25 anos do ensino profissional

Ideias

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Fernando Silva

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Em 1989, o ensino profissional regressava à ribalta, depois de certa letargia com a extinção dos cursos técnico-profissionais, uma política pós-abril que viria a comprovar-se errada.
Com efeito, nesse ano nasciam as escolas profissionais, instituições de iniciativa das forças vivas regionais, papel que, em Braga, coube à Câmara Municipal, Associação Industrial do Minho e Associação Comercial. Estas entidades uniram esforços e fundaram a Escola Profissional de Braga, que integrou um primeiro grupo de 50 escolas profissionais. Parecia encontrada uma resposta para as necessidades das empresas e anseios das famílias, esperança alicerçada no alargamento da rede destas escolas para cerca de 120 e na criação dos cursos tecnológicos nas escolas públicas.

Desde então, as escolas profissionais passavam a constituir a principal modalidade de formação profissional para jovens, ideia comprovada pelo feedback das empresas, alunos e suas famílias, mas verificava-se que os candidatos rapidamente esgotavam a capacidade destas escolas, enquanto as empresas esperavam por mais pessoas qualificadas. Além disso, os cursos tecnológicos não correspondiam às expetativas iniciais, por falta de equipamentos, oficinas e laboratórios adequados à tipologia dos cursos.

Entretanto, em 2004, dava-se o alargamento dos cursos profissionais às escolas públicas, um presente apetecível a alunos e famílias, em especial pela diversidade da oferta formativa em número de cursos e de escolas, o que levou a um aumento significativo de alunos nesta via de ensino. E, alguns anos depois, já se contavam mais de 90 000 inscritos, números que não pararam de aumentar desde a implementação da iniciativa Novas Oportunidades, a qual qualificou mais de meio milhão de portugueses através do processo de reconhecimento, validação e certificação de competências.

É claro que estes números foram aplaudidos pelos responsáveis da educação, mas os estudiosos foram pondo certa moderação no otimismo reinante. Porque, apesar de se conhecerem boas práticas formativas e muita paixão nas escolas, havia a perceção de que nem tudo ia bem na formação profissional, em especial com a generalização dos cursos profissionais, cujos públicos muito diversos nem sempre encontravam nas escolas respostas adequadas aos seus perfis. E também faltava aferir o impacto do modelo, sobretudo na relação qualificação/empregabilidade.

E chegamos a 2011, altura em que ocorre o encerramento da iniciativa Novas Oportunidades e dos respetivos CNO, que deram lugar aos CQFP a abrir portas talvez ainda na primavera de 2014, depois de três anos de (quase) estagnação da formação de adultos.
Entretanto, está em curso uma experiência-piloto do ensino vocacional baseada no método dual alemão que segmenta alunos a partir do 5.º ano segundo os seus resultados, distribuindo-os por escolas com percursos educativos específicos. Para este ano letivo foram aprovadas 480 turmas de alunos dos 2.º e 3.º ciclos com historial de dificuldades, podendo muitos deles concluir num ano o respetivo ciclo de formação.

Vamos ver no que dá, mas duvidamos que adolescentes de 12/13 anos compreendam o alcance de tão “jovem” separação, podendo o “vocacional” tornar-se um método de clara segregação social e levar ao facilitismo, para além de não encontrar condições de viabilidade na tradição das empresas portuguesas nem nos recursos existentes.

Seja como for, a Escola Profissional de Braga corporizou, nestes 25 anos, um ensino profissional de qualidade. Que foi conseguido por mérito próprio, através de um projeto educativo credível que lhe permitiu conquistar rapidamente o seu espaço na região, levando à formação de cerca de 3.500 técnicos, muitos deles colocados em cargos assinaláveis das empresas - secretariado, gestão, contabilidade, multimédia, ensino, eletrónica, marketing ou construção civil.

A EPB apostou forte numa formação assente em práticas formativas inovadoras e diversificadas, e em projetos de cariz empreendedor e de sucesso para a formação, visando a promoção de competências pessoais, sociais e profissionais. Atribuiu centralidade ao papel dos alunos na construção do saber e do conhecimento.

E deteve-se no perfil dos novos públicos, reforçando a formação para a cidadania para aumentar os níveis de motivação e a redução de comportamentos desviantes dos jovens. Um problema transversal à escola portuguesa, cujas causas são muitas e complexas, adiantando-se apenas que os alunos questionam com frequência o que lhes é proposto, inclusive a validade do estudo, por se sentirem desconfortáveis quando lhes “acenam” como saída a emigração ou o desemprego.

Neste contexto, torna-se imperioso que a EPB, agora integrada no Grupo Rumos, continue a sua missão, com garantias de sustentabilidade. Com um rumo assente na equidade, cooperação e reconhecimento do valor dos seus atores, e atenta ao contexto de emergência social. Que estabeleça diálogos permanentes com as empresas, visando parcerias consistentes e diversificadas, e identifique as necessidades emergentes do tecido empresarial.

Que redefina a sua oferta formativa, incluindo a busca de novas parcerias em latitudes como Europa e África. Que incentive a melhoria das práticas pedagógicas e a formação dos professores. Que agilize a abordagem atitudinal dos jovens, para se compreender os seus anseios e necessidades, e antecipar comportamentos desajustados. E que consolide a qualidade da formação, fazendo da inclusão social a sua bandeira.

A terminar, destacamos o papel das escolas profissionais na formação e qualificação de milhares de jovens e adultos, com um importante legado para as empresas, famílias e sociedade. Um modelo que aponta caminhos… Por exemplo, para uma reforma na educação pensada para um horizonte temporal alargado, assente em decisões equilibradas e assertivas, com um investimento ajustado e centrada nas pessoas. Porque é do futuro de gerações que se trata. E assim, talvez os atores da Escola possam vencer as incertezas do presente e alcançar os ventos de bonança dos amanhãs de esperança.

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