José Mariano Gago: uma imensa perda para Portugal

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José Jorge Letria

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A última vez que vi José Mariano Gago e conversei um pouco com ele foi numa viagem de Bruxelas para Lisboa. O avião vinha com vários eurodeputados e dois ministros. Mas nem me recordo dos seus nomes. Recordo-me apenas que um dos eurodeputados, hoje muito saliente a tentar fazer alianças à esquerda viajava tranquilamente em executiva enquanto os seus pares de outros partidos vinham em eeconómica.

Mariano Gago não se confundia com esse amplo grupo, porque estava longe e acima dele, apesar da sua serenidade elegante e da sua boa memória para recordar amigos de outros tempos e de outras lutas. Achei-o cansado, embora soubesse que tinha superado uma complexa situação de saúde em 2013. Conversámos fugazmente e cada um ocupou o seu lugar. Sobre política havia pouco para dizer, sobretudo no meio de um grupo tão diversificado. Outras ocasiões haviam de surgir.

A notícia da sua morte colheu-me de surpresa. Não sabia que a sua situação se agravara e penso que muito poucos seriam os que que tinham informações a esse respeito. E logo me apeteceu dizer o que sempre pensei a seu respeito. Ainda é cedo para percebermos o muito que devemos a este homem que partiu discretamente aos 66 anos, elogiado por todos, inclusivé por gente que sempre esteve muito à sua direita e que nada tinha a ver com a sua profunda cultura científica, filosófica e literária. Mas costuma ser assim nestes momentos.

Conhecemo-nos talvez em finais de 1969 ou em princípios do ano seguinte, sendo ele um destacado dirigente da Associação de Estudantes do Instituto Superior Técnico, onde se formou com nota muito alta antes de partir para Paris onde se doutorou e mostrou ser uma figura central da nossa vida científica.

Recordo-me de ele ter convidado José Afonso, eu próprio e o galego Benedito Garcia Vilar para uma sessão no Técnico à qual assistiram mais de mil pessoas e que foi um grande êxito político e cultural. E ele lá estava, activo, atento, empenhado e notável orador com grande poder de mobilização e de esclarecimento. Ele seguiu o seu brilhante caminho científico e eu segui o meu, diferente e distante do seu, mas sempre que nos encontrávamos era como se tivéssemos estado reunidos poucos dias antes. Era simples, inteligentíssimo, muito culto e muito exigente na forma como argumentava sobre questões políticas ou científicas.

Segui atentamente o seu percurso e vi-o ser ministro em vários governos do PS conseguindo dar à ciência e à investigação tecnológica e científica um estatuto de importância estratégica na nossa vida política, sempre tão arredada da importância vital deste sector pelo qual ele se bateu firmemente sabendo bem o que queria para Portugal e para os Portugueses neste domínio. Foi, nesse sentido, o melhor de todos os que tivemos como agora muito bem salientaram Carlos Fiolhais e o reitor Cruz Serra. Perdemos um dos melhores de sempre, um dos mais brilhantes e mais corajosos nas posições que defendia e pelas quais empenhadamente se batia.

Recordo-me da sua disponibilidade, sendo ministro do governo de António Guterres, seu amigo desde os anos do Técnico, para participar em debates da Bienal da Utopia em Cascais, nos anos noventa, onde chegou a pé, sem aparato nem corte, igual a si mesmo, natural e simples como as grandes coisas da vida.

Recordo-me de um dia ter contestado uma posição sua sobre os direitos de autor no mundo digital e de ele me ter respondido com um rápido telefonema num sábado. Depois, como queria conversar sobre o assunto, foi encontrar-se comigo na Feira do Livro e tudo ficou esclarecido e equilibrado como sempre acontecia nas situações em que intervinha, independentemente de qualquer cargo que desempenhasse. Era uma figura de grande prestígio internacional e um político que as pessoas admiravam pela sua inteligência e brilhantismo. Nunca o vi inclinar-se para a desistência, fosse qual fosse o assunto e a natureza da luta que travava.

A sua morte apanhou-nos de surpresa e eu sinto que ainda é cedo para percebermos o vazio irreparável que a sua morte deixa em todos nós, neste país pobre e desalentado que ele tanto quis valorizar através do fortalecimeleento da cultura científica nos programas de ensino e na nossa vida colectiva. Nesse aspecto foi único e esteve muito longe e acima das pessoas que são governo em Portugal há quase quatro anos. Ele sabia que aquilo em que acreditamos tem de adquirir um estatuto central e vital para que ninguém se atreva a desvalorizá-lo ou a bani-lo. Com a morte de José Mariano Gago perdemos um grande cientista que soube ser inovador e um verdadeiro revolucionário em relação a áreas vitais do saber. Duvido que esteja ao nosso alcance a desejada recuperação do tempo perdido e imagino que esse assunto tenha sido forte motivo de reflexão na sua vida nestes últimos anos. Era um homem corajoso e frontal no debate, que não temia a diferença de opiniões e que estava sempre disponível para defender aquilo em que acreditava e para ouvir as opiniões dos outros, às quais nunca sobrepunha o seu estatuto.

Tudo isso faz agora parte de uma memória que dele guardamos. Sabemos que nos deixou o melhor de si e que o muito que investiu continuará a dar frutos, apesar das pessoas de primeira linha na investigação científica que nos últimos anos deixaram Portugal em busca de melhores postos de trabalho, de maior reconhecimento e de condições mais favoráveis para executarem os seus programas e projectos.

Vamos ter tempo para o homenagear e celebrar, sem conversas inúteis mas com o apreço de que sempre foi e continuará a ser merecedor. Ele nunca deixou de ir à luta, sereno e firme, por aquilo em que acreditava. Só por isso continua firme e corajosamente vivo, connosco.

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