Assim se leva a sério a morte do Planeta: a propósito da COP 21 em Paris

Ideias

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Isabel Estrada

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Após duas semanas de notícias diárias que davam conta de novas ameaças terroristas, de contínuas perseguições policiais, de operações de caça ao homem, no seguimento dos ataques de Paris de 13 de Novembro, lentamente estes deixam de abrir os telejornais e de fazer as manchetes da imprensa on-line e escrita. Tal como no pós-11 de Setembro de 2001 em Nova Iorque, no pós-24 de Março de 2004 em Madrid, e no pós-7 de Julho de 2005 em Londres, a Europa aprende a conviver com a tragédia causada pelo terrorismo, vai interiorizando-a no seu quotidiano, ao mesmo tempo que procura nos discursos e medidas securitárias dos Estados, o conforto possível para o seu medo.

Hoje, com o início da 21ª Conferência das Nações Unidas sobre as Alterações Climáticas (COP 21), que se estenderá até 11 de dezembro na capital francesa, as televisões voltam a insistir nas imagens de uma Paris policiada - cerca de 120 mil homens estão no terreno para garantir a normalidade de uma cimeira duplamente tensa. De um lado, a cimeira decorre no cenário recente de vítimas do fanatismo religioso, e do outro, os temas em discussão são por regra geradores de grandes tensões e protestos de rua que quase sempre degeneram em episódios mais ou menos violentos.

Inevitavelmente por isso, voltar-se-á a falar de terrorismo, dos ataques de Paris, da necessidade de vigilância, de maior controlo dos espaços públicos, de proibição de manifestações, de policiamento, etc…E assim será, até que outro evento venha e suplante o interesse mediático desta cimeira. Mas o que está em discussão na Cimeira de Paris? Em cima da mesa está o alcançar de um acordo mundial sobre novos limites na produção e emissão de gases, maior recurso a energias renováveis e menos dependentes de fontes fósseis, entre outros objectivos, e que possam levar a uma redução da temperatura global do planeta em pelo menos dois graus centígrados até 2100.

Por outras palavras, o que está em discussão entre os delegados representantes dos 196 países presentes na Cimeira de Paris, é o modo de combate a uma outra forma de Terrorismo, mais silen- cioso, talvez menos emocional, mas certamente muito demolidor na extensão e na perenidade dos seus efeitos devastadores: o Terrorismo Ambiental. Veja-se o exemplo recente da tragédia do Rio Doce, o principal rio do Estado de Minas Gerais no Brasil. Para tudo é preciso sorte, até no timing da tragédia, e a do Rio Doce quase passou despercebida por entre os directos a partir da capital francesa e da capital belga, não fosse sobretudo a força e insistência das redes sociais na sua divulgação.

Ora, a tragédia do Rio Doce, provocada pelo arrebentamento de duas barragens (Fundão e Santarém) situadas no Município de Mariana, e pertencentes à empresa mineira Samarco, é um claro exemplo de terrorismo ambiental, perpetrado por poderosos grupos económicos que contribuem para a destruição de comunidades e de ecossistemas em nome de uma agenda também ela, à sua maneira, fanática: a do lucro. Uma agenda que, de tão poderosa, torna tais entidades insensíveis à necessidade de maior vigilância das suas práticas, de maior respeito pelo cumprimento das regras ambientais que devem reger as suas actividades perigosas.

Nos mais de quinhentos quilómetros de destruição causados pela onda de lama que se seguiu ao rebentamento das barragens (cuja causa a Samarco diz estar em dois tremores de terra, de origem indeterminada, mas que podem ter resultado da cedência das próprias estruturas em virtude de um excesso de massa hidráulica contida), a Vida, nas suas formas vegetal e animal, com destaque para a Vida Humana, teve uma Kalashnikov apontada à cabeça, mas desta feita, na forma de lama tóxica, a lama terrorista da inconsciência ambiental que tudo engole, mata e petrifica. É pois sobre Terrorismo que a Cimeira de Paris iniciada hoje, nos vem falar.

Um terrorismo que decorre não do fanatismo religioso, mas de um outro fanatismo: o da ganância absoluta e da crença absurda de que somos, enquanto espécie, indestrutíveis e superiores à Natureza pelo que somos capazes de viver, conviver e sobreviver a todas as agressões que lhe causemos em nome de uma suposta racionalidade económica que tudo explica e justifica. E no entanto, o que quer que venha a ser acordado entre os estados presentes na cimeira será… voluntário. De facto, a ideia não é que saia dali um acordo vinculativo como o do Protocolo de Quioto, mas o compromisso com medidas de cumprimento voluntário. Assim se leva a sério a morte do Planeta!

Posto isto, e sendo que daqui a pouco menos de duas semanas, a Cimeira de Paris voltará a ser notícia pelos resultados que então tiver produzido, só nos resta rezar para que aqueles sejam no sentido de elevar a fasquia do compromisso de todas as entidades presentes na luta contra uma das formas mais globais e agressivas de terrorismo no século XXI, o da matança lenta e silenciosa da Natureza, dos seres humanos e das gerações vindouras, o da matança da Vida e do Futuro na Terra.

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