A escola para o futuro, ou futuro para a escola: divagações

Ensino

autor

Maria Teresa Machado

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Escola e Futuro, embora indissociáveis, são, seguramente, vocábulos gastos, talvez vazios de conteúdo, mas a carecer de novas significâncias. É provável que esta crónica nos leve a lugar nenhum, a conclusões vazias e impregnadas de resignação e comiseração pela escola atual e o termo futuro seja somente tempo verbal, que encontra sinónimos em nomes como incerteza, dúvida e instabilidade. É provável que haja alguém que não pensa assim, e vai tecendo malhas para que o império da vida dos outros tenha futuro longo, claro e promissor.

Levantemos o olhar para além do nosso território, o conceituado chef britânico Jamie Oliver lançou em 2010 um projeto de escola - Dream School - que pretendeu levar um grupo de jovens dos 16 aos 18 anos, com poucas qualificações, a voltar à escola.

Jamie Oliver, que abandonou a escola aos 16 anos e cuja educação foi dificultada por sofrer de dislexia, quis dar uma segunda oportunidade a duas dezenas de adolescentes com percursos problemáticos. Afirma, em entrevista, “Voltando aos dias em que eu andava na escola, eu era lixo. E tal como acontece a muitas crianças hoje, eu achava muito difícil aprender.” Levanta a questão “O que aconteceria se pudéssemos transformar uma escola numa escola de sonho?” E assim foi. O resultado da experiência foi surpreendente: o sentido da escola mudou, o futuro tem nome para estes alunos britânicos.

Questionará o leitor que o lugar do sonho não tem assento na escola pública, e Jamie Oliver haverá um punhado deles em contramão com milhares de crianças e jovens à procura de uma escola e de um futuro. Esqueçamos os exemplos de vida, com nomes que conquistam lugar na cozinha, no palco, no ecrã, nas páginas … e que valorizam o papel da escola na construção de um bom futuro. Olhemos de frente para a escola e perguntemos, ao estilo jornalístico de Daniel Oliveira, “O que dizem os seus olhos?”.

Dirá, com olhar emocionado de cansaço e luta, que é possível fazer mais e melhor. A escola, tal como a paz e guerra, amor e ódio são reminiscências universais. Basta lembrar que o seu significado vem do grego scholé, que significa 'lugar do ócio”, uma vez que ir à escola seria uma espécie de ocupação de tempos livres, com o intuito de refletir, valorizar o conhecimento, o ensino da eloquência, a excelência física, a música, a poesia, ou seja, um modelo de escola multitemática com abordagem a disciplinas básicas como matemática, ciências, história e geografia. Na Grécia Antiga, crianças e jovens eram ensinados, mas de modo informal, sem divisão em séries nem salas de aula, modelo esse que sobreviveu ao longo dos séculos, recuperado no séc. XX pela tendência das escolas modernas.

Naturalmente que a realidade escolar de hoje está circunscrita por normativos, parcos recursos, objetivos e metas de sucesso para os alunos que dificilmente iremos conseguir conhecer para ensinar. Como dizia Platão, “são necessários cinquenta anos para fazer um homem”. Inesperado, pois será formar um homem ou uma mulher, se na escola tradicional aprendemos conteúdos enraizados por intermédio de um professor, dentro de quatro paredes perfiladas por magotes de interesses, vivências díspares, em que cada um transporta o seu mundo, às vezes em plena desconstrução. Validam o que conhecem, no mesmo modelo, em algo designado por avaliação.

Visto assim, neste rasgo de ira pedagógica, esta escola nem sempre traz à luz o melhor de cada aluno, reprime a criatividade, aniquila o potencial de empreendedorismo e inovação, dando a pseudo-ideia que o modelo regrediu de há 2400 anos para cá. Não, não acreditemos cegamente nisto.
As escolas mais incríveis do planeta (há estudos interessantes) começam a evidenciar o seu contributo no panorama do sucesso académico mundial. Espreitemos um ou outro caso: na escola sueca, os alunos agem de forma independente com os seus portáteis em qualquer lugar que lhes seja confortável e conveniente, o método Vittra elimina totalmente as salas de aula.

Em Estugarda, na Alemanha, método Waldorf tem como objetivo desenvolver a personalidade das crianças de forma equilibrada e integrada, estimulando a clareza de raciocínio, o equilíbrio emocional e a iniciativa, desenvolvendo-se um currículo que incentiva e encoraja a criatividade, nutre a imaginação e conduz os alunos a um pensamento livre e autónomo. Uma das fortes referências é o Centro Internacional Loris Malaguzzi, na região italiana de Reggio Emilia, cujo sistema educacional tem uma estrutura com uma forte organização, um grande relacionamento com a comunidade e uma intensa participação dos pais.

De acordo com a Rede Internacional de Educação Democrática, há mais de 200 escolas com modelos de gestão e autonomia em 28 países, abrangendo cerca de 40 mil alunos. Outros exemplos são a Sudbury Valley School, nos Estados Unidos, e a Escola da Ponte, em Portugal, esta influenciou o projeto pedagógico de muitas instituições brasileiras, em São Paulo. Será que o futuro da escola passará por modelos inspiradores como estes? Ou, noutro ângulo, a escola só assegurará futuro assente nos princípios de criatividade, autonomia e liberdade?

Vislumbra-se, em quase toda a Europa, o princípio de que as escolas devem ser autónomas em determinadas áreas da sua gestão, diferentes teorias impulsionaram sucessivamente esta mudança, que decorre da necessidade de uma participação mais democrática até uma gestão pública mais eficiente e, na atualidade, a preocupação com a melhoria da qualidade do serviço educativo.

A escola dinamarquesa Kaospilot aposta no ensino colaborativo e baseado em projetos para formar seus alunos, assente no empreendedorismo, criatividade e inovação social. Fundada em 1991, propõe uma formação de 3 anos onde os “alunos profissionais” são protagonistas das suas aprendizagens, o plano de estudos é substituído por projetos reais com desafios do mercado.

Sim, voltemos ao nosso território e à nossa realidade: a Escola Profissional de Braga, paulatinamente ao longo dos seus vinte e cinco anos, introduziu na oferta formativa da região um modelo de referência de escola diferente do sistema regular, demarcou-se pela formação de rigor, qualidade e competência, lançou-se nos estágios transnacionais, participou e venceu em festivais internacionais de robótica, é anfitriã europeia e impulsionadora de motores do conhecimento intelectual e técnico - isto citando uma parte do seu infindável currículo. Hoje, a EPB continua a ter um modelo que não consta nas mais incríveis escolas do mundo, mas incrivelmente, e até resignada à crise nacional, bem que pode afirmar que garante um Futuro.

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