A imagem social do professor

Voz às Escolas

autor

J. A. Pinto de Matos

contactarnum. de artigos 43

A OCDE publicou, na semana passada, o relatório TALIS (Teaching and Learning International Survey) de 2013, onde sobressai, como se notou pelos títulos noticiosos da imprensa portuguesa, que nove em cada dez professores do 3.º ciclo sentem que a sua profissão é desvalorizada pela sociedade, sentimento de desvalorização muito maior do que o da média dos 34 países analisados.

Nada de surpreendente para quem circula pelas escolas ou está minimamente atento às consequências nefastas das políticas educativas dos últimos anos. O desinvestimento na educação tem sido por demais evidente para que mesmo os mais desatentos não tenham dado por ele; e a luta, por vezes inglória, dos docentes no sentido de manterem a sua dignidade profissional, é frequentemente minada por insinuações de privilégios vários, com epicentro no próprio Ministério da Educação (e agora também da Ciência) - MEC, cirurgicamente espalhadas sob o manto (pouco) diáfano do anonimato, logo empoladas por comentadores encartados (na ignorância, tantas vezes!), para facilitar ou justificar socialmente determinadas medidas.

O tsunami de medidas erráticas e cada vez mais prescritivas, limitando tantas vezes a ação que deveria ficar no âmbito da autonomia da escola e da competência pedagógica dos profissionais, também mina a credibilização dos professores na sociedade (percebendo nestes meros executores, burocratizados e incapacitados para aplicação daquela regra que até no intrincado mundo do futebol é sistematicamente reclamada: a regra do bom senso de quem tem que tomar decisões). Mas para isso era necessário reconhecer e confiar no profissionalismo dos professores, o que não transparece das medidas e das intervenções públicas dos responsáveis do MEC.

Mas não se ”peca” apenas por ação. Há também omissões relevantes do MEC que penalizam a imagem social do professor e assim acentuam o seu sentimento de desvalorização profissional. Em 2012, por exemplo, apresentámos um estudo amplamente participado por decentes de todas as regiões educativas do país, onde um terço dos professores declarou já ter sido alvo de cyberbullying (34%).

O assunto é grave, pela dimensão e pelas repercussões no quotidiano pessoal e profissional dos professores, mas, tal como na altura, pode dizer-se que é um problema sobre o qual o MEC e as suas estruturas intermédias não denotam preocupação, continuando a ser numa realidade escondida, uma realidade “propositadamente” escondida, na perceção de muitos professores.

Simultaneamente, e em aparente contradição com a desvalorização que dizem sentir por parte da sociedade, 94,1% dos docentes portugueses do 3.º ciclo declararam-se satisfeitos com a profissão. Acirraram-se logo as vozes de maldizentes, nos espaços das redes sociais (felizmente livres, mesmo para o disparate), a justificarem esta “evidente” incongruência: que são uns incompetentes… que ganham bem... que não fazem nada (diz o povo, na sua sintética e experimentada sabedoria, que o trabalho dos outros nunca nos pesou)…

Afinal, lugares-comuns que só comprovam a justeza do sentimento de desvalorização social da profissão e que podem ser facilmente rebatíveis por este mesmo relatório: os professores portugueses abrangidos neste estudo têm uma componente de trabalho letivo acima da média dos 34 países analisados, passam mais tempo a preparar e planear aulas, e gastam o dobro da média das horas semanais a marcar e corrigir trabalhos...

Enfim, adiante, que, como também diz o povo, há certas vozes que não chegam ao céu. São vozes de pessoas claramente ressabiadas, provavelmente traumatizadas por um mais que provável insucesso escolar (face à má utilização da língua); provavelmente azedadas por uma má experiência escolar do contacto com algum menos bom profissional (qual a profissão que os não tem?); ou simplesmente movidas por esse baixo sentimento, transversal a todos os níveis sociais e povos - a inveja; (ou outra qualquer ignota motivação, de ideário político talvez, que não vem ao caso tratarmos nesta crónica).

Não percebem uns, e não querem perceber outros, que há outros valores que (ainda) movem as pessoas. Não é seguramente a valorização económica da profissão que motiva tal resposta (os valores têm descido a um ritmo contínuo e acelerado e as fortes penalizações financeiras não têm impedido muitos docentes, bons e experientes docentes, a saírem desencantados para reformas antecipadas ou rescisões de contratos): a verdade é que quase todos os professores portugueses (99%), neste estudo, acreditam que contribuem para os alunos valorizarem a aprendizagem.

Os professores sabem ler, na sua interação com os alunos e as famílias, a importância da sua ação educativa, e por isso não desfalecem facilmente, continuando (muitos) a investir criativa e estoicamente (ainda é tolerada a criatividade!…) por uma educação integral e socialmente valorizada. Alunos e pais reconhecem ou acabarão por reconhecer esse investimento, apesar da maré adversa.

vote este artigo

 

Comente este artigo

Faça login ou registe-se gratuitamente para poder comentar este artigo.

comentários

Não existem comentários para este artigo.

Últimos artigos desta categoria - Voz às Escolas

Tempo

Classificados

Edição Impressa (CM)

Edição Impressa (MF)

Newsletter

subscrição de newsletter

mapa do site

2008 © todos os direitos reservados ARCADA NOVA - comunicação, marketing e publicidade, S.A. | concept by: Cápsula - soluções multimédia