Escola Superior Agrária de Ponte de Lima recupera variedades regionais de macieiras

Ensino

autor

Raúl Rodrigues

contactarnum. de artigos 3

Ese um dia perguntassem ao estimado leitor sobre o significado de Porta-da-Loja, Pipo-de-Basto, Três-ao-Prato ou Camoesa-de-Coura? Provavelmente os mais velhos ou as gentes do campo associariam a variedades regionais de macieira. Mas se lhe perguntassem se já ouviu falar em Abana-Carabunhos, Água-azeda, Camoesa-de-pedra, Camoesa-do-Biribau, Focinho-de-Burro, Chuínha, Corticeira, Malápa, Martim-Gil, Moleirinha, Perna-de-Pisco, Sangarinha, Sangue-de-boi, Verdeal ou Vitória, provavelmente teria mais dificuldade em fazer tal associação.

Tais variedades regionais, desconhecidas do público em geral e algumas delas, até há bem pouco tempo, da comunidade científica, fazem parte da coleção instalada na Escola Superior Agrária de Ponte de Lima do Instituto Politécnico de Viana do Castelo, que conta presentemente com 60 variedades regionais de macieiras, recolhidas nos últimos anos em missões realizadas pela região.
A razão deste projeto, tem a ver com o facto dos recursos genéticos vegetais serem considerados um património da humanidade de valor incalculável e a sua perda é um processo irreversível, com consequências principalmente na segurança alimentar mundial.

Por sua vez, a tradição na produção de maçãs no Minho, tem origens que se perdem no tempo, cujo testemunho está bem patente na grande diversidade de variedades autóctones existentes na região e que foram preservadas de forma persistente pelos agricultores.

No entanto, a cultura da macieira tem vindo a decrescer e com tendência para o desaparecimento, restando apenas alguns pequenos pomares de variedades comerciais e, em menor escala de porta-da-loja, para além de exemplares de outras variedades regionais, que resistiram ao evoluir dos tempos, pois os agricultores apenas plantam ou abandonam culturas, de acordo com o rendimento que delas podem usufruir.

A diversidade frutícola da região do Minho constitui desta forma, uma fonte de recursos com imenso potencial para o desenvolvimento sustentável da região, em alternativa ao modelo de agricultura produtivista implementado a partir da II Guerra Mundial, modelo que se revelou insustentável, altamente penalizador para o ambiente e limitador do acesso aos mercados por parte dos pequenos agricultores.

O abandono das variedades regionais, em detrimento de variedades estrangeiras melhoradas, começou a sentir-se de forma notável, a partir de meados do século XX, sendo estas mais produtivas e consequentemente mais rentáveis. No entanto, este abandono deve-se também e em parte, ao conhecimento incipiente das fruteiras regionais e das escassas estratégias económicas relacionadas com esse uso.

Promover uma fruticultura sustentável assente em variedades autóctones e perfeitamente adaptadas à região, é uma das principais saídas para a conservação da biodiversidade regional e com potencial para o desenvolvimento económico. Para tal, não podemos esquecer que os agricultores detêm um amplo conhecimento sobre os recursos naturais locais. A recuperação deste conhecimento ancestral como forma de direcionar as atividades de exploração de modo sustentável, também deve ser priorizado.

A Escola Superior Agrária de Ponte de Lima tem vindo a assumir o papel de guardiã do património pomológico, ao criar uma coleção de fruteiras autóctones, localizada no campo experimental da Quinta do Convento, em Refóios do Lima, algumas com potencial importância económica para a região, cultivadas pelas populações rurais e que podem ser exploradas economicamente, seja para consumo em fresco, fabrico de sidra, confeitaria, compotas, desidratação, etc.

A coleção, orientada pelo professor e investigador Raúl Rodrigues, tem sido enriquecida com variedades conseguidas durante expedições recolha de material de propagação, permitindo o desenvolvimento de linhas de investigação, como a caracterização pomológica através de parâmetros morfológicos, fenológicos e genético-moleculares, a aptidão para consumo em fresco, fermentação e transformação, composição mineral, valor alimentar, etc.

Futuramente, a Escola Superior Agrária pretende alargar esta coleção, com recurso a fundos comunitários, a outras espécies de fruteiras, como as laranjas de Amares e do Ermelo e as pereiras regionais, com especial ênfase para os codornos (=pereira de codorno), outrora amplamente difundidas por terras de Basto.
A Escola Superior Agrária tem as portas abertas ao exterior, visando enriquecimento desta coleção, bem como a sua difusão por escolas, associações de desenvolvimento local e autarquias da região.

vote este artigo

 

Comente este artigo

Faça login ou registe-se gratuitamente para poder comentar este artigo.

comentários

Não existem comentários para este artigo.

Últimos artigos desta categoria - Ensino

Tempo

Classificados

Edição Impressa (CM)

Edição Impressa (MF)

Newsletter

subscrição de newsletter

mapa do site

2008 © todos os direitos reservados ARCADA NOVA - comunicação, marketing e publicidade, S.A. | concept by: Cápsula - soluções multimédia