Começar de novo

Voz às Escolas

autor

Paulo Leitão

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Não sabem o que é o cheiro da terra molhada nem conhecem a textura das folhas secas do outono. Nunca subiram a uma árvore nem dela caíram. Estranham o cheiro da maresia e o perfume das montanhas. Fogem dos cães, gatos e gaivotas, mas adormecem agarrados a peluches. Nunca esfolaram os joelhos ou lamberam as feridas abertas por correrias sem fim. Nunca leram um livro e dificilmente escreverão algum.
Não podem brincar e muito menos errar.

São estas as crianças do século XXI. Projetos de adultos que não passam de rascunhos.
No tempo de aulas têm uma agenda mais sobrecarregada do que a de qualquer executivo. Vão da escola para centros de estudo e daí para o Inglês, para o Karaté, para a Música e para tudo que mantenha os pais em sossego.
Já não andam a pé porque podem ser raptados, assaltados ou violados. Ocupam o banco de trás de viaturas com cadeira, cinto, «airbag», barras laterais de segurança e ar condicionado, não vão os meninos constipar-se.

Nos raríssimos tempos livres jogam futebol com os polegares, ténis com comandos e passeiam em bicicletas virtuais. Matam velhinhas, destroem hospitais e espancam polícias em jogos tão caros como estúpidos. Trocam a praia pela consola e agarram-se aos teclados táteis, estejam onde estiverem.
É bem possível que, cansados de sugerir ou até suplicar alguma atenção e momentos de partilha, adotem uma postura acomodada ou talvez resignada, tantas foram as vezes em que ouviram o tradicional «agora não», o recorrente «não faças isso», o habitual «não podes» ou simplesmente «não tenho paciência para isso».

Afinal quantas vezes nós, pais prodigiosos, aceitamos ser os brinquedos dos nossos filhos? E quantas vezes fomos nós a desafiá-los para uma brincadeira qualquer?
Não. Não são as crianças que têm que perceber que o nosso tempo é controlado e que se os protegemos ao máximo é porque queremos o melhor para eles. É que não são raras as vezes em que esta excessiva proteção nos é mais cómoda e nos facilita a vida.
Ficamos mais tranquilos, confortáveis e descansados. Limpamos o caminho que terão de percorrer, mas tornámo-lo irreal e muito mais perigoso.

Quanto à falta de tempo, estamos a falar de uma absoluta mentira. Só quem não quer é que não consegue retirar minutos ao ginásio, ao SPA, aos cafés, às jantaradas, aos amigos, aos colegas, à inércia, ao sono, mas sobretudo ao egoísmo.
Deixemo-nos de paliativos porque os adultos somos nós.
Com a nossa complacência, estas crianças tornam-se adolescentes sem noção do tempo e do espaço. Ficam inseguras, indecisas e imaturas. Mal sabem quem são, mas adoram colecionar amigos em redes supostamente sociais que os afundam na mais profunda solidão. Despem-se de tudo, mos- tram-se e promovem-se ao máximo para obter o mínimo de atenção.

Tiram «selfies» porque estão realmente sós, apesar de rodeados por outros tantos como eles. Colocam auriculares e refugiam-se em misturas eletrónicas que emitam sons de fábricas. Chamam-lhes música, mas são apenas alucinações. Em grupo, rasgam o silêncio com inutilidades que nada acrescentam ao vazio.

Aqueles que geneticamente são mais disciplinados podem ser alunos estudiosos, pela reprodução de conceitos, mas são pouco curiosos e empreendedores, geralmente bloqueados pela procura da perfeição ou por recearem o erro.
Mas a grande maioria pode cair ou ficar pela margem.

Alguns são vencidos pela apatia e ausência de objetivos, pela incapacidade de emitir opinião própria e pela dependência da decisão de um qualquer tutor.
Os outros, aqueles que vagueiam pela margem podem alhear-se, fomentar e cultivar a indisciplina, provocar conflitos e viver numa espécie de insanidade prematura. Para estes os caminhos estreitam-se. Frequentam psicólogos que identificam sinais, mas não resolvem nem encontram soluções. Passam pelas alas de psiquiatria, onde a adição de fármacos é tão frequente como inútil, porque as condutas se mantêm.
«Mas onde é que foi que eu errei»?

É esta a frase típica. Aquela que traduz a impotência dos pais que quiseram fechar os olhos ou fingiram não ver. O lamento daqueles a quem deu jeito tolerar e perdoar.
Chegamos ao fim da linha, isto é, à Escola. É nela que reside a última esperança e a derradeira oportunidade. É ela que se converte no último reduto, aquele a quem tudo se exige, quase sempre no limite do tolerável.

É claro que os pais precisam de nós como nunca precisaram. Mas é essencial que a estrutura escolar se mantenha acolhedora mas coesa, organizada mas flexível e que nunca abdique da rigidez quando os valores estiverem em causa. É este o patamar de exigência da EPB para que possa acreditar num trabalho profícuo.

Não sei se vivemos tempos fáceis ou difíceis, mas sei que não temos escolha, a menos que comecemos a refletir e possamos reiniciar para começar de novo.
Mas a vida não para nem o mundo espera. Precisamos, por isso, de corrigir em andamento a paulatina caminhada, sabendo que o futuro se constrói agora.

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