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Ensino

autor

Liliana Esteves

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Educar é caro.
Educar é-nos caro.
Educar sai caro.


É com base nestas três premissas que pretendo orientar a minha reflexão sobre alguns parâmetros que norteiam a ação educativa.
Educar é caro. Implica investimento em vários domínios, entre os quais também o financeiro. Sim, educar é caro. Tanto assim é que a lógica que impera nalguns contextos é a de “aluno-cliente”, assunção que pode, em alguns casos, tornar difícil distinguir onde se traça a linha entre “educar” e “agradar ao cliente”.

Não que tal seja, à partida, difícil. Basta ter em mente uma série de regras que em qualquer empresa são basilares e cuja não observação tem impactos na relação com colaboradores, fornecedores e clientes: poderá implicar a saída dos primeiros, a cessação de negociação ou a contratualização com determinado cliente. Tão simples quanto isso. Qualquer empresa sabe que se a quebra de relação não for possível em função do contratualizado, então torna-se imperativo dotar os seus colaboradores de ferramentas e instrumentos que lhes permitam minimizar os impactos causados a curto, médio e sobretudo a longo prazo pelos clientes que desrespeitam o seu papel de cliente, com direitos e deveres para com a entidade que lhes presta o serviço.

Qualquer empresa sabe isto e põe isto em prática, sob risco de ver o seu volume de negócios decair através da constante e progressiva depauperação da sua imagem. O que a curto prazo não se faz, a longo prazo não se remedeia.

Educar é caro, mas mais caro ainda quando não se investe no que verdadeiramente implica educar: aprender a respeitar direitos e deveres. Sem exceção de nenhuma das partes.
Educar é-nos caro. Quem opta pela carreira docente, à partida (porque há exceções em tudo!) tem uma vontade enorme de abraçar a profissão e de dar tudo o que tem (e às vezes bem mais do que isso!) em prol do benefício dos seus alunos.

Quem de facto abraça esta premissa, arranja sempre forças para investir junto dos seus alunos, de modo a prepará-los para os desafios de amanhã, mas também para os de hoje. E não há como abraçar a profissão com verticalidade sem exigir verticalidade em troca. Educar não é apenas debitar conhecimento empírico. Educar é também guiar no desenvolvimento de competências psicossociais, refletivas, dialéticas, estruturais, etc. Educar é dizer “Não!” quando “Não!” tem de ser dito. Da mesma forma que um progenitor diz “Não!” quando o seu descendente alegremente tenta colocar os dedos na tomada elétrica…!

O NÃO faz parte da vida e devemos tê-lo presente e ensiná-lo aos alunos. Não de forma arbitrária, mas de forma justa e coerente. Devemos sublinhar os seus direitos, mas também exigir que cumpram os seus deveres. E se não o fizerem? Poderemos optar por fazer o aparentemente fácil: varrer as coisas para debaixo do tapete e esperar que não se levantem muitas ondas... Mas não nos esqueçamos das consequências: estaremos, desse modo, a ensinar aos alunos que cumprir regras é um acidente do acaso a que só alguns estarão sujeitos se a tal lhes aprouver.

Que futuros adultos estaremos a preparar assim? Adultos irresponsáveis sem noção de respeito pelo outro, alheios ao princípio basilar da instituição democrática que assenta no equilíbrio entre direitos e deveres; adultos egoístas, revanchistas, desregrados - alguns porventura criminosos! E porquê? Porque eles metem a mão na tomada elétrica e nós assistimos impávidos e serenos; depois, queimados, desatam a partir coisas e a prejudicar outros à sua volta, e não reagimos, e o ciclo perpetua-se… e depois a casa já está toda partida! E haverá quem possa dizer “há outras casas que estão partidas tal como a nossa..!”, e isso poder deixá-los muito mais descansados… Tal como os alemães ficaram em 1945 quando souberam que também havia campos de extermínio em outros países, como na Polónia… É um argumento que pode descansar qualquer um, sem dúvida.

Exceto aqueles para quem educar lhes é caro. Esses, como nós, docentes da EPB, querem que os alunos cresçam enquanto cidadãos conscientes de si e do outro, dos limites éticos, sociais, pessoais, legais e institucionais que não podem ser ultrapassa- dos sem que haja consequências, porque se consequências não houver, estaremos a educar, sim, mas para o pioramento ativo da sociedade.

Educar sai caro. Bom, educar só sai caro se quisermos. Uma instituição consciente do seu potencial que se esmera em aprimorar não só a sua imagem externa, mas também a interna junto de todos os que a compõem, só terá a ganhar em termos de funcionalidade, pois assim os próprios clientes que verdadeiramente procuram a instituição para dela retirar proveito, e se esforçam nesse sentido, se sentirão respaldados no seu propósito se virem que quem não cumpre com os seus deveres é responsabilizado por isso - seja colaborador ou cliente da empresa. Assim, mais e mais clientes procurarão a instituição pela potencial excelência da sua oferta e do seu PROJETO EDUCATIVO, e não por ser um recurso último para quem não se encaixa - ou não é recebido - em mais nenhum contexto escolar.
Educar não tem de ser caro nem de sair caro. Tem, isso sim, de nos ser a todos, sem exceção, cada vez mais caro.

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EduCaro

29 de Março de 2016 às 17:59h por LIS FERNANDES

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