Nós lemos, e tu?

Voz às Escolas

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Marta Gavina

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Desde 2012, a Educação Literária é um domínio de referência nas metas curriculares do ensino da disciplina de português. Com a mesma, almeja-se a valorização da literatura junto dos alunos, a promoção do nosso património cultural através do consumo de literatura e na formação do indivíduo. Surge associada ao Plano Nacional de Leitura, uma iniciativa governamental que pretende elevar os níveis de literacia dos portugueses. A educação literária é comum a todos os ciclos de formação, do 1.º ciclo ao ensino secundário e contempla obras de leitura obrigatória e recomendada.

Recordo que, ao crescer, tive mais livros que bonecas. Sabemos que as crianças e os jovens de hoje não são os mesmos de há décadas atrás, vivem na era do tecnológico e do brinquedo interativo. São sensíveis a outros estímulos, tocam e exploram mais. Já não escondem à mãe que não estão dormir, nem disfarçam a noturna e tardia leitura à luz de uma lanterna. Mas há espaço para tudo, para o tátil e para o livro, pois a leitura apresenta tão importantes e complexas vantagens que perpassam toda a matéria do que se lê.

A Literatura obriga sempre o aprendiz - seja ele professor ou aluno - à prova da leitura, (…) da imaginação, da memória, a uma resposta emocional, a um juízo (…). O estatuto peculiar das obras literárias como seres incompletos, ávidos de interpretação (…) gera hábitos disciplinares de aprendizagem e de produção de saber, fabrica atitudes que, por sua vez, marcam o próprio modo do conhecimento, sacudindo fórmulas e ideias feitas. (Margarida Vieira Mendes, ‘Didática da Literatura’)

Como refere a autora, a leitura infere na formação do carácter do indivíduo. Ler é um jogo de decifração, de descoberta, de interpretação, de construção de conhecimentos e atitudes. Por estes motivos, a leitura deve ser fomentada desde pueril idade e sempre impulsionada ao longo dos anos. Evidentes são as vantagens que a leitura de obras literárias traz ao aluno que aprende a sua ou uma nova língua, que vão desde os contributos fonológicos, à promoção da aquisição do desenvolvimento da linguagem, ao alargamento da área vocabular até à promoção de um sem número de competências linguísticas. Todavia, não termina aqui a totalidade de benefícios que a leitura exibe.

Quem lê, vive novas experiências e perspetiva-se para o mundo. Todo o aluno que consome literatura, promove a sua formação de leitor, tornar-se-á um leitor crítico e com perfil interventivo. A educação literária é a educação para os valores, pois ao ler ultrapassamos os limites da nossa própria cultura e abrimo-nos para o mundo. Quem não lê, não conhece, não faz e não é capaz. É importante perceber que a aposta na educação literária, ao longo de todos os ciclos, é uma aposta na formação integral do aluno, na mundividência de competências.

A propósito dos tristes recentes atentados em Paris, surge-me a dúvida se todos aqueles que combatem pela sua suposta fé sabem que a fé é a de cada indivíduo e que a liberdade religiosa é um direito? E que dissertação fariam à obra A Origem das Espécies, de Charles Darwin? Será que leram, ainda em crianças, as mágicas e fantásticas histórias que nos fazem sonhar e que têm um final feliz? Será que formaram o seu carácter, se educaram para os valores, para a tolerância e para a liberdade?

E terão lido as Mil e Uma Noites, da autora Alf Lailah Oua Lailah, obra encantadora, que envolve o leitor e o seduz ao longo das múltiplas narrativas, onde cada nova história, pesa em si o passado da anterior, porém é o recomeço e uma infinita solução da sua própria narradora? Tristes os que não leram e não perceberam que é através do recurso às histórias que a narradora conta ao seu carrasco que evita a sua execução.

Na Escola Profissional de Braga centramo-nos na formação integral dos nossos alunos e apostamos na difusão da leitura e da literatura. Vamos para além do texto e trazemos os escritores à escola. Foram diversos os que já nos visitaram e encantaram os nossos alunos. Retenho na memória alguns dos mais recentes, tais como Richard Towers, Pedro Chagas Freitas, Paulo César ou Valter Hugo Mãe. Temos a consciência de que a literatura deve ser sentida, vivida e melhor se narrada pela boca do seu autor. Mas não nos ficámos por aqui.

Relativo ao texto, promovemos também workshops de escrita criativa, convidamos os alunos à escrita, levamo-los à convivência plena com o texto, a sentir o texto de autores ganhar vida com recurso à dramatização, nas inúmeras idas ao teatro. Na nossa escola, temos a consciência da simbiose perfeita da leitura e da escrita e tudo fazemos para que os nossos alunos caminhem nessa direção.

Saramago disse: Antes do interesse pela escrita, há um outro: o interesse pela leitura. E mal vão as coisas quando só se pensa no primeiro, se antes não se consolidou o gosto pelo segundo. Sem ler, ninguém escreve. Nós lemos, e tu?

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