Apenas pegadas

Ensino

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Paulo Leitão

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Aquela tarde de verão corria quieta como se ousasse parar os ponteiros do tempo. No Guadiana, o azul aveludado do sumptuoso tapete de água tornava-o teimoso e, talvez por preguiça ou sonolência, insistia em não descer para o mar.
A brisa moldava o calor, mas não perturbava a luz que o sol trazia, no avermelhado tom de quem se despedia até à alvorada da manhã seguinte.

Sentado na margem direita, ainda em Portugal, apesar da rede celular dizer o contrário, vi dois ou três pescadores, seguramente furtivos, que apenas acordavam com o raro trepidar do anzol.
Ao focar a outra margem, percebi que tudo parecia mais ou menos igual. Idêntica vegetação, casas semelhantes e a mesma quietude de quem por lá passava. Aparentemente, parecia que uma margem refletia o outra.

Mas talvez as gaivotas, no seu planar altivo e controlador, soubessem que aquele curso de água separava realidades diversas e absolutamente antagónicas.
Por cá, cristalizamos os provérbios. Vamos andando, com a cabeça entre as orelhas. Nunca pior, dizem alguns, enquanto outros, os especialistas em «xico espertismo», vão conduzindo o rebanho e cortando a lã que os enriquece.

Por cã, acreditamos que talvez um dia D. Sebastião regresse da batalha. Por lá, batalha-se a cada dia. Por cá, acredita-se na justiça. Por lá, faz-se justiça. Por cá há menos desempregados, mas assim ficam muito mais tempo do que por lá.
Eles visitam-nos a toda hora, mas pouco sabem sobre nós, porque não precisam de saber. Nós já os visitamos mais, mas sabemos tudo sobre eles, porque sempre precisamos de saber. Eles ignoram a nossa língua. Nós incluímos a deles no sistema de ensino. Eles não nos entendem. Nós percebemo-los quase na perfeição.

Por lá, o orgulho é maior do que a razão. Por cá, raramente há razão. Por lá traduz-se, por cá legenda-se. Por lá, matam-se os touros. Por cá… mata-se a esperança.
Mas se as diferenças entre os estados ibéricos são muito maiores do que deveriam ser, abissais são aquelas que nos vão separando da generalidade dos europeus.
E se não fosse assim, como se justificaria este incrível êxodo que leva portugueses para qualquer lado do mundo, desde que seja para longe daqui?
Além disso, não será perturbador o facto de ser o pastel de nata, o café e o céu azul, aquilo que mais saudade traz a quem decidiu sair?

Talvez em abril de 74 tenham existido cravos a mais, revolução a menos. Perdeu-se a oportunidade porque não se fez verdadeiramente política. Houve, somente, uma mera transição de poderes.
Instituiu-se uma espécie de liberdade condicionada pela ação de partidos que nunca discutiram ideias, por preferirem escolher pessoas, distribuir cargos e gerir influências.
Agora, e daqueles que partem, ficam apenas pegadas. Aquelas que o tempo certamente apagará.
Dificilmente regressarão porque encontraram a democracia que nunca conheceram. Aquela que revela oportunidades, que recompensa, que não ilude.

Vamos perdendo os mais audazes e empreendedores, aqueles que cientificamente melhor se prepararam e que mostram coragem para lutar e reverter. Perdemos «massa crítica», fertilidade e vigor. Ganhamos nada, mas perdemos muito.
Oxalá não estejamos a construir uma nova linha genética lusitana ainda mais pobre, mais conformista e cognitivamente mais débil, até porque aqueles que vindos de fora nos procuram para viver, nos trazem mais sobressaltos e inquietações do que diversidade e riqueza cultural.
Não creio num promissor futuro para o país, porque estará a tardar uma necessária revolução de mentalidades.

Diz-se que somos um povo de «brandos costumes», mas não sabendo o que isso quererá dizer, não me parece que seja tão bom quanto isso, até porque também não conheço o valor do «quanto isso».

Afinal, se olharmos para o nosso «glorioso» passado lá encontramos, entre outras passagens menos próprias, a submissão ao domínio Filipino, a fuga da família real às invasões francesas ou a demissão do Marquês de Pombal, depois do fantástico trabalho de recuperação que sucedeu ao terramoto de 1755, pelo simples facto de ter retirado privilégios às classes sociais dominantes.
Tal como reza a história, foi quase sempre a partir da coragem e sentido empreendedor do nosso povo, que se construíram as fases mais lúcidas, brilhantes e criativas do nosso desenvolvimento enquanto nação.

Não nos resta, por isso, outra alternativa que não seja a de cultivar o empreendedorismo, a cultura cívica e o sentido de responsabilidade social que nos ajude a crescer individual e coletivamente.
É esse o desígnio da EPB enquanto escola. Num historial de um quarto de século, nunca se desviou do desejo de inovar, incorporando competência.

Devemos lançar sementes que nos permitam colher frutos com os quais possamos caminhar e desbravar caminhos que se situem aqui ou nos conduzam a qualquer lado.
Locais onde os cidadãos percebam que a dedicação e o esforço deverão gerar qualidade de vida. Onde respeitem, mas sejam respeitados. Contribuam, mas possam beneficiar. Construam, mas utilizem os edifícios. Sonhem, mas concretizem os ideais.

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