Carta Aberta a Angela Merkel

Ideias

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Gilberto Santos

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Estimada Sra. Angela Merkel
Recentemente, disse a mui digna Chancelar Alemã, que “em Portugal há licenciados a mais”. Como português, e na qualidade de Professor de engenharia do Ensino Superior Público, gostaria de lhe dizer que são um ledo engano as suas afirmações. E passo a justificar.
Portugal não tem licenciados a mais. Admito que haja algumas áreas saturadas. Mas gostaria de lhe dizer, que as empresas alemãs que tem representação em Portugal são muito importantes para nós, porque promovem o emprego. Mas, na realidade, vem para Portugal produzir aquilo que os alemães conceberam na Alemanha e na cadeia de valor, acrescentam pouco em Portugal. Daí os salários baixos. O valor que acrescentam é na Alemanha onde apostam no conhecimento, desenvolvem a relação universidade-indústria e transformam ideias em produtos. Portugal faz Inovação em processos de produção e serviços, nos produtos que os alemães concebem e isso como calcula, traz pouco valor acrescentado à economia portuguesa. Assim, não temos licenciados a mais, temos é falta de empregos qualificados, ou seja, daqueles empregos que promovem a conceção/projeto de novos produtos que promovam a inovação, tal como se faz na Alemanha. Por isso, somos obrigados a fazer austeridade e a viver com um PIB inferior ao alemão.
Gostaria ainda de lhe dizer que admiro a organização das empresas alemãs e como português sinto uma espécie de inveja positiva pela vossa organização. No meu país, nas nossas Universidades, ensina-se muita teoria aos nossos alunos, mas há pouco interesse pelos aspetos práticos e pela valorização económica do conhecimento. Assim, a maior parte da investigação que se faz nas nossas universidades, serve apenas para produzir “papers”, que apesar de serem importantes e de incrementarem o conhecimento, não criam valor na nossa economia. Também os nossos empresários não os leem, pois 80% têm habilitações até ao 9º ano de escolaridade e não têm tempo para tal. São autênticos heróis, pois licenciaram-se na “Universidade da Vida” e realmente não têm a licenciatura académica a que a Sra. Merkel se refere. Mas são ainda a espinha dorsal do meu país.
Como sabe, na Alemanha, uma grande parte dos diretores de empresa são doutorados em engenharia e em direito, e por isso, quando as empresas e as Universidades alemãs fazem investigação de forma articulada, transformam esse conhecimento em Desenvolvimento Tecnológico e na consequente Inovação, criando novos produtos, que depois nos vendem, valorizando economicamente o vosso conhecimento. Para o provar, bastará sentar-me na berma da estrada e esperar que os Mercedes, os BMW, os Porches e os Audis passam.
Sabe Sra. Merkel, segundo o relatório do Fórum Económico Mundial, Portugal é o 2º país com as melhores estradas do planeta… para viajar com os vossos automóveis. Ou então bastará ir a uma fábrica e verificar que uma grande parte das máquinas que os empresários portugueses compram são alemãs. Poderei ainda ir a um hospital ou a um qualquer laboratório, público ou privado e lá estão os equipamentos alemães. Ou então sentar-me em Lisboa à beira Tejo e esperar que o Tridente e o seu irmão gémeo venham à tona. Sim, esses mesmos que, para os adquirirmos nos fizeram o enorme favor de nos emprestaram dinheiro, a nós e aos gregos que adquiram cinco. É assim que se cria riqueza.
E que fazem as vossas empresas ao nossos melhores jovens cientistas e engenheiros? “Pescam-nos à linha” e oferecem-lhes condições excecionais para trabalhar na Alemanha, sem gastarem um cêntimo na sua formação. Com a vossa organização, os nossos talentos juntos com os vossos, criam ainda mais riqueza de forma sustentada e não precisam da troika. E os nossos governantes até batem palmas, pois são menos esses que constam nas estatísticas do desemprego. Incrível não acha? Ainda recentemente, o Prof. Enrique Mandado, Catedrático da Universidade de Vigo comentava comigo “Quién no ha visto la genial película de Pedro Lazaga de 1971 “Vente a Alemania Pepe” “, pois também “pescam” talentos em Espanha há muitos e longos anos.
Sabe, estive a consultar o relatório do Fórum Económico Mundial de 2014 e, em disponibilidade de cientistas e engenheiros para o mercado de trabalho, Portugal ocupa o 8º lugar num ranking de 144 países atrás da Grécia em 4ª, mas à frente da Alemanha que está em 18º lugar. De certeza que ocupamos os primeiros lugares no ranking mundial em desperdício de talento, em burocracias e outras coisas que tais. Muitas das vezes estudamos uma coisa e fazemos outra, mas temos um título académico, ainda que seja para caixa de supermercado.
Os alemães são mais eficazes e incisivos nesse e noutros aspetos. Já reparou que o Michael Shumacher foi campeão do mundo de fórmula 1, sete vezes e o nosso Tiago Monteiro não se aguentou na fórmula 1 e faz competição no Campeonato Mundial de Carros de Turismo? Sabe porquê? Porque o Michael embora não seja licenciado, tem um curso de mecânico de automóveis que lhe deu conhecimentos preciosos que utilizou de forma autónoma, enquanto piloto. O nosso Tiago tem um curso de Gestão de Hotéis, e os conhecimentos adquiridos nos seus estudos não são necessários para ser condutor de fórmula 1. Assim, quando tinha problemas, tinha de solicitar conselhos à box. O Michael, a quem desejo rápidas melhoras, tinha conhecimentos para, muitas vezes, resolver os problemas sozinho. Uma evidência do desencontro estudo/emprego e do consequente desperdício português.
Sabe Sra Merkel, quando no passado Verão, no jogo do Mundial de Futebol no Brasil perdemos com a Alemanha por 4-0, apesar de termos o Ronaldo, que juntamente com o nosso sol e o céu azul, que os alemães têm poucas vezes no ano, são o nosso orgulho, vi um país triste. Mas vejo pouco gente preocupada quando no campeonato dos prémios nobel, estamos a perder com a Alemanha por 102-2. Essa é a nossa maior pobreza e pequenez. E mesmo assim cortamos na educação. Isso deve-se muito a políticos subservientes, que a Sra Merkel muito bem conhece, pois apesar de serem eleitos pelo povo português, parece que defendem mais os vossos direitos. Não se importaram de irem além da troika e de massacrarem o povo que os elegeu com mais e mais austeridade, levando cada vez mais famílias a procurar a sopa solidária, enquanto se fazem transportar em luxuosos automóveis que vocês produzem na Alemanha. Mas isto está a mudar…. Já mudamos, para muito melhor, na indústria do calçado. Outros setores se seguirão. É necessário agir a ter esperança.

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