Desenvolvimento Tecnológico e Inovação

Ideias

autor

Gilberto Santos

contactarnum. de artigos 4

“Temos de fazer inovação”, dizem-nos em qualquer lado. Muitos políticos gostam de utilizar este termo no seu discurso. Afinal, o que é a inovação? Podemos designar inovação como algo totalmente novo, ou uma melhoria de algo existente que tem êxito no mercado, de acordo com a opinião manifestada por Josef Schumpeter (1939). Assim, Inovação Tecnológica é o resultado do Desenvolvimento Tecnológico que dá lugar a um novo produto, ao estabelecimento de um novo processo ou serviço, ou à melhoria substancial dos existentes. De acordo com Enrique Mandado, (Prof. Catedrático da Universidade de Vigo, 2012) se se trata de um produto, a Inovação Tecnológica produz-se no instante da sua comercialização. Se for um processo produtivo, acontece no instante da sua primeira aplicação industrial. Ainda segundo Enrique Mandado, a Inovação não é uma atividade, enquanto a Investigação Científica e o Desenvolvimento Tecnológico o são. Por isso, quando existe êxito no mercado e se alcança a Inovação, é quando se consegue obter o retorno do investimento realizado em Investigação Científica (se foi necessário fazê-la) e em Desenvolvimento Tecnológico (sempre imprescindível). A Inovação não se faz, diremos que se consegue. E não se pode conseguir sem se fazer Desenvolvimento Tecnológico, que muitas vezes se combina com Investigação Científica. Portanto, podemos dizer que a Inovação, não sendo uma atividade, é o resultado do Desenvolvimento Tecnológico bem feito, que se traduz em produtos com êxito no mercado, porque muitas pessoas os adquirem. Assim, a Inovação em processos e serviços adquire o seu verdadeiro valor se se consegue com produtos próprios e não com produtos alheios, como sucede de forma generalizada em Portugal. Para superar a crise profunda em que Portugal se encontra é necessário fazer Desenvolvimento Tecnológico, porque sem isso é impossível haver Inovação, por muita Ciência que se faça.
No que se refere ao investimento em Investigação e Desenvolvimento (I&D) em Portugal, segundo dados publicados pelo Prof. Carlos Fiolhais (2014), este cresceu de 0,4% do PIB, em 1986, ano da entrada de Portugal na União Europeia (UE), para 1,5% em 2012. Dois indicadores indesmentíveis sobre o resultado desse investimento são o número anual de novos doutorados formados e o número de publicações científicas. Em 1996 obtiveram o diploma de Doutor 216 pessoas, mas em 2012 já foram 2209. O número de publicações em revistas indexadas, que era 6,4 por cem mil habitantes, passou para 156,6 por cem mil habitantes em 2012. O investimento subiu quatro vezes, o número de novos doutores subiu dez vezes e o número de publicações subiu cerca de 25 vezes. No entanto, Portugal continua a ter problemas económicos, porque o investimento em I&D não se traduziu em criação de riqueza. Ou seja, fez-se investimento em Investigação Científica (I) melhorando a Ciência, mas esse investimento não se traduziu na melhoria do Desenvolvimento Tecnológico (D) e, por conseguinte, no desenvolvimento de novos produtos e na consequente Inovação. Este é o principal problema com que Portugal se debate há muitos anos e que urge resolver. Falta-nos, portanto, uma Tecnologia oriunda, por vezes, da Ciência, para que uma grande parte da investigação feita pelos nossos cientistas e engenheiros se transforme em Valor Acrescentado para a Economia vender. Um problema antigo, que urge resolver.
Nos países da União Europeia, num hipotético diálogo Norte-Sul, dizem os países do Norte aos do Sul: “o que tendes de fazer é Inovação”. Como a Inovação não é uma atividade, o que realmente lhes estão a dizer é: “tendes de melhorar os vossos processos e serviços, mas com os nossos produtos”. Como a Inovação em processos e serviços com os produtos de outros acrescenta pouco valor e, por conseguinte, não cria riqueza suficiente, o que lhes estão a dizer, na realidade é: “tu vais ter um PIB menor que o nosso e, portanto, tens de fazer austeridade”. E quando pelo caminho se cruzam com os bons engenheiros dos países do Sul, o que os países do Norte lhes dizem é: “se queres trabalhar no Desenvolvimento Tecnológico tens de vir para a empresa-mãe que está nos países do Norte”. E assim ficam com bons engenheiros formados nos países do Sul, para criar mais riqueza nos países do Norte, sem que os países do Norte, onde se localiza a empresa-mãe, tivessem feito qualquer investimento na sua formação. Países do Norte a recrutar engenheiros portugueses em 2012 eram vários, dos quais destacamos a Alemanha, a Noruega, a Bélgica, a Escócia, a Finlândia, o Reino Unido, de entre outros (Visão, 21 de junho 2012, p. 28).

Para aclarar melhor as ideias, podemos referir um caso real. Há um departamento de uma Universidade (ibérica), de um país do sul, que desenvolveu uma ferramenta informática para melhorar significativamente o desempenho de alguns robôs de uma empresa dum país do Norte, com fundos de um projeto da União Europeia. Este projeto pode ser muito interessante para um departamento de uma Universidade de um país do Sul e servir para fazer algumas publicações. No entanto, não cria riqueza no país do Sul, onde esse departamento universitário se localiza. Mas criou riqueza no país do Norte onde se localiza a empresa-mãe, que solicitou a ferramenta informática e a vai incorporar nos seus produtos que irá depois comercializar.
Portugal tem de distinguir a Política Científica da Política Tecnológica, como fazem os países do Norte. Para que o esforço em I&D se transforme em valor acrescentado, temos de impulsionar tanto ou mais o Desenvolvimento Tecnológico (D) do que a Investigação Cientifica (I). Os cientistas devem valorizar-se pelas suas publicações. Mas se Portugal e outros países do Sul continuarem a valorizar mais as publicações dos engenheiros que trabalham na Universidade/Politécnico do que os protótipos que desenvolvem, bem como a sua contribuição para a melhoria dos produtos que são colocados no mercado, então continuarão a ser países subdesenvolvidos tecnologicamente, com todas as consequências que isso acarreta. O austericídio, bem como a servidão fiscal, manter-se-ão.

vote este artigo

 

Comente este artigo

Faça login ou registe-se gratuitamente para poder comentar este artigo.

comentários

Não existem comentários para este artigo.

Últimos artigos desta categoria - Ideias

Tempo

Classificados

Edição Impressa (CM)

Edição Impressa (MF)

Newsletter

subscrição de newsletter

mapa do site

2008 © todos os direitos reservados ARCADA NOVA - comunicação, marketing e publicidade, S.A. | concept by: Cápsula - soluções multimédia