“Estranha forma de vida” - o nosso fado

Voz às Escolas

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J. A. Pinto de Matos

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Um novo relatório PISA - Resolução Criativa de Problemas: As competências dos alunos para lidarem com os problemas da vida real - mostra que Portugal integra um grupo de países, como a Áustria, a Noruega, a Irlanda, e a Dinamarca, cujos alunos obtêm resultados de nível médio, e que foi dos países da OCDE mais bem-sucedidos em tarefas interativas, melhor do que o esperado, tendo em conta o desempenho global. A imprensa pegou-lhe pela rama, fazendo sobressair os aspetos menos conseguidos, e do ministério quase nada se ouviu…

Quando os resultados internacionais, sobretudo na área económica, registam ténues sinais de melhoria, ainda que ninguém os note e continuemos submersos e a respirar com a água pelo nariz, mesmo estando em bicos de pés, pronunciam-se ministros, secretários de estado e acólitos bajuladores na comunicação social cantando laudas ao grande feito.

Que ninguém deixe de reparar na proeza! Incompreensivelmente (ou talvez não), quando os resultados mostram que Portugal deu passos de gigante na área da educação - passando da cauda nas comparações internacionais para a média da OCDE - sente-se um quase vazio informativo e opinativo, quando não de desmerecimento dos dados, procurando zonas cinzentas nos relatórios para arrazoar umas notas de imprensa.

Teria que ser louvado o trabalho dos alunos e dos profissionais da educação neste árduo esforço de recuperação de encristado atraso de décadas, que nos mantinha nos níveis do terceiro mundo. Esforço notável, de resultados consistentes, como veem demonstrando diversos estudos internacionais, apesar da falta de autonomia das escolas para elaborarem respostas inovadoras e contextualizadas, e apesar de uma constante instabilidade legislativa, de políticas educativas de curto prazo, tantas vezes contraditórias e de pouca fiabilidade, com a inevitável confusão que espalham nas escolas.

E os nossos governantes também são atacados duma estranha afonia, nestes momentos em que a educação precisava duma voz presente para realçar os seus feitos (não há muitas mais áreas em que Portugal se encontre ao nível médio europeu, tendo partido tão “do fundo”!). E se falam, porque nem sempre é possível escapar de perguntas incómodas, condescendem que Portugal tem vindo a evoluir 'de forma positiva' nos estudos internacionais sobre a educação, como têm demonstrado os relatórios PISA; mas logo entroncam no discurso algum senão, como 'o risco de estabilização', que é 'preciso evitar' (como referiu o senhor secretário de Estado do Ensino Básico e Secundário, Dr. João Grancho). Convém lançar um pouco de água no entusiasmo, para que as escolas não fiquem inebriadas com o feito...

Embora as escolas não estejam à espera de um afago que lhes adoce o ego (não estão a isso habituadas, mas fazia-lhes bem) persistem (e resistem!) no seu labor por uma escola pública de qualidade. Não é “o risco de estabilização” que temem; temem é que a situação regrida, não obstante o seu empenho! São muitos os sinais de que se está a arrepiar caminho nessa linha evolutiva que estava a atingir resultados positivos e em alguns casos de notório realce. Um exemplo apenas: a Associação de Professores de Matemática, numa reação ao relatório PISA, refere que os melhores resultados, apresentados em países como o Japão, Estados Unidos ou Alemanha, são possíveis porque apostam em envolver mais os alunos em tarefas menos rotineiras “ao contrário daquilo que entre nós é preconizado no Programa de Matemática para o Ensino Básico (PMEB) homologado em 2013”. Lá vão as escolas encetar novas “experiências”, em contracorrente (parece fado) com as recomendações internacionais e a investigação em educação, que apontam o desenvolvimento da capacidade da resolução de problemas como um dos grandes desafios.

Os resultados destas políticas recairão sobre as escolas (e sobretudo sobre os seus profissionais), pois os seus efeitos virão mais tarde ao de cima; mas há muitos e bons profissionais nas escolas que irão continuar a debelar os efeitos mais nefastos destas orientações (serão eles em contramão). As escolas sabem (os seus profissionais sabem) que, quando ocorrer um qualquer “fait divers” que as deprecie, será imediatamente aproveitado e terão as parangonas na comunicação social reservadas, e o ministério “atento” - todo um investimento educativo, apaixonado e persistente, pode assim ser inopinadamente ignorado e tudo ser posto em causa (“estranha forma de vida” - o nosso fado).

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