O uso do verbo contemplar

Ensino

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Marlene Ferraz

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O mundo continua a ser um chão muito disparatado. Ainda tantas bocas a avisar fome, também crianças a explodirem o corpo por obediência aos servidores de deus e bichos presos a um fio metálico sem o mais minúsculo acto de afeição. Apontamentos abreviados a aclarar os descabimentos esperados e até repetidos no processamento da vida seriam suficientes para muitas cabeças desejarem nunca ter calcado o planeta redondo.

Mas estamos avivados neste ponto geográfico (desconforme), no pico gelado da maior montanha ou numa curva de areia fervente. Homens. Muito aparentados. Tão irmanados. E contraditórios, também. Ficamos turvados nas esferas oculares pela vontade de ser grande ou senhorio ou obedecido: em horas de luta, por um senhor inconveniente se ter metido na fileira do supermercado ou para configurar as almas a um deus exclusivo, nem se repara nos casulos de seda dos bichos asados ou no riso alumiado duma criança tão clara.

E a aprender muito com os maiores. Cuidadosos. Inventivos. Mas, repito: muito contraditórios. Até nos comovemos a ver películas cinematográficas sobre desavenças consertadas mas, é quase certo, todos teremos desafeições pelas quais nos recusamos a dar um dianteiro sinal de reparação. Mesmo sabedores que somos encorpaduras temporárias e que, provavelmente, nada será lembrado depois das pálpebras fechadas.
A pergunta levanta-se sempre: como podemos pisar as poeiras da Lua e continuar a testemunhar a fome e a violência? Um. Dez. Cem.

Precisaremos de quantos anos? Ou séculos. Também firmeza. E desapego ao lucro numerário. Somos, mecanicamente, viciados em lucro. Até em lucro emocional. Só a habilidade de fechar, voluntariamente, a membrana da consciência por um braçado de tempo pode acautelar o batimento minimamente acertado da máquina cardial. Ou seria muito provável tocar com os dedos a matéria empírica da loucura. É incomodativo acordar num estiramento confortável entre lençóis delicados com o saber preciso dos atentados terroristas, das mortes por crime passional e dos animais usados no circo ou nos testes de laboratório.

E um inventário infinito de tantos outros depoimentos. A cada minuto. Em cada palmo de terra. Pela caixa televisiva, vemos, no sofá estofado com almofadas aveludadas, os rapazes estrangeiros com armas e raivas, os desastres naturais a engolirem casas e muitos bichos a serem acabados pelos procedimentos gananciosos dos homens. As hastes dos veados. A pele dos crocodilos. A candidez das crianças. Oh. Depois, com a manta de lã a cobrir os pés arrefecidos, um punhado de biscoitos amendoados e um chá amornado de limão: assim se comparece a uma guerra, também.

O mesmo nas paredes vizinhas: o corte da água por falta de pagamento, a doença maior dum achegado ou o desemprego do marido. E do filho. E da filha mais nova. E do primo que, entretanto, debandou para uma cidade doutra língua. Com o lugar mais privado completo de saudade (mas a urgência a correr nas veias).

Usamos tantas horas do nosso intervalo temporal para receber cinco dedos de papel numerado (mas apontado como muito valioso e até principal) que rapidamente devolvemos nas contas da luz artificial (sempre tão subida) e do líquido transparente. Reparo muito nos bichos da floresta e do rio, naturalmente virados para as regras fundamentais de sono suficiente, comida razoável e contemplação desmedida. Se não forem incomodados pelas mãos curiosas (e amaldiçoadas, também) dos homens, as lagartixas e os estorninhos vivem mais o mundo natural que os proclamados possuidores de todos os lugares e criaturas: nós, portanto.

Mas não é assim tão simples viver como os admiráveis bichos, digo apenas para mim. Particularmente depois de entendermos que mais de metade dos habitadores do chão planetário vive em perigo ou miséria. Pausa.
Comecemos hoje, para uma convivência generosa entre homens e homens, homens e bichos e bestas e cada pedra atemporal que observa com o silêncio dos contempladores.

E, depois das unhas sujas por tanta dedicação a mudar o mundo privado (pelo menos), o desprendimento inesperadamente poético (e quase egoístico) de, por raros segundos, cortarmos o fio que nos une aos males do universo para deslumbrar, com o abrandamento imprescindível, os movimentos de voadura duma provisória (mas tão inteira) libelinha.
Quando voltarmos ao compartimento de retiro, desapertam-se os sapatos e alumia-se a máquina televisiva ou o cabo de ligação. E começa tudo de novo. Maldita consciência. E o bálsamo (impossível) da escuridão.

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