Não podemos ignorar

Ensino

autor

Jorge Franqueira

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“Vemos, ouvimos e lemos
Não podemos ignorar”
Quantos de nós ouviram e cantaram estes versos, principalmente quando eram timbrados pela voz do Francisco Fanhais. Temos, enquanto povo, o privilégio de ter um conjunto de poetas que deixou um legado que está permanentemente atual e incisivo, como é este, da grande Sophia de Mello Breyner Andresen. Mas, muito mais necessário do que recordar estes versos, colocar em prática a sua mensagem é que se torna urgente e imperativo.

É cada vez mais frequente, por parte de, atrevo-me a dizer, todos nós, a atitude da avestruz que mete a cabeça na areia e arrebita o seu rabo para o ar, sacudindo de seguida a sua penugem para afastar as areias que a incomodam e que pretende atirar para longe de si. Essa atitude remete-nos para o comodismo que, por vezes, nos assalta e que se resume no jeito que dá viver na escuridão da caverna, porque a “luz” nos incomoda e agride.

Este introito vem na sequência dos últimos acontecimentos que tiveram materialização na grande onda migratória que aconteceu e continua a acontecer na Europa, a partir dos países do norte de África, em geral, e da Síria, em particular.

E, neste sentido, ninguém terá ficado indiferente à imagem da criança síria de 3 anos, Aylan Kurdi, deitada de bruços na zona de rebentação de uma praia turca. Morta por afogamento, na sequência da tentativa de atravessamento do Mediterrâneo. Para além da violência que a imagem por si só incorpora, o corpo da criança está acompanhado, de perto, por dois policiais que tiram fotografias e vêm-se mais ao longe dois homens a pescar, com a atitude mais alheada, natural e descontraída. Esta imagem ilustra bem a atitude da “avestruz”. Mas este soco no estômago, provocado pela violência da imagem, só ilustra o que de algo muito estranho se passa no mundo…e não podemos ignorar.

Não nos vamos deter nas causas que levaram a que acontecesse esta debandada, mas… não podemos ignorar, que por detrás de toda esta situação existe o negócio do armamento, com a Alemanha e os EUA a baterem recordes de venda de armas para o Golfo Pérsico, que existe muito gente a ganhar rios de dinheiro com as escabrosas redes de tráfico, que por detrás de toda esta guerra estão questões geoestratégicas condicionadas e manipuladas pelo negócio do petróleo, que toda esta gente é vítima dos conflitos que ajudamos a criar e que as primaveras que foram muito incentivadas se tornaram num obscuro inverno. As primaveras são desejáveis e necessárias, com segurança, estabilidade e perspetiva de futuro. Não podemos ignorar mas devemos questionar e tentar perceber o facto dos irmãos da mesma fé de todos estes migrantes, Qatar, Emirados Árabes (Dubai e Abu Dhabi), Arábia Saudita e Omã, não terem recebido, até à data, uma só pessoa. Não… não podemos ignorar.

Há uma verdade insofismável de que não há mares, rios ou oceanos, muros, redes eletrificadas ou túneis, ou qualquer outra fronteira ou obstáculo, que consiga travar o homem em desespero. Perante este quadro deve cada um de nós posicionar-se perante esta situação e dentro das suas possibilidades tomar as medidas que estiverem ao seu alcance. Para além da resolução imediata e urgente da vida destes milhares de pessoas, que fogem à guerra e à miséria que a mesma provoca e que procuram melhores condições de vida, devemo-nos preocupar com a resolução dos seus problemas, a montante, para que seja possível a existência de uma verdadeira e estável primavera.

E considero que uma das formas, mais eficazes para combater todos estes conflitos e toda esta agressividade, política, económica e social, que se vive nos dias de hoje é proporcionar mais e melhor conhecimento e educação às pessoas. Entendo que o maior conhecimento é a grande arma, ainda que não seja a única, para lutar contra a tirania, a opressão, a desigualdade e todas as outras formas de desrespeito para com a pessoa e para com a natureza. Não é por acaso, que o poder, embora diga constantemente o contrário, se dá bem com a estupidez e o amorfismo.
E a grande catedral do conhecimento é a escola, independentemente dos seus diversos graus.

Mas todos podemos reconhecer a grande dicotomia que existe, hoje em dia, na escola e que assenta na sua missão de Ensinar e Educar. O que provoca em muitas cabeças alguma baralhação, porque a transferência da missão de Educar não foi integralmente assumida, nem transferida para a escola e muito menos foram dadas as condições necessárias às escolas para a sua implementação. Por isso, não podemos ignorar que é necessário e urgente que esses objetivos sejam claramente assumidos por todos os agentes e essencialmente pelos responsáveis políticos.

E, neste contexto difícil, é a resposta a estas necessidades num caminho cada vez mais difícil e árduo, que a escola em geral e a EPB em particular têm dado, na busca de resposta às enormes carências dos nossos jovens e procurando dar-lhes bases mais seguras para o confronto com a vida e para o futuro que se avizinha. E reforço a dimensão da EPB porque a defesa e a transmissão dos valores da solidariedade, da responsabilidade, da intervenção crítica e cívica têm sido, desde o início, algumas das grandes preocupações e objetivos da EPB.

E estando inserida numa escola que tem as portas abertas como grande expoente da sua estruturação e do seu posicionamento na sociedade, o curso de construção civil da EPB, está completamente disponível para receber e colaborar na formação e crescimento destes seres humanos ávidos de um lar, de tranquilidade, de paz e…não podemos ignorar…de futuro.
Embora esta atitude seja um pouco à revelia da direção da escola, estou convicto do seu comungar neste propósito, porque… não podemos ignorar, e
“Nada pode apagar
O concerto dos gritos
O nosso tempo é
Pecado organizado”

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