Na terra dos smartalhões criativos

Ideias

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Paulo Caldeira

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O ato mais criativo que qualquer ser humano experiencia quando começa a navegar pela comunidade onde nasceu é pegar num simples papel branco do qual retira todo o futuro se for inteligente, porque não há pior inimigo do desenvolvimento sustentável que o de se querer ser criativo a partir de uma folha já rabiscada por outros, apenas porque se encontra uma oportunidade de obtenção de recursos financeiros num país onde quem se afirma denunciador de más práticas políticas tem telhados de cristal.

Buscando inspiração numa mini-série produzida em 2002 pela BBC e numa canção que representou Portugal no Festival da Eurovisão de 1996, o texto que o leitor terá a árdua tarefa de interpretar mostrará à evidência que para se criar uma smart city só há dois caminhos: ou se oferece um desses minúsculos veículos a cada residente da cidade ou se opta pela creative economy baseando-a na identidade local e na autenticidade comunitária.

Aliás, o próprio termo smart é traiçoeiro na adjetivação quando transladado do termo anglo-saxónico para o nosso português de Portugal, porque enquanto o homem inteligente (smart) busca no repositório cognitivo das tradições que guarda desde a infância para criar valor (quanto mais não seja um mero superlativo intelectual para os seus descendentes), o homem esperto (smart) devota-se frequentemente à má (re)criação fácil porque este apenas tem como única missão vitalícia aproveitar-se do saber de outro.

Ao querer justificar a necessidade da arte como beleza espiritual, um alto dignatário eclesiástico do Vaticano referiu numa visita à Bienal de Veneza que o “povo não precisa apenas de pão mas também de flores” numa alusão ao autor maldito do thriller «O Idiota», escrito em Florença por um russo que usava livros com mais de 400 páginas para criticar o poder. Como homem smart, o eclesiático não estaria certamente a pensar que os pobres cheiram mal mas antes que as flores são uma tradição gastronómica em muitas cidades.

Por seu lado, o autarca smart da cidade onde nasceu o creative cluster nortenho veio a público dizer que a urbe não pode transformar-se noutra Barcelona “onde os turistas se amontoam e não têm onde dormir” mas como a omissão também é pecado será bom referir que a capital da Catalunha arrecadou mais um prémio internacional que avaliou a governação respeitadora da identidade local como base de resiliência e sustentabilidade, a efetiva participação dos cidadãos com retorno efetivo dos investimentos (sem o disfarce dos orçamentos participativos) e o uso de meios digitais para promoção da literacia e da inclusão social.

Amadora, Braga, Cascais, Coimbra, Guimarães, Leiria, Lisboa, Odivelas, Porto, Sintra e Vila Nova de Gaia integraram o rol das 155 cidades europeias que procuraram um lugar ao sol (sublinhe-se: um chorudo prémio monetário) no Bloomberg Philanthropies’ 2014 Mayors Challenge e o relatório do júri diz que Braga providencia free dental care para incrementar a empregabilidade e combater a exclusão social.

São estas as bases das Media Arts? Pois que se o são há uma outra má notícia para os que pensam que as redes sociais dão protagonismo: a quantidade de likes onde muitos se orgulham de ter mais de 500 friends não é sinónimo de coisa nenhuma porque nesse campeonato as cidades vencedoras são as mesmas de sempre e não são portuguesas.
É caso para citar José Fanha: E como é? E como é? E como é! Vai de roda minha gente, vamos todos dar ao pé!

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