Caminhadas de fim de semana

Ideias

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José Oliveira

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“É importante que escreva uma crónica.” Sim, se este foi o convite também este foi o meu desafio de fim de semana. Aceitei o compromisso e havia que lhe dar cumprimento. Mesmo que tempo não houvesse, haveria de o procurar, já que compromisso é isso mesmo: compromisso. Há muitos momentos na nossa vida em que ficamos sob a pressão do Tempo e a sua voz parece augurar-nos insucesso. Mas outra voz se sobrepõe, a do compromisso assumido, a do sentido de responsabilidade. A vida é uma constante interpelação e ânsia de consecução de objetivos.

Não é isso que nós, aliás, enquanto professores, procuramos transmitir aos alunos: o valor do compromisso, a cultura do esforço para que o talento se revele? Não, não quero que se me aplique (ou se nos aplique) aquela afirmação de “Muito bem prega Frei Tomás”… A aquisição e desenvolvimento de comportamentos que pretendemos ver espelhados nos outros resultam sobretudo do exemplo que se transmite mais do que pela doutrina que se apregoa.

Ora…que tema trazer para a minha crónica? Quando me surgirá o seu fio condutor? Como o tema não surgia… decidi ir à sua procura e poderia muito bem encontrá-lo numa palavra, num evento, num instrumento musical. Nada melhor do que iniciar uma caminhada ao longo da via pedonal em direção ao centro da cidade.

De repente, recordei-me do capítulo de um livro em que se nos declarava que os mapas são úteis em mundos conhecidos, explorados e cartografados. As bússolas, porém, são úteis quando uma pessoa não sabe onde está e necessita apenas de um sentido geral de orientação. Ora, a ideia de bússola atraía-me, porque na interpelação contínua que a vida nos faz é exatamente de bússola que necessitamos e, a seu modo, a educação, a procura do conhecimento, a aprendizagem ao longo da vida são isso mesmo: bússola.

Lembrei-me que, nesta altura do ano, muitos jovens que concluíram o 9.º ano de escolaridade e pretendem prosseguir estudos necessitam de quem os oriente para fazerem as opções entre a via científica ou profissional, de forma a melhor corresponder aos seus projetos de vida. A opção por um curso profissional tem sido uma das vias em que cada vez mais as famílias se envolvem, atendendo ao facto de os cursos profissionais se terem tornado numa primeira escolha.

Sentado à mesa de um café, os meus olhos caíram sobre o i, da edição deste fim de semana, que nos noticiava que investigador Christian Dustmann, da University College London, em conferência em Braga, explicara que a educação, o nível e a capacidade de atingir objetivos influenciam a duração da emigração.

E a minha mente ressuscitou ecos dolorosos de Manuel Freire em “Ei-los que partem novos e velhos” e a ameaça que sobre nós existe, enquanto País, desta fuga, em muitos casos por pressão da necessidade mais do que pela ânsia de contactar outras culturas e outros povos, para as quais estas últimas gerações se encontram mais bem preparadas. Verifiquei que poderia escrever algo que explorasse a relação entre educação e empregabilidade ou educação e desenvolvimento económico.

Ali, mais adiante, nessa tarde de sábado, por entre a agitação sanjoanina, no Dome da Escola Profissional de Braga, com toda a sua oferta formativa de cursos profissionais, duas professoras do Curso de Auxiliar de Saúde acompanhadas por alunas faziam rastreios à população e proporcionava-se orientação vocacional, com a participação da psicóloga da EPB.
Este podia ser bem o tema da minha crónica: a importância da orientação vocacional e como potenciá-la para um percurso académico e profissional motivador.

Fim de sábado. Surge-me o convite para assistir ao concerto de Júlio Pereira, no Theatro Circo em Braga. A profunda e íntima cumplicidade que o músico estabelecia com o cavaquinho pareceu-me entreabrir uma ideia para esta crónica. Era mágica a relação íntima que o músico estabelecia com o instrumento e ele, músico, era ali el comandante, que num simples cavaquinho instalava uma orquestra.

Júlio Pereira aludiu às muitas viagens do cavaquinho, à sua transportabilidade tal como a voz e a língua portuguesa e eu acrescento: tal como o conhecimento que é o capital que o futuro aguarda destas gerações com que nós trabalhamos nas escolas profissionais, com carreiras internacionais à sua espera… tal como a de alguns dos alunos da Escola Profissional de Braga, a que fez referência a recente revista Sábado.

Assisti ao jogo de Portugal-Alemanha. Da ansiedade passei para a euforia e da euforia rapidamente passei para a frustração. Eu bem sei que devemos ensinar os alunos a resistir à frustração como condição fundamental para a sobrevivência… Mas, desculpem-me, com este resultado e o de Portugal-E.U.A (ainda haverá esperança?) não tenho vontade de escrever crónica alguma.

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