Receber 2016 acreditando na força de cada um na criação de um novo Tempo

Ideias

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Isabel Estrada

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Caminhamos a passos largos para o fim de mais um ano. Por estes dias, sentimo-nos divididos entre passarmos em revista o ano que finda e em nos concentramos numa espécie de invocação positiva do ano novo que queremos receber com renovada esperança.
Sobre o ano que termina, cada um fará a seleção dos seus momentos vividos e que deseja perpetuar na sua memória, ou que sabe irão sobrepor-se de qualquer forma à sua vontade de os guardar, pela força ainda que indesejada da sua excecionalidade.

Sobre o ano que virá, cada um guardará também as suas esperanças e planos, por vezes escrevendo-os numa folha de papel como se pela forma escrita lhes garantisse já uma primeira materialização e assim, maiores possibilidades de uma completa realização; outras vezes, dizendo-os só no silêncio de si mesmo, como para os proteger de qualquer sopro de inveja que os possa enfezar. E do Mundo, que memórias devemos guardar, e que desejos lhe devemos reservar?

Escolho deliberadamente o verbo ‘dever’ em vez de ‘querer’, em primeiro lugar, porque cada um é sempre livre de recordar sobre 2015 e de desejar para 2016 o que bem quiser, seja sobre si, seja sobre o Mundo, e em segundo lugar, porque o que se quer pode até ser avesso ao quês e deve. Por exemplo, eu não queria ter de recordar das centenas de meninas nigerianas reféns do criminoso Boko Haram, arrancadas às suas famílias, roubadas à sua felicidade de meninas, nem dos 148 estudantes cristãos assassinados a sangue frio na Universidade de Garissa, no Quénia.

Não queria, mas sei que devo. Eu não queria ter de recordar a silhueta de Aylan Kurdi, com o seu corpinho de três anos aprisionado na tranquilidade paralisante da morte, jazendo nas margens de uma praia turca, às portas de uma Europa-refúgio que pouco faz para acolher, dividida que anda entre a necessidade de manter um discurso humanista e inclusor e a tentação xenófoba, feudal, de se fechar cada vez mais sobre si mesma. Não queria, mas sei que devo.

Também não queria ter de recordar os ataques a Beirute, a Istambul, a Paris, das centenas de mortes provocadas pelo terrorismo, veículo de fundamentalismos sinistros e opacos. Não queria, mas sei que devo. Não queria ter de me lembrar que o Planeta está cada vez mais próximo do colapso ambiental, por culpa da ação humana e que tragédias como a do Rio Doce no Brasil tornam tão gritantemente evidente que já não há espaço para acomodar as vozes dos que teimam em dizer que tudo não passa de um discurso ecologista radical sem bases científicas.

Não queria, mas sei que devo. Também não queria nada, mas mesmo nada, ter de recordar os buracos do BES, do BANIF, nem os economistas, jornalistas, e tantos outros especialistas, que diariamente nos rebaixam, assinalando a nossa falta de cultura económica e financeira, a nossa ignorância técnica que nos impede de ver o que para eles, gloriosos sábios, são as evidências da perdição e da salvação das economias. Não queria, mas sei que devo. Mas, porque devo?

Porque na base de todos estes eventos, nas suas diferentes escalas e dimensões, por inverosímil que pareça, estou eu, está cada um de nós, está o nosso dever de contribuir para a mudança, para um novo Tempo em que estes males não tenham de ser encarados como inevitabilidades dos tempos, das sociedades. Ora, para fazer um novo Tempo é preciso não esquecer que tempo queremos combater, que ideias queremos derrubar, que ações queremos condenar e não repetir.

Perante os exemplos aqui expostos, e à primeira vista, a ação individual parece demasiado insignificante para ser levada em conta, seja no combate às ideias fundamentalistas, seja na proteção da biodiversidade da Terra, ou seja em algo menos colossal como a decisão sobre as melhores opções de governação de uma sociedade.

No entanto, a ação individual é o que cada um de nós possui, para daí fazer emergir a força das ações coletivas. Tudo começa de muito pouco e é preciso que cada um de nós saiba reclamar esse muito pouco que é seu, o seu direito e o seu dever de participar, de decidir, de transformar. Abdicar desse direito-dever, desculpar-se com a impossibilidade de lutar contra os lobbies, as forças, as elites, os mercados, os governantes, é aniquilar-se, é reduzir-se a nada, e isso nunca pode ser a solução. Tenho por isso muita dificuldade em compreender que em momentos claros para a manifestação de vontade, como são por exemplo os momentos para a escolha de novos governantes, nos acobardemos e deixemos que outros decidam por nós, a pretexto de que a nossa manifestação de vontade e a nossa escolha de nada valem. Não será assim que nascerá um novo Tempo.

Desejo por isso que para 2016 cada um assuma consigo mesmo um firme compromisso: o de não desperdiçar a força da sua ação individual na construção da diferença, na construção de um Planeta mais saudável, de uma sociedade mais justa, de uma comunidade mais humanista, de uma Europa menos hipócrita, de um Portugal menos desigual e menos pasmado, de um novo Tempo para cada um e para todos.

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