Passa por mim no Sá de Miranda

Ensino

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Liliana Soares

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A três dias do meu aniversário, tinha eu a idade dos meus alunos, estreava no Teatro Nacional D. Maria II a peça ‘Passa por mim do Rossio’. O espectáculo, com direito às célebres pancadas de Molière, tinha a cenografia e a encenação de Filipe La Féria e um elenco de luxo que cruzava actores aclamados pela crítica e pelo público, como João Perry, Fernanda Borsatti ou Curado Ribeiro, com jovens promessas do teatro nacional como Joaquim Monchique e João Baião. O espectáculo tinha a duração de mais de três horas, sempre com lotação esgotada. Durante mais de um ano as pessoas passaram, efectivamente, pelo Rossio.

Estávamos em 1991 a viver as transformações provocadas pela adesão à Comunidade Europeia verificada em 1986. O acesso a fundos comunitários permitiu uma reestruturação económica e política que afectou os comportamentos sociais e culturais do país. Os sectores tradicionalmente mais excedentários, como o têxtil, o vestuário ou o calçado, tornavam-se mais excedentários, atingindo o valor máximo, precisamente no ano da estreia do espectáculo ‘Passa por mim no Rossio’.

Os responsáveis políticos e culturais do país ofereciam ao público uma representação que beneficiava da transformação eminente destes sectores, proporcionando um espectáculo com actores; com cerca de trinta cenários e cerca de seiscentas peças de figurinos realizadas de propósito para o espectáculo sendo, muitas delas doadas ao Museu Nacional do Teatro.
Porém, hoje a situação mudou e o sector têxtil, que geograficamente caracteriza a região do Minho, vive um momento de crise. Trata-se de um sector, maioritariamente, suportado por microempresas com uma autonomia financeira negativa.

Segundo fonte da Associação Têxtil e Vestuário de Portugal (ATP), embora tenha um conhecimento e proximidade geográfica e cultural dos mercados tradicionais, a indústria têxtil portuguesa perde pelo individualismo empresarial, pela incapacidade para criar ligações entre empresas e pelo insuficiente nível educacional e formativo dos recursos humanos, incluindo a área do design. Por um lado, uma das oportunidades de mudança passa pela cooperação empresarial para ganhar dimensão crítica, sustentabilidade e, eventualmente, competitividade. Por outro lado, uma das possibilidades de transformação passa pelas conexões com a Academia.

No Instituto Politécnico de Viana do Castelo (IPVC) os cursos de Design desenvolvem projectos de investigação/ensino que estimulam a criatividade sustentável em áreas de investigação empresarial como o Design Estratégico, o Design Sustentável, o Design e Desenvolvimento de Materiais, entre outras, aplicadas a diferentes sectores. Um dos parceiros das licenciaturas em Design de Ambientes e Design do Produto e do Mestrado em Design Integrado é o Teatro do Noroeste - Centro Dramático de Viana do Castelo (CDV), a companhia profissional de teatro residente no Teatro Municipal Sá de Miranda em Viana do Castelo.

Com mais de uma centena de produções, o Teatro do Noroeste - CDV utiliza uma metodologia aberta, cruzando-se com diferentes profissionais nacionais e internacionais, desde actores, encenadores, músicos, cenógrafos ou investigadores. Esta ligação entre disciplinas distintas prolonga-se a outras actividades. Para além, da cenografia, da encenação ou da arte de representar é possível criar vínculos com áreas como a carpintaria ou o sector têxtil.

Estas ligações podem despontar um processo de polinização que se expande, consequencialmente, a outras actividades. Designadamente, o trabalho de design de figurinos e de cenografia pode ser uma ocasião para criar ligações com ofícios que estejam hibernados e com necessidade de inovação como acontece com o trabalho de costura ou da carpintaria. A ligação entre entidades da mesma região pode ser a chave de leitura para a sua sustentabilidade.

Até à véspera do Natal, o Teatro do Noroeste - CDV apresenta cerca de dez espectáculos com encenações de Ricardo Simões, Fernando Gomes e Gillermo Heras, com temáticas para toda a família, como ‘O Gato das Botas’, ou com temas que apelam a uma reflexão permanente acerca de temas do nosso quotidiano como as ‘Pequenas Peças Desoladas’.
No mesmo ano da estreia do espectáculo de Filipe La Féria, o Teatro do Noroeste - CDV fez a sua primeira estreia pública. Passados quase 25 anos é tempo de dizer: passa por mim no Sá de Miranda!

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