Semana da Cáritas: Injustiça Social na vacinação

Voz à Saúde

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Vânia Mesquita Machado

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Esta é a semana da Cáritas, sob a égide ‘Num só coração uma só família humana’. No site da Cáritas, o Presidente apela “a que os cidadãos se sintam, por um lado, parte do problema e, por outro, comprometidos na procura de soluções que façam frente às verdadeiras causas da pobreza em Portugal”.

Assisti à entrevista ao Dr. Eugénio Fonseca a 1 de março na RTP, referindo existirem cerca de 3 milhões de desempregados; >900.000 sem subsídio. Famílias sem meios económicos para alimentação. Até aqui, todos temos consciência de que é a nossa realidade…
… E que as nossas crianças em breve irão pedir pão na rua!

Como Pediatra, com 3 filhos, cidadã e ativista social principalmente quando se abordam temas que envolvem a miséria infantil, não consigo ficar indiferente ao apelo. Este é o meu gesto de solidariedade e corresponsabilidade. Falar sobre a injustiça na distribuição vacinal entre os nossos meninos. A vacina antipneumocócica, cada dose à volta dos 70 euros, o ideal 4 doses, não é comparticipada!

Na semana anterior, o Dr. Leal da Costa, em entrevista à RTP, tocou levemente no tema, como se fosse apenas mais um problema financeiro... “Estamos a negociar com os laboratórios para uma descida do preço...” No comment.
A vacina é gratuita para meninos com doenças crónicas.

E os saudáveis? Até aos 12 meses, os bebés que frequentam creches (embora não apenas esses, porque os adultos saudáveis podem ser portadores sem estarem doentes) estão à mercê dessa bactéria, o pneumococo, que pode causar apenas umas otites, mas que é uma das etiologias mais prevalentes de pneumonias e meningites com sequelas graves... por vezes letais... Os bebés até ao ano de vida têm um sistema imunitário fisiologicamente imaturo; até aos 2 anos, adquirem progressivamente mais defesas contra os micróbios.

É justo algumas autarquias darem aos bebés dos seus munícipes a vacina gratuitamente? Pode não ser da sua competência essa decisão, mas não é essa a questão na mesa.
No SAMS - Norte, onde sou Pediatra, o corpo clínico entendeu dar cobertura aos seus associados, com comparticipação a 100%, a certas vacinas que não se incluem no PNV, mas que são fundamentais para alargar a cobertura dos seus associados. Esta é uma delas.
Mantendo a linha de pensamento, existe portanto uma absurda desigualdade na distribuição desta vacina aos bebés portugueses.
Esses outros bebés, não fazem também parte de uma só família humana?
O Carnaval já passou. Isto é um tema muito sério.

Não pertenço à comissão de vacinas da Sociedade de Pediatria, mas esta é a opinião unânime partilhada entre colegas.
A Sociedade Portuguesa de Pediatria há muito que insiste na urgência da inclusão da vacina no PNV. Insisto: falamos de doenças graves, frequentes, para as quais há vários anos as vacinas para os serotipos disponíveis são incluídas no PNV de muitos países europeus. Em 2010 esteve para ser incluída no nosso PNV.

Mas veio o papão da crise... Os mais vulneráveis penalizados; as crianças. Não tenho conflitos de interesses: o laboratório que produz a vacina não sabe o que estou a escrever. Não divulgo o nome comercial. Não tenho qualquer relação com a farmacêutica envolvida na sua produção. Agora surge uma nova vacina contra um tipo de meningite muito mais raro... Esta ronda quase 100 euros por dose x 4 até 12 meses...

Torna-se incomportável... Já vi olhos fundos de crianças com fome.
Já ouvi em disco riscado a frase:
- Drª é preciso dar a vacina nós damos! Fazemos tudo pelo nosso bebé...
Mas faz doer a alma, saber a ginástica orçamental exercida pelo pais. Os pais precisam de saber a realidade.
Pelo bem do nosso maior legado lusitano: a geração futura...

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