Necessitamos de caminho… necessitamos de futuro

Ensino

autor

Jorge Franqueira

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Na sequência do já longo processo de realização de estágios transnacionais que a EPB proporciona aos seus alunos, tive a oportunidade de fazer o acompanhamento dos estágios que estavam a decorrer em Granada, Espanha. Assim, em meados do mês de julho, lá me desloquei a esta histórica e monumental cidade. Esta visita merece, por si só, um parêntesis, para falar um pouco, quer da monumentalidade, quer da verificação que o contacto com estas preciosidades proporcionam e, simultaneamente, nos esmagam com a sua beleza, nos reduzem à nossa pequenez e ajudam a verificar e perspetivar os limites da capacidade humana, que são imensos.

É uma lição de história, mas essencialmente uma lição de vida, que nos é proporcionada pelo cheirar dos diversos odores que exalam pelas ruas do bairro de Albacin e essencialmente pelo contacto (com todos os sentidos em grande turbulência), com o conjunto monumental de Alhambra, enorme “castillo rojo” que coroa o cimo da colina e que aparenta ser a proa de um navio que entra pela cidade.

Houve momentos, durante esta estadia, em que me senti a partilhar a mesa de uma esplanada com o monarca nazarita Muhammad I, Al-Ahmar, e com o rei católico Carlos V, sobre o legado da civilização muçulmana na Península Ibérica e a apropriação e continuidade que lhe foi dada pelos reis católicos. Espero que tenham gostado da cerveja que bebemos juntos! Claro está que o contacto com a história nos pode levar ao exercício de recriação da época e imaginar quanto sacrifício foi necessário para o levantamento deste conjunto, que é hoje uma joia da humanidade. Quanta gente não terá ficado sepultada debaixo destas pedras, sem qualquer lápide ou reconhecimento. Quanta não foi explorada até aos limites.

E rapidamente a viagem pela história nos faz regressar aos dias de hoje e sentir e verificar a forma sub-reptícia e ardilosa, como a exploração é praticada nos dias de hoje, com resultados muito eficazes no controle e manietação da sociedade, que nos tolhe e nos amordaça. Somos constantemente injetados, na tentativa de condicionar a nossa capacidade de pensar, ato supremo da nossa existência.

É inquestionável e incomensurável a evolução que tivemos em termos sociais, políticos, económicos e de respeito pelos direitos humanos, mas já sabemos que está na essência do homem a necessidade de dominar, controlar e de impor as suas ideias ao seu igual, pelo que, é preocupante verificar a forma ardilosa como o “bicharoco” que paira algures sobre as nossas cabeças e que, juntamente com as equipas de instalação do medo que proliferam por aí, nos tentam amordaçar, automatizar e condicionar afastando-nos do contacto com a resolução dos problemas e da nossa realidade próxima.

À laia de exemplo, que alguns poderão considerar irrelevante ou até completamente incorreto ou ridículo, facilmente estamos em contacto com problemas do outro lado do mundo, ou de imediato estamos a falar para a Nova Zelândia ou Amazónia, mas, hoje em dia, deixamos de saber o nome do nosso vizinho e muito menos, qual a sua realidade económica, profissional ou mais importante, se tem algum problema de saúde, em que possamos intervir e ajudar. Pelo que, mais do que nunca, continua a ser necessário o exercício permanente da liberdade individual. Porque somente com esta conquista e neste estádio superior poderemos ser verdadeiramente intervenientes e críticos na sociedade.

Uma das coisas que tem de bom o contacto com a cultura, nas suas diversas vertentes, é o facto de, com facilidade, nos levar a passear por outras paisagens e a discorrer sobre temas que fazem parte do nosso quotidiano e das nossas preocupações.
É difícil de transmitir a satisfação, orgulho e recompensa, que senti no contacto com os responsáveis do gabinete MM Arquitetura, do Hospital de S. Rafael e da empresa Cogesa, Consultores de Gestion.

E este estado de alma surgiu, na sequência dos elogios que foram dados pela prestação dos nossos alunos, em termos de comportamentos e atitudes e essencialmente na sequência da sua preparação técnica e da resposta que, neste capítulo, davam às tarefas que lhes eram apresentadas. Transmitiram, todos eles, que em determinadas alturas pareciam alunos com formação superior.

E com este excelente presente na bagagem, regressei a Braga e com algum espanto (infelizmente já não excessivo), verifiquei que houve algumas brilhantes e oportunas alterações à estruturação curricular dos cursos profissionais. Lançados em 1989, estes cursos continham uma carga horária total de 3.600 horas, das quais se retiravam 3 meses para a realização de estágios, o que significava sensivelmente 420 horas. Em 2004, porém, com a primeira revisão curricular, reduz-se a carga horária para 3.100 horas, com 2.680 horas de formação em ambiente escolar e 420 horas de estágio.

De referir esta redução teve especial incidência na componente técnica, que passou a ter 1.180 horas, área que facilmente se entende como estruturante dos cursos profissionais. Em 2013 existe uma nova correção do plano de estudos, estabelecendo-se que a formação em contexto de trabalho se deve situar entre as 600 e as 840 horas, dando autonomia às escolas nessa opção. Isto é, aumentam o período de estágio dos alunos, reduzem o espaço de formação para 1.100 horas na componente técnica, necessária para se dar continuidade à boa formação que têm evidenciado.

Mais grave é transferirem para as empresas o dever da formação, sem que estas estejam preparadas, sensibilizadas e muito menos apetrechadas para o fazer. Muito menos deverá ser esta a competência das empresas. Temos tido, com as empresas, um trabalho de colaboração muito rico e próximo, e que nos tem permitido aferir o nível e a qualidade de ensino e a sua adequação às necessidades das empresas. Estas medidas parecem-me que são tomadas por quem não conhece a realidade do ensino profissional, das empresas e a realidade social e económica, a necessidade e anseios dos nossos alunos.

Seria bom, por isso, que existisse uma autonomia real das escolas e não uma autonomia panfletária, em vez de nos andarem constantemente a trilhar caminhos que não escolhemos, nos quais somos obrigados a caminhar e que sabemos de antemão que não são corretos nem adequados. Gostava de continuar a ouvir os elogios em relação à qualidade que os nossos alunos têm evidenciado, mas, “não se pode ter sol na eira e chuva no nabal”, pelo que os cortes efetuados nas horas de formação não são bom augúrio.

A grande autoestrada da evolução e do progresso assenta na educação. Esta opção, este investimento, este desígnio até pode ser feito por estradas secundárias ou caminhos municipais, que até podem ser mais agradáveis, coloridos, multifacetados e mais adaptados às necessidades e realidade das pessoas e do país, pelo que antes de mais sentimos necessidade de, pelo menos, sentir a presença da…bússola.
Falta-nos o caminho.
Falta-nos futuro…com consistência e segurança…sem medos.

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