um impacto no emprego e na distribuição da riqueza.

No meu último artigo, deixava a questão: que pensam os responsáveis deste país em relação ao ensino da informática na escolaridade obrigatória de 12 anos? As disciplinas e os cursos diminuíram nas escolas. Na última década o paradigma parecia ser diferente. Declarações vindas a público parecem alavancadas em conhecimento deficitário. Isto porque as disciplinas de informática, não deverão ser vistas unicamente como as disciplinas para ensinar tecnologias actuais, mas sim para preparar os jovens para as tecnologias do futuro.

A aprendizagem de informática com garantias de equidade depende do ensino. No último ano, alguns alunos deixaram mesmo de poder escolher livremente o curso pretendido. Tal impossibilidade pode ter influência no percurso escolar de insucesso, quer até na escolha de uma futura profissão. Fará isto sentido? A resposta simples é: não, não faz!

A era totalmente digital que vivemos exigirá cada vez mais ao cidadão conhecimentos sólidos na utilização obrigatória dos meios tecnológicos, na sua vida pessoal e profissional. O desafio é incontornável. Os futurologistas usam a metáfora do arroz no tabuleiro de xadrez para ilustrar que estamos a entrar na segunda metade do tabuleiro ao nível tecnológico e económico. Em 2011, Sebastian Thrun, Google e professor de Stanford sentou-se em casa, frente a uma câmara e lançou o primeiro MOOC falando de Inteligência Artificial.

Mais de 165 mil pessoas, em 190 países inscreveram-se imediatamente. Sem pagar, podiam assistir às mesmas aulas dos 200 alunos que se acotovelavam à entrada do auditório da universidade e que pagavam propinas de 40 mil euros para ouvir Thrun. Considerando que o professor é sempre indispensável, as tendências futuras da sala de aula são difíceis de vislumbrar num futuro próximo. A sala de aula vai mudar mais nos próximos anos do que no último século, vaticinam alguns.

Em centenas de escolas na Europa e quatro em Portugal estão em execução projectos pioneiros. Preocupa-nos o futuro do ensino da informática do nosso país. A maioria dos alunos tende a acabar o ensino secundário sem nunca ter aprendido conceitos fundamentais, sendo praticamente analfabetos funcionais ao nível das tecnologias. Na Escola Profissional de Braga a aposta nos cursos tecnológicos é uma certeza; no técnico de Gestão e Programação de Sistemas Informáticos, depois do enriquecimento do plano curricular com a certificação Cisco, juntamos agora algumas da Microsoft.

Num mercado cada vez mais escasso e exigente, mais competências aumentam a possibilidade de conseguir emprego ou continuar estudos no ensino superior. Independentemente da escolha, o curso será um trunfo decisivo para qualquer desafio futuro, pessoal ou profissional.

vote este artigo

 

Comente este artigo

Faça login ou registe-se gratuitamente para poder comentar este artigo.

comentários

Não existem comentários para este artigo.

Últimos artigos desta categoria - Ideias

Tempo

Classificados

Edição Impressa (CM)

Edição Impressa (MF)

Newsletter

subscrição de newsletter

mapa do site

2008 © todos os direitos reservados ARCADA NOVA - comunicação, marketing e publicidade, S.A. | concept by: Cápsula - soluções multimédia