O meu São João é da Meadela!

Ideias

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Paulo Caldeira

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Às 16h e 38m de 21 de junho começa oficialmente em Portugal a época do ano que povos anglosaxónicos designam de silly season, que é como quem diz, do fado português de viver o verão por entre idas a banhos e deslocações a festas, feiras e romarias que não são, nem nunca foram, exclusivas do Minho, nem tampouco do pedaço retangular onde o meu caro leitor vive, mas antes uma tradição universal da humanidade onde apenas os costumes se modificam por via das tradições locais de cada país ou região deste globo quase esférico a que chamamos Terra.

Talvez a forma como o afirmo lhe pareça chocante, mas a verdade é esta: tanto as idas a banhos como as origens das festas, das feiras e romarias se perdem nos séculos da história de todos os povos de um mundo cada vez mais achatado por uma rede social cibernética que torna a sociedade num ser vivo estúpido onde se vão postulando ideias pré-concebidas e depois se assumem como verdadeiras, tal é a força de replicação que por lá existe.

A coisa é de tal forma enervante que um estudo recente revelou uma realidade submersa: mais de 50% dos norte-americanos acredita que quando o céu tem muitas clouds (nuvens) a Internet fica mais lenta. É a demonstração clara de que a iliteracia digital tem contornos bem mais graves que o analfabestismo promovido pelo pai do monstro onde se encontram grupos pseudo-promotores da Braga Antiga e outro lixo eletrónico produzido por egos bracarólogos que acabarão em breve por ter o mesmo destino efémero que têm os piolhos depois de se lhes aplicar esse produto milagroso que limpa o coiro cabeludo.

Mas como a simples lavagem do pelo não rejubila o cérebro, este texto cozeu-se a partir de um amontoado de letras mal cosidas onde se diz que «não faltam “entendidos” a achar que descobriram agora a “pólvora”» para justificar uma falsa autoridade abrigada na réplica contemporânea da Idade da Trevas em que Braga mergulhou em pleno século XXI depois da pré-história que vivenciou nos finais do século XX.

Ptolomeu e Eratóstenes calcularam pela primeira vez o perímetro da Terra há mais de 2200 anos e os investigadores vesgos (aqueles que cosem à medida em vez de cozinhar) sempre nos disseram que eles eram gregos quando na verdade eram egípcios. A Igreja Católica, tal como agora parece suceder na gestão cultural e turística de Braga, aproveitou-se deles para impor a lei do geocentrismo e foi necessária a revolta iluminista para calar definitivamente um ruído de séculos.

À época, a reconstrução das tradições cerebrais era demorada mas hoje em dia todos os aparelhos digitais, produzidos com metais raros que só se encontram na China, possuem uma vantagem: ligam-se e desligam-se em frações de milisegundo, ou seja, corta-se-lhes a corrente elétrica e a lixeira esvazia-se de inovações que distorcem a memória coletiva e procuram impor-se como marca de um regime de tiques oligárquicos.

O texto que o meu caro leitor agora devora (ou não, porque a alguns fará azia) foi cozido ao som de um cavaquinho comprado na última das oficinas artesanais que resta da tradição violeira bracarense precisamente no mesmíssimo dia em participei numa iniciativa que tem muito mais de verdadeiro serviço público que a própria programação cultural oficial do município e em que descobri um delicioso painel de azulejos produzido na antiga Cerâmica Lusitânia que representa Santo António e o menino, colocado discretamente num pátio de um edifício do centro da cidade.

Os ingredientes usados para cozer esta iguaria estão ao dispor de qualquer bracarólogo que se preze; resta saber se no final do verão não iremos descobrir que vamos ficar sentados no início de uma vaga que já passou pelo meu São João da Meadela.

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