Professores e alunos: interesses compatíveis?

Voz às Escolas

autor

António Pinto

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Há uma relação indissociável entre o professor e o aluno, isto é, sem alunos não há professores. Embora “lapaliciana”, esta é uma verdade muitas vezes esquecida ou tecnicamente obliterada. Vem isto a propósito de uma situação preocupante e que começa a ter efeitos no sistema de ensino no litoral, tal como a desertificação teve no interior, não raras vezes promovida ou acentuada com o beneplácito de muitos políticos. Hoje a baixa natalidade não é apenas um problema do interior, agora desertificado e sem infra-estruturas, é também das cidades do litoral, cujas escolas começam a sentir a falta de alunos.

Esta é uma realidade com que as escolas se estão a deparar e já é bem visível na forma como competem umas com as outras na tentativa de minimizar os seus efeitos negativos. Se continuamos a defender o nosso quintal, indiferentes ao que se passa no do vizinho não conseguiremos resolver um problema que é de todos e exige e colaboração e trabalho em equipa. Se continuamos com a mentalidade bem portuguesa do desenrascanço que não é mais do que a variante do “salve-se quem puder”, indiferentes ao que se passa no país não conseguiremos resolver o problema com o mínimo de efeitos negativos possíveis.

Não há alunos porque não há crianças e este problema só se resolve na origem, criando condições para que se possa fazer o rejuvenescimento da população com medidas de apoio real e efectivo à natalidade. Esta é uma realidade que os sindicatos dos professores parecem querer ignorar, mas com o qual têm de saber lidar nos seus processos reivindicativos. Todos sabem o que se está a passar e sendo legítima a defesa de interesses corporativos, não se deve esquecer esta realidade insofismável de que só há professores se existirem alunos.

Os interesses corporativos, por muito legítimos que sejam não podem sobrepor-se aos interesses dos alunos e a uma gestão equilibrada de recursos por parte do Estado, até porque somos todos nós, com os nossos impostos, que financiamos o seu funcionamento. Não seria a altura de os sindicatos dos professores começarem a defender outras soluções mais adequadas e realistas na defesa dos interesses da classe docente do que a simples contabilização e reivindicação de lugares de quadro que já ou a breve prazo são insustentáveis pura e simplesmente porque não há alunos?

Será que os sindicatos não têm acesso aos dados da demografia do nosso país ou estão a fazer de conta de que nada se passa? E já agora, qual a posição dos sindicatos relativamente aos professores do ensino privado que, não tendo aí lugar (faltam os alunos), se candidatam ao ensino público passando à frente de todos os outros? Os “horário zero” são aplicáveis apenas ao ensino público? Para que não haja dúvidas entendo que devem estar no sistema todos os professores que são real e efectivamente necessários e que deve ser facilitada a aposentação a todos os que já não reúnem condições para prestar um serviço de qualidade, respeitando e reafirmando todo o seu trabalho anterior e permitindo-lhes terminar a carreira com a dignidade que merecem e a que têm direito. Porque é que os sindicatos não se debruçam prioritariamente sobre estes problemas e procuram as melhores soluções, em vez de tentarem defender o indefensável? Não seria preferível discutir uma reorganização da componente letiva para os docentes com mais de 60 anos? A bem de todos, temos de assumir o que tem de ser feito!

Porque falo do interesse dos alunos, e é esse que deve presidir à acção educativa, seria de todo conveniente que o ministério da educação regulasse e controlasse os atestados médicos. Temos professores que, efectivamente esgotados e com problemas de saúde muitas vezes de origem profissional precisam de baixa médica e devem ser respeitados e apoiados. Na sua grande maioria são docentes que deram o melhor da sua vida ao ensino, contudo temos outros, felizmente poucos, que consideram que os alunos são um apêndice inevitável e necessário e metem baixa médica porque, simplesmente, não sabem ou não querem lidar com os alunos. Regular e controlar mais eficazmente os atestados médicos é urgente e necessário.

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