Duas memórias que nos motivam

Ideias

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José Jorge Letria

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O livro de memórias de Iva Delgado sobre a sua relação com o General Humberto Delgado, seu pai, publicado na data em que se assinalou a passagem do 50.º aniversário do seu assassinato e da sua secretária por uma brigada da PIDE, em Espanha, mesmo junto à fronteira com Portugal, constitui mais um importante contributo da historiadora e combatente cívica para que permaneça viva a memória de quem tanto lutou e sofreu no combate pelo triunfo da liberdade e da democracia em Portugal.

A leitura do livro, profusamente ilustrado com fotografias até agora desconhecidas e com cartas da correspondência familiar ajuda a reconstituir uma época há muito passada, a vida de Lisboa, mas também os hábitos quotidianos de um oficial que sempre se regeu por princípios e valores sólidos e pela convicção, reforçada nos tempos vividos nos Estados Unidos e Canadá de que seria possível dar aos Portugueses uma vida mais digna, mais igualitária e mais livre.

A batalha travada por Humberto Delgado em Junho de 1958 e que culminou com o roubo pela ditadura de Salazar do justo resultado que representaria uma profunda mudança na vida política portuguesa custou-lhe anos de exílio, no Brasil e noutros países, uma verdadeira e engenhosa perseguição internacional e, por fim, através de uma acção conspirativa com crueldade e êxito a destruição da sua vida e da secretária que tão dedicadamente o acompanhou até ao momento da morte.

Durante esses anos, Delgado esteve impedido de conviver com a sua família e designadamente com a sua filha Iva que tanto trabalhou nos materiais políticos da sua campanha presidencial e nos documentos que entretanto foi produzindo e fazendo circular.

Humberto Delgado, que na juventude chegou a ter proximidade com o regime de Salazar e que serviu em vários domínios, designadamente no diplomático, com a convicção de estar a dar o melhor de si para o prestígio e modernização de Portugal era um homem de bem, um homem de princípios a quem o direito à mudança política foi negado porque a ditadura, além de o ter privado do salário, não admitia sequer a existência de vozes discordantes.

Este livro acabado de editar é um poderoso testemunho pessoal e político em que a memória de Iva Delgado é o pilar central, mas é também o retrato vivo e sensível de um homem que, entrando na galeria dos heróis nacionais, bem merece o lugar que ocupa no Panteão Nacional e o respeito e admiração que sucessivas gerações nutrem pela coragem deste alguém que caminhou para a morte de cabeça erguida e peito dado às balas do inimigo, para demonstrar que nenhuma voz silenciaria a sua, porque ele tinha razão e os ventos da História sopravam a seu favor e do seu exemplo.

Na firmeza do seu combate, Humberto Delgado foi, para muito gente, um homem gerador de desassossego, porque nunca se afastou do rumo traçado em nome do inadiável combate pela liberdade. Sabia que caminhava para a morte e sabia também que essa morte seria a confirmação da justeza de um ideal que Salazar nem mesmo á força de balas conseguiria destruir, aniquilar.

A publicação deste livro deve ser também uma oportunidade para se homenagear Iva Delgado por uma vida dedicada à preservação da obra e do exemplo cívico de seu pai, grande combatente pela liberdade que ainda hoje pode inspirar as novas gerações num combate que não cessa com a conquista de novas maiorias políticas.

Nascido em 1906, Humberto Delgado morreu quando tinha ainda muito tempo de vida para prosseguir com o seu combate. O tempo e as intrigas que sempre o envolveram foram-no isolando e, 50 anos após o seu assassinato, pode dizer-se que nunca a força do seu nome foi tão evidente e mobilizadora. A verdade é que a passagem do cinquentenário do crime da PIDE foi assinalada com muito menos pujança e brilho do que merecia.

E o certo é que merecia muito mais, em nome de tudo o que o General Sem Medo nos quis dar, de olhos postos num Portugal que acreditava estar ao nosso alcance. Não teve a possibilidade de ver o 25 de Abril triunfante, mas foi, seguramente, um dos seus grandes inspiradores, com a firmeza do seu ideal libertador que não chegou para fazer sair a tempo dos quartéis os militares que tinham nas mãos e nas armas a certeza da mudança inadiável. Lembrar Delgado continua a ser uma vénia sentida e sofrida ante o desejo colectivo de uma sociedade muito mais justa, livre e solidária.

Dias antes, lamentou-se a perda de José da Ponte, compositor, músico e administrador da Sociedade Portuguesa de Autores, que serviu com dedicação e criatividade até que uma doença prolongada o afastou do local de trabalho e dos sonhos que desejava ver materializados. Conheci-o bem, fui seu amigo, acompanhei a sua luta e a sua resistência contra a adversidade e testemunhei a forma como, sendo licenciado em História, se empenhou na realização de um Mestrado que não teve vida bastante para concluir. Foi autor de canções como ‘Lusitana Paixão’ que, na voz de Dulce Ponte, venceu o o Festival RTP da Canção e representou Portugal na Eurovisão com grande prestígio e dignidade.

O homem dos ‘Salada de Frutas’ era um profundo conhecedor dos desafios impostos pelas novas tecnologias e um competente defensor da moderna e efectiva preservação nacionaldo direito de autor com uma legislação nacional adequada. Partiu a poucos dias de completar 60 anos de vida, deixando amigos e admiradores e levando a SPA a ter o propósito de criar um prémio anual para distinguir jovens criadores musicais, tarefa que tanta atenção e energia dele exigiu durante anos.

Foi um trabalhador, um autor inspirado e um combatente pelos legítimos e inalienáveis direitos de quem cria, demonstrando que, por trás de cada obra, existe pelo menos um autor. Quando o seu corpo desceu à terra em Silves, sua terra natal, a vida cultural e artística portuguesa ficou mais pobre e mais exposta aos muitos perigos que a cercam e perigosamente assediam. O seu exemplo continuará a dar frutos.

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