Ernesto Guerra da Cal recordando em Lisboa com memória de Lorca em fundo

Ideias

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José Jorge Letria

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Ernesto Guerra da Cal, combatente republicano contra o levantamento fascista de Franco, viveu no exílio em Nova Iorque até 1977, tendo vindo residir para Portugal nesse ano. Aqui viveu até 1994, ano da morte e da despedida de tantas coisas que amava na literatura e na vida. Foi um dos maiores especialistas mundiais na obra de Eça de Queirós e também na de Fernando Pessoa, que ajudou a divulgar, de forma criteriosa e correcta, no mundo lusófono.

Tive a honra de o conhecer e de trocar correspondência com ele, muito me impressionando a sua grande energia e o amor que tinha por Portugal e pela sua cultura após décadas de exílio norte-americano. Na realidade, sendo cidadão do mundo, também fazia parte de nós e da nossa memória cívica, política e literária do século XX.

Em Madrid foi amigo e companheiro de estudo de Federico Garcia Lorca, que ajudou a escrever os seus célebres poemas galegos. Só depois da morte de Ernesto Guerra da Cal foi reconhecida a importância desse contributo linguístico e literário.

Guerra da Cal viveu no Estoril, tal como Ramón Gomes de la Serna, e a partir do Estoril manteve-se atento ao mundo e à vida cívica e literária, nunca deixando de estar em contacto com as pessoas que estimava e admirava. Creio ter feito parte desse grupo de pessoas que hoje se preparam para celebrar o centenário do seu nascimento, que também passa a ser um assunto português.

Tive o gosto de promover na Sociedade Portuguesa de Autores uma sessão de lançamento do livro”Ernesto Guerra da Cal - do Exílio a Galego Universal”, do professor e ensaísta Joel R. Gomnez, que esteve presente e que contou com a apresentação feita por Luiz Fagundes Duarte, catedrático da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e ex-deputado na Assembleia da República, que muito bem soube situar o trabalho biográfico deste investigador rigoroso e exigente que quase nada deixou de fora deste livro de quase 400 páginas. Gostei de me reencontrar com Ernesto Guerra da Cal, falecido há 21 anos mas ainda tão presente na memória afectiva de todos os que o conheceram e com ele lidaram, sobretudo na regularidade de uma correspondência amiga e sempre exigente.

Durante a sessão foi-me recordado que, por minha iniciativa, Guerra da Cal tinha e tem o nome numa rua do Estoril, embora já não tenha vivido o suficiente para saborear esse gosto, logo ele que era um homem valente e brioso que não abdicava daquilo a que tinha direito ao longo de uma árdua vida de luta. Tomei essa iniciativa quando era vereador da Câmara de Cascais, entre 1994 e 2002 e não esqueço a justeza dessa decisão que aproximou mais a cultura portuguesa e a espanhola, neste caso na sua intensa e fraterna componente galega.

Guerra de Cal amou Portugal e a sua literatura, como ficou patente na atenção dadas às obras de Eça e de Fernando Pessoa, tão estudadas e bem difundidas. Parte das suas obras teve edição portuguesa e foi também Portugal a condecorá-lo pelo muito que nos deu e connosco partilhou.
Voltei a recordá-lo nesta sessão lisboeta, lembrando o seu estilo, a sua coragem, a sua lucidez e a sua inteligência que tantos frutos deram. Ernesto Guerra da Cal, amigo de Garcia Lorca, continua, por direito pleno, a ser um de nós.

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