As Nações Unidas num tempo de desunião: a importância da escolha do próximo secretário-geral

Ideias

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Isabel Estrada

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Dos nove candidatos formalmente apresentados por estados-membros das Nações Unidas, António Guterres terá sido (pelo menos assim se esperaria por parte dos media nacionais… mas adiante) aquele que nos mereceu maior atenção durante a sua prestação na sede das NU em Nova Iorque, no passado dia 12 de Abril.

A audição prévia de todos os candidatos, é uma forma de conhecer o seu programa eleitoral, a sua proposta de governança, num convite claro a uma maior discussão pública das ideias de quem se propõe ao cargo. Só por si isto já é um procedimento inédito que sustenta a eleição do próximo SG, já que, até Ban Ki-moon, o SG era basicamente discutido pelo Conselho de Segurança que depois o submetia a votação na Assembleia Geral que nunca rejeitou nenhuma proposta do CS. Tal facto levou ao longo dos anos a crescentes críticas por parte da sociedade civil transnacional à falta de transparência e de debate em todo o processo de nomeação do SG.

O discurso de António Guterres teve essencialmente duas dimensões. Por um lado, foi um discurso muito bem articulado e estruturado, com a identificação de uma agenda clara no que respeita às prioridades de ação, mas sóbria quanto às reais capacidade do um SG na concretização de planos mais ambiciosos. Um SG não vem mudar o Mundo.

Foi ainda um discurso no qual Guterres soube sublinhar as suas competências de liderança e de boa gestão interna de um organismo complexo como o ACNUR, as suas competências de mediador, ao referir-se ao processo de independência de Timor e em que apresentou a sua visão para uma ONU mais coordenada, menos burocrática, mais transparente nos seus processos internos, mais contundente no sancionamento dos seus agentes que não estejam à altura das suas funções e dos valores que devem promover no terreno.

Por outro lado, foi um discurso de coração, de compromisso, de entrega, assente na defesa intransigente do diálogo, da aceitação do Outro, da aproximação dos povos. Neste aspeto, outros candidatos elegem batalhas idênticas às de Guterres (combate ao terrorismo, defesa dos refugiados) mas de forma, pareceu-me, muito menos assertiva. A ideia do diálogo, da palavra como instrumento de combate à violência, ao racismo, à xenofobia surgiu como uma das ideias centrais do seu discurso.

Mas também a ideia de que a palavra se deve aliar a ação forte sempre e quando o que esteja em causa seja a defesa da dignidade e da liberdade humana contra entidades sobre as quais não pode haver dúvidas quanto à sua natureza anticivilizacional e antropofágica. Aí sublinho a sua ideia da necessidade de combater militarmente o Daesh, numa linha kantiana de que não é possível ser-se tolerante com a intolerância.

António Guterres tem alguns candidatos fortes na ala feminina, desde logo Irina Bokova, atual directoria-geral da UNESCO e que contará certamente com o lobby da Rússia tanto no Conselho de Segurança, como posteriormente junto da Assembleia Geral. Por outro lado, a possibilidade de ter uma SG que colhe a simpatia de Moscovo, poderá ser-lhe prejudicial na medida em que poderá levar muitos estados a preferir uma escolha mais equidistante, de uma figura que corra menos riscos de ser afetado na sua ação e discurso pela agenda russa. Mas a verdade é que Bokova reúne duas características que há muito se apontam como sendo as que deverão nortear a escolha do próximo secretário-geral: é mulher e é de um país de Leste (a Bulgária), geografia que até hoje não conta com nenhum SG da ONU.

Com menor capacidade de mobilização, mas também enquadráveis neste perfil, estarão também Vesna Pusic, que já foi vice-primeira-ministra e ministra dos negócios estrangeiros da Croácia, e Natalia Gherman que conta no seu curriculum com os cargos de ministra dos negócios estrangeiros e de primeira ministra da Moldávia. Em comum, seja entre estas três mulheres, seja com Guterres e com os restantes 5 candidatos, estão nas suas intenções o combate ao terrorismo e a defesa de um mundo melhor. Mas esta não é a eleição de Miss Universo.

Curiosamente, creio que num tempo mais pacífico das relações internacionais, atender a questões de género ou de equidade geográfica faria muito mais sentido do que hoje, num contexto de degradação acelerada dos Direitos Humanos, de que a crise dos refugiados na Europa é apenas uma expressão e, dependendo do ângulo de visão de outras geografias do Mundo, nem sequer a mais dramática. O Mundo sente que está na iminência de algo, de algo grave, de um ponto de não retorno. Não me parece por isso que haja espaço para ter em mente critérios cuja pertinência política seria mais defensável em tempos em que o essencial (a Vida, a Humanidade) não estivesse tão seriamente ameaçado.

António Guterres é certamente um candidato muito forte. Teve um percurso impoluto à frente do ACNUR, sem um único caso que beliscasse a sua imagem de homem de ação, de valores, e de compromissos com a Humanidade. Tem provas dadas das suas capacidades de boa gestão, liderança por consensos, transparência e de gosto pela ação concretizadora da intenção e da palavra. É igualmente uma figura que pode ser vista como equidistante, com larga experiência diplomática, negocial, política, oriundo de um país do Sul da Europa, o que de certo modo o posiciona numa geografia periférica equivalente à de Leste, e que simultaneamente o salvaguarda de ser visto como próximo de geografias mais problemáticas na balança de poder internacional, como a russa.

À maioria dos portugueses, diariamente massacrados com notícias contraditórias sobre a performance da nossa economia e sobre as perspetivas do nosso futuro, talvez a escolha do SG da ONU pareça coisa menor, para mais quando o cidadão Português em questão é ainda de má memória para alguns sectores da nossa sociedade que recordam os governos de Guterres como o início do fim de uma pseudo-prosperidade que, em boa verdade, só tivemos de forma algo ilusória durante menos de uma década.

Em todo o caso, poder ter um Português num dos cargos mais altos da diplomacia mundial é mais do que um motivo de orgulho nacional; poderá ser também uma forma de nos termos a todos mais atentos à complexa agenda internacional na qual misérias como a nossa são na verdade insignificantes quando comparadas com a miséria real de tantos outros povos, que nos olham ainda assim como uma sociedade de bonança entre outras de igualmente invejáveis e distantes.

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