O primado ou a “ditadura” do aluno?

Ensino

autor

Paulo Aires

contactarnum. de artigos 1

Já lá vai mais de uma década desde que iniciei as minhas funções como docente na EPB... Muito tempo, mas ainda não o suficiente para fazer um balanço, esse guardo-o para o futuro. Contudo, não posso deixar de (avivando a memória) lembrar-me da primeira aula no “Pé Alado”, junto ao agora tristemente decrépito e abandonado Teatro de S. Geraldo.

Vinte alunos de olhos postos em mim, numa sala com, passe o exagero, pouco mais de 10 metros quadrados... Espaço exíguo e pouco digno para a função da docência... Hoje, volvidos vários anos, a EPB cresceu em tudo. Modernas instalações, uma panóplia de cursos, e formação, e sobretudo tornou-se claramente uma referência como escola profissional, não só na nobre região onde se situa, mas também por todo o país.

Para quem convive diariamente com a justiça, e seus sinuosos e tortuosos caminhos, a sua lentidão exasperante e sobretudo com a sua linguagem hermética e formalista, dar aulas é para mim, ainda hoje, uma lufada de ar fresco.
Mas (há sempre um mas) não foi só a Escola que mudou, a Sociedade de hoje é bem diferente da de uma década atrás. E mudou radicalmente a forma como aquela “vê” a Escola. A Escola... essa coisa tão concreta e definida que, no fundo, se corporiza num elemento: O Professor.

Sim. A Escola é o Professor e vice-versa, ou pelo menos, era. A Escola que, nas palavras sábias de José Martí, “é uma forja de espíritos”. Durante décadas, mesmo séculos, essa “forja” de espíritos assentava num pilar basilar... O Professor! Já Pitágoras dizia “eduquem as crianças e não será necessário castigar os adultos”.

Essa nobre tarefa de educar (ensinar) cabe ao professor. Não pretendo dizer que a Escola não exista para o Aluno, pois este é o tal espírito que o Professor deve forjar... Que ninguém leia estas simples linhas duvide por um momento que não sei que o Professor existe para o Aluno! No entanto, esta máxima evidente tem que ser escalpelizada para ser bem compreendida! Muito bem dizia Einstein: “O ensino deve ser de modo a fazer sentir aos alunos que aquilo que se lhes ensina é uma dádiva preciosa e não uma amarga obrigação”.

Eis-nos chegados ao cerne desta minha curta meditação sobre a trilogia Escola/Aluno/Professor.
Hoje, vivemos uma situação invulgar, o pilar da Escola, já não é o Professor (o mestre... na antiga Grécia)...mas sim o Aluno! É esta a nefasta realidade do nosso ensino. Não fiquem em dúvida os que (pacientemente) me leem, sim, eu defendo que o pilar da Escola só pode, e deve, ser um: O Professor! Coisa diferente é o ensino... e aí sim o pilar, a trave mestra do Ensino deverá ser sempre o Aluno!

A subversão desta hierarquia (se assim a podemos apelidar) é, a meu ver, a génese de todos os “males”... e do estado a que chegaram as escolas e o ensino. Hoje, a escola e o ensino estão formatados apenas com um denominador: o Aluno. O Professor, esse, é agora apenas uma pequena peça da engrenagem, que não podendo ser descartada, está ali arrumada a um canto, obscuro, subalterno e triste.

Temos assistido ao logo dos últimos anos, a este “assassinato” do Professor, aplaudido pelas gentes (não todas..., mas quase), e de pilar, respeitado e fulcral no ensino, aquele foi-se transformando em figura quase decorativa, que serve apenas um fim: o aluno. Hoje, os professores servem os alunos, e não o ensino.
Vivemos no primado do Aluno! Vivemos pois, não tenham qualquer dúvida.

Mas a questão é mais grave do que parece... pois entendo que hoje o ensino e a escola vivem não sob o primado do aluno, mas sob a sua “ditadura”!
De facto, todo o ensino vive em função do aluno e para o aluno, a escola serve o aluno. O aluno parece ter todos os direitos, como se uma divindade se tratasse, e o professor, não pode mais do que cumprir o seu tributo à divindade, ensina e não discute... sob pena de ser alvo de um qualquer castigo divino.

O Professor outrora uma figura “ilustre”, respeitada e central, é hoje um mero veículo de transmissão de conhecimentos. O Aluno tudo define: se falta, tem problemas; se não estuda nem tem interesse em aprender vive numa família destruturada; se maltrata os colegas, os professores ou os funcionários, precisa de apoio psicológico. O Professor é a personagem sinistra deste filme, o vilão, que não entende as “necessidades” e “problemas” do Aluno.

Esta ditadura do Aluno, aportou consequências graves para o ensino, e Portugal vai pagar muito caro esta subversão da ordem natural das coisas... não, não se iludam, vai pagar um preço altíssimo. Os nossos jovens, os futuros médicos, juízes, engenheiros, ... alguns governantes, serão de uma incultura e iliteracia gritantes. A “lei do facilitismo” que se instalou na escola é o que gera!

Ser Professor nos dias de hoje, não é para quem pode, é para quem tem que o ser!
Somos os “oprimidos”, aqueles que podem ver-se a todo o momento desterrados para um qualquer Tarrafal... de má memória, ou na melhor da hipóteses, para um qualquer Júlio de Matos.
Haverá alguma luz no fundo do túnel? Sim. Certamente. O caminho é só um, como ensina Descartes no seu fabuloso Discurso do Método, seguir em frente e não andar em círculos, e isso, sinteticamente, só se conseguirá devolvendo a Escola ao Professor!

vote este artigo

 

Comente este artigo

Faça login ou registe-se gratuitamente para poder comentar este artigo.

comentários

Não existem comentários para este artigo.

Últimos artigos desta categoria - Ensino

Tempo

Classificados

Edição Impressa (CM)

Edição Impressa (MF)

Newsletter

subscrição de newsletter

mapa do site

2008 © todos os direitos reservados ARCADA NOVA - comunicação, marketing e publicidade, S.A. | concept by: Cápsula - soluções multimédia