“Há escolas que são gaiolas. Há escolas que são asas.”

Ensino

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Helena Barroso

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Este aforismo de Rubem Alves enuncia um pensamento, um olhar pertinente que sintetiza de forma simples a perceção que os jovens têm hoje da escola: uns não a valorizam e chegam mesmo a repudiá-la, outros creem e encontram nela a energia que os faz trilhar caminhos que os conduz ao sucesso.

Lembro-me que sempre gostei de ir à escola: enquanto aluna adorava os momentos em sala de aula, valorizava cada aprendizagem e lição de vida que os meus professores entusiasticamente me transmitiam; gostava da partilha, do rigor, da atenção e concentração que os meus colegas demonstravam; deliciava-me com todo aquele mundo mágico… Sentia que a escola era um lugar onde podíamos crescer, aprender para ser alguém na vida. Era o que quase todos ouvíamos enquanto criança... A Escola deu-me doces recordações, momentos felizes, experiências gratificantes e deu-me asas para voar ao encontro dos sonhos... Embalada por estas boas sensações, por esta visão romântica e simultaneamente muito real, tornei-me, por vocação, de “corpo e alma”, professora.

No desempenho desta nobre função a realidade apresentou-se, muitas vezes, fria e triste fazendo desvanecer os ideais de educação construídos. Deparei-me, frequentemente, com uma evidência inexorável que muito me inquietava o espírito e principalmente o profissionalismo. A maioria dos alunos não valoriza a Escola. Veem nela uma “gaiola” que lhes “corta as asas” e que não lhes concede ferramentas nem cria contextos de realização pessoal.

Escolas que se limitam a reproduzir um sistema mecânico e automatizado; escolas que não promovem o Saber como forma de emancipação; escolas que promovem mais a instrução do que a educação; escolas que segregam; escolas que vivem reféns de metas curriculares, resultados, burocracia sem fim que as afastam do mais importante: Orientar, Acompanhar, Desafiar, Educar… Escolas que se espelham numa ilustração produzida para a Exposição Universal de Paris, em 1900, pelos ilustradores franceses Jean Marc Cotê e Villemard que imaginaram e retrataram a escola do ano 2000 (numa espécie de série televisiva de ficção científica, Espaço 1999!).

Os alunos encontram-se sentados em fila, olhando para a frente, mãos em cima da mesa, numa postura imóvel, infeliz… A secretária do professor ficava no extremo esquerdo da sala de aula. Ele estava lá, mas não estava a trabalhar/ensinar. Os alunos tinham uns capacetes de metal, ligados por uns cabos elétricos a uma máquina onde o professor colocou uns livros. A função desse aparelho, subentende-se pela imagem, seria a de extrair a informação dos manuais e introduzi-la diretamente nos cérebros dos jovens.

Não quero uma escola assim, não contribuirei para a construção e perpetuação de mais “gaiolas”. Libertem-se os alunos, libertem-se os professores, ajudem a pôr fim a uma educação de sentido único, modelo pronto-a-vestir onde como “carneirinhos” os alunos fazem percursos idênticos, realizam aprendizagens a que não sabem dar sentido e, muitas das vezes, não acrescentam qualidade de vida. Nestas escolas são escassos aqueles que voam mais alto. E quando o conseguem na maior parte das vezes os constrangimentos são enormes e a realização profissional não passa de uma miragem!

Naturalmente, existirão pequenos oásis onde o aluno, a sua individualidade, a sua personalidade, o seu histórico, a sua criatividade, a sua vocação, a sua diferença é respeitada, considerada e trabalhada. Escolas que para além de educar para formar brilhantes profissionais, têm como prioridade formar excelentes seres humanos.

Tenho, atualmente, o privilégio de trabalhar num desses oásis, a EPB - Escola Profissional de Braga - uma escola “asas”. Uma Escola que interage com os alunos; que promove direitos, deveres, responsabilidade; uma Escola que valoriza e incentiva a cidadania responsável, a inclusão social e cultural, que estimula a reflexão sobre si e sobre o mundo que a rodeia, uma Escola que não segrega, não rotula, não exclui.

A EPB desenvolve uma cultura de participação empenhada e dedicada de partilha de responsabilidades na educação com a família, com os trabalhadores não docentes, com os parceiros e com a comunidade educativa, desenvolvendo trabalho colaborativo decisivo para o desenvolvimento pleno e harmonioso do Projeto Educativo da Escola.

Enquanto docente, sinto que esta Escola vai ao encontro das minhas memórias mais preciosas. Vejo alunos que vão crescendo, que se vão tornando melhores; com saídas profissionais muito interessantes; vejo colegas atentos, preocupados, atualizados nas suas práticas; vejo uma direção vigilante, consciente; vejo auxiliares comprometidos, disponíveis…

“Foi o tempo que dedicaste à tua rosa que a fez tão importante” disse Saint-Exupéry na obra ‘O Principezinho’. Tem sido o tempo e o trabalho que todos temos dado à EPB que lhe permite ser um oásis, uma Escola asas. E, se me permitem, que também eu continue a voar!

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